
Temos inúmeros assuntos para serem discutidos antes das eleições, dada sua extrema importância para o futuro imediato e posterior de nosso Brasil. É lamentável que as campanhas eleitorais possam induzir os eleitores a votarem mobilizados por promessas que nunca se cumprem ou medos que são produzidos para mantermos-nos como “a massa da mandioca”, que, na voz de Raimundo Sodré, é “a dor de nem poder chorar”. Peço vênia ao leitor/à leitora para refletir sobre dois pontos que me parecem fundamentais.
O primeiro refere-se ao discurso conservador e neofascista que se travestiu de assertivas simpáticas, porém enganosas. O outro foco de reflexão trata da necessária atenção que precisamos ter a um elemento que nem sempre atentamos e que atende pelo nome de suplente. Sim, quem são os suplentes dos senadores que pretendemos eleger? Como são definidos os suplentes para as Assembleias Legislativas? Nesse bojo, vou inserir outra questão não menos importante: os vices. Algumas vezes eles passam despercebidos e não lhes conferimos o devido valor. Vamos lá!
Eleição é uma prática democrática e não se reduz à escolha de um candidato. Exige-se compreender o programa partidário, as alianças e as pessoas que efetivamente poderão exercer o poder. Trata-se do futuro da nação; por isso, é importante transformar o voto de ato episódico em exercício de responsabilidade cidadã. Para tanto, é mister entender as engrenagens e os movimentos políticos de cada momento. Todos sabemos que o voto não pode se reduzir a uma escolha fortuita, capaz de alçar a cargos públicos quem carece de autêntico compromisso com o país. Exatamente por isso, é imperioso refletir, debater, compreender a fundo o impacto de nossas escolhas no dia da festa da democracia e na constituição do projeto político que defendemos para a nação.
Parece importante que façamos um esforço para compreender como uma parcela considerável de nosso povo mais simples e das classes médias, que desejam defender seus interesses a qualquer custo, se torna objeto de disputa hegemônica, visando conduzi-los à produção do consentimento da própria opressão. Este é um nó górdio que precisamos desatar para enfrentar a extrema-direita. Diferente do século XX, quando o imperialismo e as oligarquias locais recorriam primariamente a golpes de Estado militares e tanques nas ruas, a extrema-direita continental, impulsionada pela alt-right norte-americana e pelo modelo trumpista, aprendeu a disputar “corações e mentes”. A conquista do poder hoje se dá pela via eleitoral e pela captura do ecossistema informacional, cooptando especialmente frações das gerações mais jovens e desiludidas. Existe uma bem tecida produção de artefatos culturais que invadem os tempos/espaços do cotidiano das pessoas pelas mais diferentes mediações.
Há uma responsabilidade histórica e uma profunda demagogia naqueles que, desde os anos 1990, negligenciaram a formação política e permitiram a erosão dos laços comunitários. Nesse cenário, as campanhas de desinformação não visam apenas distorcer o presente, mas reescrever a história contemporânea diante dos nossos olhos. Tenta-se apagar da memória coletiva o rastro de destruição do recente período pandêmico. Por exemplo: o negacionismo científico deliberado (The Lancet, v. 396, 2021), a política de atraso na aquisição de vacinas, o estímulo a tratamentos ineficazes e a sabotagem sanitária custaram mais de 700 mil vidas brasileiras e provocaram o retorno assustador de doenças até então erradicadas, como o sarampo. (Vide Relatório Final da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia do Senado Federal, de 2021).
A par dessa necropolítica, vigora o cinismo moral. Homens que praticam ou condescendem com a violência contra a mulher, o machismo estrutural e a misoginia, e que verbalizam discursos abertamente LGBTfóbicos, erguem a bandeira da “família tradicional” e dos “valores cristãos”. Por trás da fachada do “cidadão de bem”, ocultam-se adultérios, exploração e a completa falsificação da ética que pregam publicamente. É nesse ambiente de degradação que assistimos à desesperada tentativa de perpetuação oligárquica do poder, assumindo traços quase dinásticos. Meganarrativas de supostas benesses traduzidas num ilusionismo contorcionista que enchem os olhos daqueles cujas barrigas estão vazias. Mas, de fato, “entra ano, sai ano e nada vem”. E vem? A decepção de ter sido mais uma vez ludibriado.
O extremismo de direita não deve ser confundido com o conjunto das posições conservadoras ou com as correntes de direita que disputam legitimamente o poder no interior da democracia. Trata-se de uma forma de radicalização política marcada pela intolerância ao pluralismo, pela construção de inimigos, pelo nacionalismo excludente, pelo autoritarismo e, em determinadas circunstâncias, pela legitimação da violência e deslegitimação das instituições democráticas. É justamente quando esses elementos se articulam que a extrema-direita deixa de constituir apenas uma posição ideológica radical e passa a representar uma ameaça às condições que tornam possível a própria democracia. Quero defender aqui que a polarização exacerbada é algo naturalizado pelas narrativas eleitorais que não disputam propostas de construção da nação, mas tão somente os espaços do poder. Pois, enquanto nos digladiamos como inimigos, o tosco véu do poder dominador e destrutivo se disfarça e segue impune.
Para delimitar meu posicionamento, explicito categorias teóricas que norteiam esta leitura: O conservadorismo caracteriza-se pela valorização da tradição, da ordem, da continuidade institucional e de mudanças sociais graduais, podendo conviver plenamente com o pluralismo e as instituições democráticas; já a direita radical dissemina posições nacionalistas, autoritárias ou populistas, tensionando princípios da democracia liberal, sobretudo o pluralismo e os direitos de determinados grupos. Por seu turno, a extrema-direita recorre frequentemente à construção de inimigos internos e externos e à defesa de formas mais excludentes e autoritárias de organização social. O fascismo acrescenta a esse universo o ultranacionalismo, o antiliberalismo, o culto ao líder, a mobilização política de massas e a legitimação sistemática da violência para destruir o pluralismo democrático. Enquanto isso, o neofascismo designa a reatualização, em contextos posteriores ao fascismo histórico, de elementos fascistas — como autoritarismo, ultranacionalismo, culto identitário, construção de inimigos e rejeição do pluralismo.
Vou insistir tantas vezes quanto eu possa na necessidade do diálogo. Na paciência de quem sabe que o amanhã não chega sem conflito, sem dor, sem persistência. Defender um candidato como quem vende produtos em lojas de departamentos não parece democrático e cidadão. Um projeto de nação não habita embalagens fantásticas, não se define no marketing eleitoral que visa tão somente o convencimento momentâneo para o sufrágio político. A lei que preconiza a mobilidade da quantidade em qualidade está para além de um simples exercício matemático. Como sabemos, pesquisas nada definem a priori. Apontam tendências! Mas as estatísticas são torturadas e seus resultados manipulados, visando à produção de um consenso deitado na ilusão do “já ganhou”.
Uma segunda questão fundamental a ser considerada diz respeito à definição da legislação eleitoral, que determina a escolha de dois suplentes, previamente selecionados, para cada político eleito ao Senado da República. Nesta eleição de 2026, vamos escolher dois senadores. Cada um acompanhado de dois suplentes; infelizmente, nem sempre fica muito evidente quais são. O que induz o eleitor à escolha de pessoas sem saber exatamente quem são.
Os suplentes poderão assumir a vaga do senador em condições determinadas, como, por exemplo, afastamento temporário ou definitivo do eleito. A legislação determina a divulgação de seus nomes no período da campanha eleitoral, e essa informação é por demais importante. Não é raro que um senador seja convocado para ocupar um cargo de ministro de Estado ou embaixador. Além disso, um senador goza da prerrogativa de até 120 dias de licença para tratamento de saúde ou outros motivos autorizados. São ocasiões em que o 1º suplente – ou o 2º, no impedimento daquele – assume o mandato enquanto o titular estiver em outra função. Nos casos de renúncia, morte ou perda do mandato por decisão da Justiça Eleitoral, a substituição passa a ser definitiva.
É preciso muita atenção e cuidado na escolha de quem você irá votar para o Senado. Porque vota em um, mas, na prática, está colocando três na possibilidade do pleno exercício do cargo: o titular, o 1.º e o 2.º suplentes. Assim, seu povo para senador pode terminar elegendo outra pessoa que você nem sabia que era candidata. A mesma coisa pode acontecer com o voto para deputado.
No caso dos deputados, a coisa é um pouquinho diferente. Nas assembleias legislativas federal e estaduais também vigora um sistema cuja regra define que os suplentes serão os candidatos mais bem votados do partido ou da coligação logo depois daqueles que foram eleitos. Nesse caso, um político não eleito para o cargo poderá vir a assumi-lo em caso de impedimento do titular.
Segundo a legislação eleitoral, o mandato do deputado não é só dele. É também do partido pelo qual ele se candidata. Em razão disso, a manifestação de preferência por um aspirante é contabilizada no somatório de votos válidos da legenda. Terminada a apuração, são eleitos os concorrentes mais bem votados, observando o quociente eleitoral. Dessa forma, não se trata unicamente da quantidade de votos adquiridos pelo postulante, mas, sobretudo, do número total de votos do seu partido e de quantos ele poderá ter de acordo com esse tal quociente. Assim, a gente pode ver um pretendente de outro partido eleito com um número de votos menor que um concorrente de outra legenda; como também pode ver outro com quantidade razoável de voto ficar fora do mandato. Para isso servem aqueles políticos que chamamos de “puxadores de votos”.
O importante é ficar claro que aqueles candidatos que não receberam número suficiente de votos para assumir o cargo podem ficar ali na fila, na condição de suplente. O cuidado que precisamos ter é com a legenda que estamos escolhendo, pois o voto não é um jogo de azar e o sufrágio concedido ao candidato ao parlamento é muito importante para a governabilidade das unidades federativas e da nação.
Embora não se trate de suplência e a definição apareça de forma inequívoca, precisamos, de igual modo, atentar para a eleição de vices. No Brasil, a lei determina que candidatos a presidente, governador e prefeito componham a chapa com um/a companheiro/a (vice), cuja função é substituir o titular em caso de impedimento ou sucedê-lo em caso de vaga. A Constituição não fixa atribuições administrativas obrigatórias fixas para ele. Nesse caso, dependem da delegação do chefe do Executivo ou de leis complementares. Mas não se pode esquecer de que a chapa majoritária é – ou deveria ser – sempre uma unidade política.
Infelizmente, quase sempre a composição da chapa majoritária é um xadrez político em que se busca acomodar interesses de diferentes correntes partidárias. O eleitor pode não estar claramente informado dos bastidores que configuraram a chapa de sua escolha e apenas se surpreender com um extemporâneo arranjo de chapa. Nesse caso, parece fundamental estudar com calma o perfil dos que foram definidos.
Precisamos lembrar que o primeiro presidente republicano, Deodoro da Fonseca, renunciou à Presidência sob forte crise institucional, deixando o cargo para seu vice-presidente, Floriano Peixoto. Contando com ele, pelo menos oito vice-presidentes galgaram o cargo de mandatário máximo do país, inclusive o maranhense José Sarney. O último vice-presidente a assumir a função o fez pela via do golpe de impeachment, em 2016, contra a presidenta Dilma Rousseff. Em Pernambuco, pelo menos três vice-governadores chegaram ao cargo majoritário. Com isso, creio que deixo firmado que a função de vice não é elementar. Merece nosso cuidado na hora do voto.
Não vislumbro armadilhas na determinação da escolha de suplentes e vices. Parece óbvio que o legislador assim definiu, propugnando o bem maior da nação, buscando dirimir problemas maiores em caso de vacância imprevista. Contudo, as estratégias dos barões da direita conservadora promovem silenciosa esparrela para perpetrar a manutenção de seu status quo. Daí que é de importância extrema tentarmos averiguar cuidadosamente os discursos, as promessas, os bordões dourados de mentiras. Analisar bem vices e suplentes implica uma responsabilidade cidadã.
Um projeto político mira para mais que eficiência administrativa; sedimenta-se na busca de justiça social e compromisso com os vulneráveis. Os pequeninos de nossa gente clamam por atenção, cuidados básicos, vida com dignidade. São trabalhadores informais e assalariados sem muita oportunidade; são pobres mendicantes, grupos de raça e gênero vulnerabilizados, crianças e adolescentes. Enfim, todo povo marginalizado. Daí que o voto requer que o eleitor ultrapasse a superfície da propaganda e investigue o projeto político, as alianças, os discursos, os suplentes, os vices e as consequências concretas de sua escolha.
Nossa esperança reside na reorganização das bases populares, na defesa intransigente da verdade histórica, no fortalecimento da educação pública e na construção diária de um projeto soberano que devolva ao povo trabalhador o protagonismo sobre o seu próprio destino. Nossa tarefa é promover um diálogo sincero e muito transparente no afã de fazer valer nossa maior arma cidadã que o momento nos propicia: o voto.