
As geleiras das montanhas alimentam rios que matam a sede, irrigam lavouras e sustentam usos domésticos e industriais em regiões habitadas por bilhões de pessoas. Embora sempre tenham sido instáveis, durante muito tempo as comunidades aprenderam a reconhecer seus perigos e a evitar as áreas mais expostas. Esse pacto frágil, porém, está se desfazendo. A causa principal é o aquecimento global, mas a crise também passa por falhas de governança, infraestrutura vulnerável e ocupação desordenada do território.
No fim de agosto, na fronteira entre Nepal e Tibete, a natureza voltou a demonstrar que esse equilíbrio está se rompendo de forma talvez irreversível. Um pedaço de gelo, rocha e solo despencou de grande altitude e transformou um vale himalaico em uma torrente de lama, árvores arrancadas, pontes e casas destruídas. Em poucos minutos, o que era uma paisagem idílica virou o palco de uma tragédia.
A última atualização registrava mais de 1.200 mortos e mais de 4 mil desaparecidos no Nepal, além de vítimas do lado tibetano. Os números ainda são provisórios, porque buscas e resgates prosseguem em uma região de acesso difícil. Ainda assim, a dimensão humana já é inequívoca: trata-se do desastre natural mais mortal do Nepal desde o terremoto de 2015.
A enxurrada que nasceu no gelo
O episódio ocorreu na manhã de 26 de agosto, no distrito nepalês de Rasuwa, junto à fronteira chinesa. Em princípio, imaginou-se tratar de um terremoto. O Serviço Geológico dos Estados Unidos, porém, reclassificou o sinal sísmico, de magnitude 5,2, como efeito do próprio colapso glacial. Imagens de satélite indicam que um bloco de aproximadamente 0,2 km² da geleira se desprendeu e caiu cerca de 1.200 metros.
A avalanche não parou ao alcançar o vale. Gelo e rocha se misturaram, incorporaram água e sedimentos, e a massa bloqueou temporariamente o Lhende Khola, afluente do sistema Bhotekoshi-Trishuli. Nasceu ali uma barragem improvisada. Quando ela se rompeu, liberou uma enchente relâmpago. Em um ponto do rio Trishuli, a água subiu até nove metros em apenas meia hora.
É importante nomear corretamente esse mecanismo. Não foi, pelo que se sabe até agora, o rompimento de um grande lago glacial – uma causa conhecida de desastres desse tipo –, tampouco um terremoto que sacudiu a montanha. Foi uma sequência de efeitos: colapso de gelo e rocha, barramento do rio, ruptura da barreira e fluxo de detritos. Cada etapa ampliou a anterior e mostrou como eventos de menor escala podem se encadear em poucos minutos até formar um megaevento catastrófico.
Quando o gelo deixa de ser âncora
A pergunta inevitável é se o aquecimento global causou a tragédia. A resposta responsável não cabe em frases bombásticas que atribuem todos os desastres ao clima mais quente. Cientistas ainda precisam investigar o papel exato do clima no desprendimento particular daquela geleira. Não houve registro de chuva excepcional imediatamente antes do evento, e as imagens anteriores não mostravam a formação de um grande lago no local. Atribuir cada avalanche ao aquecimento seria, no mínimo, uma conclusão apressada.
Seria um erro ainda maior, porém, ignorar o que já sabemos. O planeta mais quente derrete geleiras e descongela o permafrost, a camada permanentemente congelada que funciona como uma espécie de argamassa invisível nas altas encostas. Quando essa argamassa começa a descongelar, fendas se abrem, blocos de rocha se deslocam e massas glaciais podem se tornar instáveis. No Hindu Kush Himalaia, a perda de gelo dobrou desde 2000. Entre 1990 e 2020, a região perdeu cerca de 12% de sua área glacial e 9% de suas reservas estimadas de gelo.
O problema não é apenas o desaparecimento do gelo. À medida que as geleiras recuam, deixam atrás de si encostas desprotegidas e lagos represados por morainas frágeis; ao mesmo tempo, o degelo altera rios, energia, agricultura e abastecimento. O IPCC afirma, com alta confiança, que o recuo de geleiras e o descongelamento do permafrost reduzem a estabilidade das encostas, ampliam os lagos glaciais e mudam a frequência, a magnitude e a localização de perigos associados aos glaciares de montanha. Também adverte que eventos em cascata podem aparecer onde não há registro de episódios anteriores.
Entre o Himalaia e os Alpes
A pergunta que esses casos impõem é simples: o que separa uma tragédia inevitável de um desastre evitável? A resposta costuma estar menos na força da avalanche e mais na capacidade de antecipar, monitorar e retirar pessoas e ativos das rotas naturais de destruição.
O vale do Lhende Khola não é uma anomalia isolada. Em fevereiro de 2021, em Chamoli, no Himalaia indiano, cerca de 27 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo se desprenderam do Ronti Peak e se converteram em um fluxo de detritos capaz de transportar blocos de mais de 20 metros de diâmetro. Mais de 200 pessoas morreram ou desapareceram; duas hidrelétricas foram devastadas. A violenta avalanche encontrou, vale abaixo, infraestrutura e trabalhadores particularmente expostos [5].
Em maio de 2025, a Suíça assistiu a uma versão alpina do mesmo encadeamento geológico. Cerca de 20 milhões de toneladas de gelo e rocha desceram sobre Blatten, no vale de Lötschental, e destruíram quase toda a vila. Desprendimentos no maciço de Kleines Nesthorn haviam lançado material sobre a geleira Birch, aumentando sua instabilidade até o colapso.
O caso de Blatten, no entanto, contém um elemento decisivo: a população foi evacuada nove dias antes. A vigilância da geleira e a decisão de retirar moradores reduziram a uma morte, evitando uma catástrofe que poderia ter ceifado centenas de vidas. A avalanche ainda bloqueou o rio Lonza, criando risco de nova inundação a jusante, mas mostrou a diferença prática entre antecipar o perigo e simplesmente esperar que ele se manifeste.
Nas regiões polares, o desprendimento de blocos gigantes de gelo oferece imagens impressionantes. Nas montanhas, porém, colapsos menores podem ser mais urgentes porque descem sobre vales habitados, estradas, hidrelétricas, hotéis e casas. Ainda faltam séries históricas longas para medir uma tendência mundial incontestável, mas as condições de risco avançam: gelo em retirada, encostas desestabilizadas, permafrost em degelo, lagos glaciais em expansão e chuvas intensas em um ar mais quente. O desastre nasce desse encontro entre uma montanha em transformação e uma sociedade exposta.
Essa distinção importa para o Brasil. Se no Himalaia o gatilho pode estar no degelo, aqui ele costuma vir da chuva extrema sobre encostas frágeis, rios comprimidos e cidades que naturalizaram a exposição ao risco. Muda o mecanismo físico; permanece a lógica do desastre evitável.
A lição para o Brasil sem gelo
Não há geleiras brasileiras para colapsar, mas a lógica da tragédia nos é familiar. Aqui, uma chuva extrema encontra encostas degradadas, rios estrangulados, drenagem insuficiente e moradias precárias. O resultado também se encadeia: deslizamento, enxurrada, inundação, apagão, interrupção de estradas, crise sanitária e deslocamento de famílias.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul afetaram mais de 90% do estado e deslocaram centenas de milhares de pessoas. O estudo que reconstruiu o episódio aponta uma combinação de chuva persistente, oceano mais quente, bloqueio atmosférico e El Niño; a inundação recorde não foi apenas excesso de água, mas a exposição de vulnerabilidades acumuladas.
Temos conhecimento e instrumentos, mas não na escala necessária. Dos 2.086 municípios brasileiros prioritários por risco de deslizamentos e inundações, 75% têm menos da metade dos planos e mapeamentos obrigatórios; 91% não dispõem de plano de obras para redução de risco. A distância entre esses números e Blatten é a distância entre retirar pessoas antes do colapso e contar os mortos depois dele.
A resposta não é tentar dominar montanhas, rios ou tempestades. É reduzir emissões para desacelerar a instabilidade que já está em curso; mapear áreas críticas; impedir novas ocupações em zonas sabidamente perigosas; financiar obras de adaptação; treinar alerta, evacuação e abrigo; e garantir reconstrução digna. A tragédia no Himalaia não é uma alegoria do fim do mundo. É uma advertência concreta sobre o mundo que estamos construindo — e sobre quanto isso ainda depende das escolhas feitas antes da próxima chuva.