
Vivendo o Brasil, outro necessário ciclo eleitoral, ocasião em que a defesa da democracia se torna ainda mais dinâmica. Ocorrendo este pleito no momento de uma das maiores crises do STF e de um dos maiores escândalos no sistema financeiro (Banco Master, Daniel Vorcaro et al.), não tem como deixar de lado o modo pelo qual a mídia conservadora noticia e analisa os fatos. A elucidação dos esquemas e a revelação dos envolvidos, que progride semanalmente, ridicularizam o esforço parcial e partidário que determinadas empresas de comunicação fazem para atacar quem apresenta propostas para um país menos injusto e desigual. Assim, o que dizer daquele PowerPoint veiculado na GloboNews que, mais uma vez, colocava o presidente Luís Inácio, o Lula, como um dos principais eixos dos desvios do Banco Master? Ou, da insistente tentativa da revista Veja em associar seu filho, o Lulinha, aos escândalos do INSS?
A recorrência desse estilo segmentário de exercer o poder de produção de narrativas torna sempre atual a expressão cunhada pelo saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim, que, na época do impeachment da presidenta Dilma e da prisão de Lula por Sérgio Moro, denominava o conglomerado de comunicação (controlado por meia dúzia de famílias) de Partido da Imprensa Golpista – PIG. Sendo dispensado destacar que o referido acrônimo é a tradução para “porco”, em língua inglesa.
Todavia, não é de hoje que esses mesmos clãs apontam suas armas contra projetos voltados aos interesses da população mais carente. Assim, dois meses antes do Golpe Militar por ele apoiado, o jornal O Globo se volta contra o Plano Nacional de Alfabetização, que tinha Paulo Freire como um dos idealizadores, acusando-o de ameaçar os princípios cristãos (sempre o falso moralismo…) que, segundo eles, a duras penas, conseguia sobreviver no Brasil; inclusive nesta mesma edição de 7 de janeiro de 1964, difamando os objetivos do chamado Método Paulo Freire, já usava a expressão “comunização”, peja que atualmente não sai da boca da extrema direita (mesmo que não saibam se quer localizar no mapa países como Cuba, China e, muito menos, o Vietnã).
Depois do golpe, o bacamarte anticomunista continua disparando seus chumbos contra o Ministério da Educação do governo Goulart. Por conseguinte, na edição de abril do mesmo ano, o diário da família Marinho acusa o MEC de ter se tornado um centro de propagação ideológica e (mais uma vez…) comunista. Mas que, dali em diante, seguiria no rumo certo.
Aproximadamente quarenta anos após a impetração do regime ditatorial militar, em 20 de agosto de 2008, a revista Veja, a mesma que já bateu, várias vezes, seu próprio recorde de capas negativas contra o político Lula, anuncia, na capa, uma longa matéria sobre o que eles argumentavam ser a causa da baixa qualidade da educação no país.
Na seção com título “Você sabe o que estão ensinando a ele?”, acusam que, apesar da aprovação por pais e professores dos métodos de ensino nas escolas, “o sistema é medíocre”, fato cuja comprovação seria a colocação da educação nacional nas classificações internacionais.
Antes de concluir que os docentes, por não se prepararem corretamente, estão entre os grandes culpados pela situação, a seção Especial da referida edição, com o irônico título “Prontos para o Sec. XIX”, imputa, além dos professores, os livros didáticos por apresentarem a realidade brasileira sob prismas e lentes ultrapassados. O magazine ostenta textualmente que os professores, “com a justificativa de ‘incentivar a cidadania’, incutem ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos (SIC)”. Argumenta que, ao se dedicarem prioritariamente à formação para a cidadania (o que, na perspectiva da publicação, é uma tarefa de natureza difusa e ideológica), os mestres depreciam as funções fundamentais da escola, que, em sua visão, seria ensinar corretamente as matérias e conteúdos curriculares.
Isto é, segundo a concepção do periódico semanal, ensinar corretamente as matérias é incompatível com se ter por objetivo primordial a construção da cidadania…
Atravessando o Brasil este novo ciclo eleitoral, é momento para se refletir sobre os perversos impactos na vida social causados pela disseminação de insensibilidades sociais e perda da ideia de cidadania veiculadas pelas empresas que atuam (e lucram muito…) na área das comunicações e formação da opinião pública.