
O prazer da leitura pode vir de vários lugares. Pode ser o gênero literário, a linguagem do autor, o tema em si. O leitor não precisa saber de onde vem sua identificação com o livro, assim como um quadro pode emocionar sem que se conheçam as técnicas ou o movimento artístico a que pertence. Ter noções sobre os métodos artísticos, processos criativos e história da arte, porém, pode enriquecer a experiência. Na literatura, é a mesma coisa.
Leitora voraz e profissional da escrita – como jornalista e autora de livros especializados -, procurei a pós-graduação em escrita criativa do Instituto Vera Cruz para encontrar uma voz literária. Ao adquirir consciência dos recursos narrativos, porém, me tornei acima de tudo uma leitora melhor. É exatamente isso que o livro Ser Escritor – Liberdade e Consciência na Criação Literária, de Roberto Taddei (Companhia das Letras), traz para qualquer um que busca aprimorar sua relação com a literatura.
Taddei é romancista e coordenador da pós-graduação do Vera Cruz, onde foi meu professor. A partir de autores clássicos e contemporâneos, entre os quais Virginia Woolf, Clarice Lispector, Anton Tchékhov, Jorge Luis Borges, Geovani Martins e Cidinha da Silva, vai desvendando como cada escritor constrói seu caminho, ao mesmo tempo que nos ajuda a identificar nas obras o narrador e os personagens, qual é o foco narrativo e o ponto de vista, o tempo e o espaço apresentados. Ao começar a perceber esses “detalhes”, é impossível se relacionar com os livros da mesma forma; é como se ganhássemos intimidade com o autor, entendêssemos suas intenções. Nos tornamos mais críticos, mas a leitura se torna muito mais instigante.
Escritos sobre escrita
Muitos autores abrem esse caminho ao escrever livros sobre o tema. De Haruki Murakami, com Romancista como Vocação, a Stephen King, com Sobre a Escrita, a George Orwell, com Por que Eu Escrevo, há opções de sobra. Uma opção que adorei é Tutano da Palavra – Escritos sobre Escrita (Editora Pitanga), lançado neste ano, com a participação de 13 autores que passaram pelo Curso Livre de Preparação de Escritores da Casa das Rosas, em 2024. Sob o tema “tornar-se escritor”, tem um título direcionado justamente para a busca pelo que sustenta, o tutano que dá força a essa tarefa.
Os textos, em forma de ensaios, contos e crônicas, são um testemunho do ofício e suas estratégias, divagações sobre o chamado da escrita, como persistir e sobreviver nessa arte. São, acima de tudo, fabulações sobre o fazer literário, como no ensaio de Mariana Lobato Botter, intitulado Sobre o quê, para quê e para quem escrevo?“:
“Tenho dificuldade de conceber aquilo que não consigo nomear. Talvez nem seja mesmo possível. Como aquilo que não tem nome, é impossível lidar.
Assim, escrevo para dar forma ao que vejo, sinto e desejo, mas cujos contornos ainda não estão bem definidos.
(…)
Escrevo, portanto, para quem olha ao redor e sente o mesmo incômodo: a falta de entendimento, a visão obscurecida pela miséria de símbolos ou pelas camadas ideológicas impostas à experiência individual e coletiva.”