
Como sua cabeça funciona diante das manchetes, das situações impensáveis, dos desafios diários desse mundo em metamorfose trazido pelas telas? Pois acredito que encarar tantos embates, disputas de narrativas é um dos maiores obstáculos hoje para quem se importa com uma convivência “civilizada”. Para começo de conversa, o que é ser civilizado mesmo?
Tenho dúvidas do quanto essa construção, esse bailado de dois pra lá, cinco pra cá, que precisa acompanhar andamentos e melodias que se transformam em arranjos dissonantes, tem sido assimilado por quem tem decidido o futuro da dita humanidade. Estudar, ler autores que me tiram do lugar comum, tem me feito perceber o quanto vivemos em camadas e que, no geral, há quilômetros de distância de níveis de consciência e conhecimento.
Mas por que trago isso aqui? Acredito que tentar colocar pra fora nossas angústias é um jeito de não desanimar perante a vida. Estou passando por um momento que me faz enxergar na marra coisas que antes não queria ver. Preciso urgente dar um jeito em tanta coisa que, muitas vezes, não sei por onde começar.
Creio que isso não deve ser um problema só meu. O fato é que resolver os pequenos problemas do dia a dia é um jeito da gente ir avançando no calendário; porém, da forma que o contexto tem se apresentado, é frequente nos sentirmos sendo atropelados pelas novidades.
Um exemplo nítido é o quanto a Inteligência Artificial (IA) tem alterado o modo das pessoas funcionarem. Aprendi no fazer artístico e nas circunstâncias da vida que o grande barato da concretização de um projeto, uma peça de cerâmica, um desenho, um texto é o processo. Saborear o caminho. Ler um livro e não entender. Voltar, reler o parágrafo. Sublinhar o que entendeu. O que se aprende quando se pede um resumo de um texto no Chat GPT?
Junto com esse avançar, retroceder e reaprender está o grande lance da vida. Então, onde fica o nosso aprendizado se simplesmente fazemos um prompt, elencamos o que queremos e a Inteligência Artificial entrega tudo de mão beijada?
Para quem é adepto das manualidades, do bordado, da costura, sabe da construção no estilo piano, piano se va lontano, como diz o provérbio italiano popular que significa “devagar se vai ao longe”. A expressão enfatiza que ter paciência, consistência e calma permite chegar mais longe e obter melhores resultados do que a pressa, garantindo saúde e sucesso a longo prazo.
É inegável que a IA está trazendo benefícios e agilidade em vários sentidos. Porém, entendo que toda utilização precisa de reflexão. Até porque existem inúmeros tipos de IA, as de atacado, que lidam com dados dos usuários, e as de varejo, que ajudam a encurtar caminhos para coisas que dariam um baita trabalho, como organizar as referências bibliográficas de uma dissertação.
Mas, sinceramente, fico bem incomodada não só pelo tsunami que a IA está provocando em vídeos com desinformação e mentiras que rolam nas redes sociais, mas porque a comunicação tem sido prejudicada pelo desmoronamento das redes de confiança. Hoje, tudo que vemos, precisamos nos perguntar: será verdade? Quem está por trás disso?
Mais que isso, como convivo com uma juventude que já nasceu com os chips e bytes no comando, creio que o saber esperar, a paciência de compreender o tempo da natureza, das relações é algo que está sendo muito prejudicado.
Ou seja, se tudo precisa ser resolvido em minutos, em segundos, onde fica o banho-maria, o processo de ver as coisas serem assimiladas? Imagine isso nas relações, nas amizades, nos relacionamentos amorosos. Tudo exige tempo de amadurecimento.
Creio que esse impacto, de ter o discernimento do que podemos usar e do que é melhor para nós no longo prazo, é um dos desafios dessa nossa modernidade líquida. Hoje somos cobaias de mecanismos tecnológicos que não sabemos onde vão dar. Nossos dados, nossa vida hoje está à mercê do que grandes corporações decidem. Confesso que, cada vez mais que fico sabendo os bastidores, os motivos que têm impulsionado big techs como a Meta, o Google etc. a fomentarem o discurso de ódio, o rompimento de laços, mais fico apreensiva.
Minha impressão, entre vantagens e desvantagens no contexto geral, é de que a Inteligência Artificial tem sido usada mais para o mal do que para o bem da humanidade. Já se perguntou por que tanta gente é manipulada em massa por quem programa os algoritmos?
PS: Sugiro a leitura do artigo do Luis Felipe Nascimento sobre o Manifesto Palantir aqui na Sler. Fiquei ainda mais intrigada depois de lê-lo.
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