
Acordo por volta das 9 horas e começo a zapear a televisão local. Vejo a matéria sobre um padeiro chamado Mestre José, que trabalha na Padaria Brazil em Viana do Castelo e que recebe um livro que conta a história de quem dedicou a vida inteira ao ofício. Ele está emocionado; a publicação é um projeto de memória local. Lembro-me das atividades do Projeto Memória dos Bairros, hoje extinto, que Marion Kruse Nunes dirigia no Centro de Pesquisa Histórica da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, onde fui pesquisador nos anos 90. Ali fiz pesquisas que resultaram nas publicações Memória dos Bairros Glória e Santa Rosa, e era comum encontrarmos figuras simpáticas como a do seu José também em Porto Alegre, cujas histórias dariam um livro. Fiz com Flavio Krawczyk e Paulo Muniz a edição de Memória de Percília, uma descendente de escravos que morava nos altos da Glória, na capital. Foi aí que descobri que cada cidadão tem uma história para contar. Hoje esse projeto desapareceu como muitos outros de memória social da Prefeitura; o neoliberalismo de sucessivos governos de direita e extrema direita de Porto Alegre substituiu a pesquisa sobre a memória do passado pelo consumo do presente – e dê-lhe South Summit Brazil por aí afora. Portugal teve mais sorte.
Eu e D. tomamos café da manhã com pães doces, que, como sempre, é uma refeição deliciosa. Saímos às 11h. Agora incluo na minha lista dos motoristas silenciosos uma lisboeta muito quieta no volante e que não recordo o nome, só para contrariar minha teoria de que os/as portugueses/as falam pelos cotovelos. Ela não. Ela dirige de forma elegante, está muito bem-vestida e fala muito pouco. Eu estranho seu silêncio. Chegamos ao Mercado da Ribeira, o futuro do nosso Mercado Público de Porto Alegre, como desejam secretamente os nossos empresários: um lugar de consumo de elite, com piso de mármore, onde se paga caro por uma alimentação e com lojas de grife substituindo as tradicionais. Mas mesmo aqui os espaços gourmets ainda dividem espaço com o mercado tradicional, e sua arquitetura, mesmo que em reformas, é muito interessante.
Mercado da Ribeira e o nosso cais
Por quê? Por vários motivos. Primeiro, pelas semelhanças e diferenças entre o Mercado da Ribeira e o nosso Mercado Público de Porto Alegre. Ele tem mais ou menos o mesmo tamanho do nosso mercado público: tem 10 mil metros quadrados e o nosso, 11 mil; entretanto, o nosso é anterior, data de 1869, enquanto o da Ribeira data de 1882. Mas é na arquitetura que se diferenciam, já que o nosso é em estilo neoclássico, enquanto o deles é arquitetura do ferro ou industrial. Isso faz com que o Mercado da Ribeira tenha parentesco não com nosso mercado, o que seria natural, mas com nosso cais: lembra do portão do Cais Mauá? É também arquitetura do ferro, exatamente como são as estruturas do Mercado da Ribeira. Nós nem damos atenção a esse detalhe, mas eles dão. Nosso mercado é um pouco maior, é mais antigo e luta para não virar espaço gourmet, enquanto o deles já virou. Estamos vencendo essa luta. Por enquanto.
Ao sair, vejo a indicação de outra luta, nas proximidades. É um cartaz afixado nas paredes do Mercado da Ribeira, onde se pode ler: “não te deixaremos morrer, Bairro Alto. Há outros cartazes espalhados pela cidade, como “o Bairro Alto resiste”, que fazem parte de um movimento de protesto cultural, social e urbano contra a descaracterização, a gentrificação e o esvaziamento residencial deste famoso bairro histórico. Ele é feito por moradores antigos, comerciantes tradicionais, coletivos culturais contra o êxodo de moradores e perda de identidade causada pelo aumento acelerado dos preços dos imóveis e proliferação dos alojamentos de plataforma que expulsam moradores locais. Há, conjuntamente, uma luta contra a decadência e massificação da vida noturna local, já que os bares que eram o ponto de encontro de intelectuais, jornalistas, artistas e da boemia rica em diversidade cultural se transformaram em pontos de venda de bebidas baratas para turistas, gerando reclamações sobre barulho excessivo, sujeira e episódios de violência. Olho esses cartazes e penso: há tantas agendas de lutas em Porto Alegre, mas tão poucos cartazes espalhados pelas ruas. Pergunto de novo a mim mesmo: por quê?
Caminhamos mais um pouco e estamos no Cais do Sodré, um bairro portuário e boêmio de Lisboa, que evoluiu de uma zona marginal com tavernas de “má vida” no século XIX para um ponto turístico vibrante e de vida noturna intensa. O nome deriva de uma família nobre, os Sodré, que vivia nesta região no século XVI a.C., e a área, conhecida pela Rua Nova do Carvalho (Rua Cor-de-Rosa), consolidou-se após o terramoto de 1755, sob o comando do Marquês de Pombal. Nela também estava localizado o Bairro dos Remolares (séc. XIX), uma zona pantanosa e poluída, conhecida como o “Sítio dos Remolares”, devido aos artífices que construíam remos para embarcações. A partir de 1855, a área foi ampliada e construíram-se armazéns, impulsionando a importação e exportação. Após, foi alvo de revitalização, destacando-se como um local de “cidade livre” e transformação cultural, mantendo a sua ligação ao rio Tejo. Nunca ouvi falar de fabricantes de remos para as embarcações do porto de Porto Alegre, só das empresas construtoras, como o Estaleiro Só e o Mabilde. Não temos memória para os artífices daquele tempo, só para a indústria.
Esse cais, como o Mercado da Ribeira, é outro sonho do empresariado de Porto Alegre. Eles o olham e querem, no nosso cais, as mesmas iniciativas empresariais que estão no Cais do Sodré. Ambos os cais são áreas ribeirinhas históricas que se encontram em estágios de desenvolvimento muito distintos, com perfis diferentes de uso e atmosfera. Enquanto o Cais Sodré já se consolidou como hotspot (argh!), cultural e de vida noturna, com boemia e restaurantes, o Cais Mauá ainda precisa revitalizar diversos armazéns históricos. Ainda que o Lago Guaíba e o Rio Tejo ofereçam uma atmosfera, a destinação dos armazéns do Cais do Porto Alegre é objeto de disputa entre grandes empresários e os defensores do patrimônio cultural da cidade. Ambos têm, em suas proximidades, mercados que são referências importantes, seja o Mercado da Ribeira, no Cais do Sodré, ou o Mercado Público, no Cais Mauá. Uma das diferenças, entretanto, está na localização do Mercado Público de Porto Alegre, nas proximidades do acesso principal do Cais Mauá, mas distante da ocupação atual dos armazéns junto à Usina do Gasômetro. Nos Cais do Sodré, não, está tudo mais próximo, mercado e cais.
O horário de ocupação dos cais também é diferente. Enquanto o Cais Sodré possui espaços cuja programação ultrapassa a madrugada, o Cais Mauá possui uma programação voltada para o período diurno e final da tarde. Ambos, entretanto, possuem vocação gastronômica. Ambos, pela sua definição, são ligados ao comércio marítimo, mas o Cais Mauá ainda possui 12 armazéns históricos amarelos protegidos pelo patrimônio à espera de revitalização. A diferença, entretanto, está no fato de que, enquanto o Cais Sodré já está ligado ao centro da cidade, o Mauá possui um muro que o separa da cidade. Ambos estão em pontos de hub de transportes, seja o de trem e barcos no Cais Sodré, ou de ônibus, no Cais Mauá.
Homens velhos
Saímos para procurar um lugar para almoçar junto ao Cais do Sodré. O restaurante é um lugar pequeno, mas bem localizado, perto do Chiado, para onde queremos ir depois. O garçom é um idoso e eu o olho e me dou conta de que ele parece o ator Ary Fontoura. Ele tem a pele clara, e muitas marcas de expressão e rugas naturais da idade, especialmente ao redor dos olhos. Ele não chega a sorrir como faz Fontoura; ele está mais para um comportamento um tanto indiferente. Ele nos oferece o cardápio. Pedimos um prego, que é como aqui chamam um prato de bife com fritas. Quando o prato chega, ele dá de ombros quando recusamos o arroz que oferece e diz “tanto faz”. Ele oferece pão, gratuitamente, que também recuso; ele dá de ombros e de novo diz “tanto faz”; ele oferece café após a refeição, que também recuso; ele de novo dá de ombros — adivinhem — diz “tanto faz”. Ele parece estar cansado de atender os mesmos turistas de sempre, com as mesmas características. “Estou de dieta”, “não como glúten”, “tenho pressão alta” parecem ser desculpas que ele sempre ouve ali. Olho-o pela última vez; ele é grisalho, com cabelos brancos e bigode, a marca registrada de Ary Fontoura. Mas seu olhar é menos alegre que o do nosso famoso artista, e talvez por isso reforce o sentimento de tristeza que sinto quando vejo todos esses idosos trabalharem. Ele só sorri quando resolve o problema de nosso cartão de débito ao final, ele vai e vem com a maquininha várias vezes e, quando sorri, aí sim, ele lembra Ary Fontoura.
Durante o tempo de nosso almoço, eu observei na mesa ao lado um homem. Ele havia pedido um grande prato muito bem servido que daria, com folga, para duas pessoas e uma jarra grande de vinho, o que é invejável, mas não o invejo por isso, mas pela sua figura, para mim imagem exata de um famoso escritor. Para mim, ele é a cara do escritor William S. Burroughs (1914–1997), um dos mais radicais do século XX e inspirador da Geração Beat. Esse homem de idade me lembra, com seus traços, o escritor, experimentador social e cultural que veio de uma família rica com a qual rompeu e foi viver no submundo de Nova Iorque. Esse homem ao meu lado parece um Burroughs cansado do mundo: é como se, depois de romper com tudo, de viver a vida, só sobrasse diante de si um prato cheio para comer e uma garrafa de vinho barato para tomar. Burroughs escreveu um livro chamado “Máquina de Escrever”, em que via a linguagem como um “vírus” que controla o pensamento humano. Para combatê-lo, usava a técnica do cut-up, cortando e remontando textos para revelar significados ocultos. Meu vizinho de mesa mais parece ser alguém cujo vírus paralisou o cérebro; ele olha o mundo devagar, ele come devagar. Ele parece não se importar com o fato de que ninguém olha para ele, ninguém percebe o excesso de seu prato ou o modo grosseiro como se alimenta. Ele é o homem invisível do bar, como Burroughs um dia foi apelidado de “o homem invisível” da literatura. Ainda que seu rosto não fosse magro como o de Burroughs, ele tinha as mesmas maçãs do rosto proeminentes e pele pálida; ele não usava óculos como Burroughs, mas seu olhar para as demais mesas, onde turistas eram incapazes de o encarar, era intenso. O Burroughs da literatura era um rebelde; meu, o vizinho de mesa de bar, mais parece ter aceitado que esse mundo português é assim mesmo, com seus altos preços e trabalhadores idosos explorados. Por que ambos chegam nessa idade avançada com tantas rugas? A diferença é que, enquanto as de Burroughs lembram a de um profeta, as de meu vizinho de mesa de bar são o próprio mapa tortuoso da cidade que se faz carne viva.
Chiado
Almoçamos e vamos conhecer o Chiado. Este bairro é considerado o coração cosmopolita e intelectual de Lisboa. Suas ruas e prédios possuem o charme histórico do século XVIII e há uma efervescência cultural e comercial moderna. Ele está localizado entre a Baixa Pombalina e o Bairro Alto, e é um dos marcos mais prestigiados da capital portuguesa. Sua história remonta ao século XII, mas foi no século XIX que se tornou centro do romantismo e da vida intelectual portuguesa. Não tem como não lembrar que por suas ruas passaram escritores como Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, cujas obras lemos no ensino médio. Não que eu fosse um grande estudante de literatura, ao contrário, mas o que me chamava a atenção era sempre quem se dava bem com a palavra escrita.
Aqui tínhamos vários, mas cito dois. O primeiro, Eça de Queiroz, viveu no século XIX e é considerado o Mestre da Prosa, principal expoente do Realismo e Naturalismo em Portugal. Olho as pedras dessas ruas e imagino-o andando por elas. Lembro de sua crítica social corrosiva enquanto olho um dos raros moradores de rua do lugar, que, velho, está sentado pedindo alguns trocados. Sou simpático aos escritores portugueses do passado, afinal, poucos sabem usar a ironia e o humor ácido para criticar a vida burguesa de sua época. Seu estilo leve já pode ser visto em “Os Maias”, considerado o grande retrato de Lisboa, e “O Crime do Padre Amaro”. O segundo, Fernando Pessoa, viveu no século XX e é considerado o Mestre da Poesia e talvez o maior poeta português do século XX. Eu não o entendia direito no ensino médio; só fui entender depois a tal da “heteronomia”, o fato de que ele criou outros poetas ou personagens para falar do ser humano, como Ricardo Reis e Alberto Caieiro, tempos depois. Tenho sua obra Mensagem, não porque cheguei a aprofundar meu estudo sobre ele, mas porque sabia que era o único livro português que ele publicou em vida. Pode-se pedir literatura mais completa? Um olha para a sociedade, o outro, para a interioridade.
O Chiado não é um lugar somente de escritores. É de um projeto de recuperação notável realizado após 25 de agosto de 1988, quando um incêndio devastador destruiu 18 edifícios e dezenas de lojas icônicas daquele lugar. A recuperação foi liderada pelo arquiteto Álvaro Siza, o mesmo que fez o projeto do Museu Iberê Camargo em Porto Alegre. Aqui ele preservou as fachadas pombalinas enquanto modernizava os interiores e criava passagens pedonais, o que possibilitou manter a elegância de seus espaços de encontro, com seus cafés e cultura literária. Passo na Livraria Bertrand para comprar meu segundo livro de Slavoj Zizek, intitulado Contra o Progresso (Objetiva, 2025), é uma crítica à noção que, para ele, não passa de uma ilusão de uma evolução linear, inevitável e “limpa” da humanidade. Para o filósofo esloveno, o conceito atual de progresso tornou-se uma “narrativa sufocante” capturada por neoliberais, populistas e tecnocratas do Silicon Valley. Ele parte da metáfora dos pássaros esmagados, presente no filme O Prestígio, de Christopher Nolan. Em um truque em que um pássaro “desaparece” para reaparecer em outro lugar, a plateia aplaude a mágica. Contudo, nos bastidores, há uma pilha de pássaros mortos que foram sacrificados para que a ilusão funcionasse. Para o autor, o progresso da civilização ocidental é esse truque: celebramos o avanço tecnológico e moral, mas ignoramos os “cadáveres” (colonialismo, exploração, destruição ambiental) ocultos nos bastidores. Eu gosto muito das analogias de Zizek, e eu mesmo sou um comparatista de carteirinha, como sabem os 4 ou 5 dos meus leitores. Mas o melhor vem depois: receber o carimbo da livraria que conta uma história.
A mais antiga livraria do mundo
Esse carimbo importa. A Livraria Bertrand foi fundada em 1732 e é oficialmente reconhecida pelo Guinness World Records como a livraria mais antiga do mundo em funcionamento. Fundada por Pedro Faure na Rua Direita do Loreto, mais tarde, com a entrada dos irmãos franceses Jean Joseph e Pierre Bertrand no negócio, consolidou-se sob o nome que carrega até hoje. O edifício original foi destruído pelo sismo de 1755 e a livraria passou a funcionar temporariamente em outro local antes de se estabelecer definitivamente no Chiado (Rua Garrett) em 1773, durante a reconstrução pombalina. Ando por seus corredores e penso nos escritores que passaram por ali: Alexandre Herculano, Eça de Queirós e Antero de Quental frequentavam o espaço para debater suas ideias. Hoje, vejo apenas a multidão buscando os lançamentos bestsellers da coleção Harry Potter, fazendo fotos da fachada revestida de azulejos pombalinos e de seu interior nas sucessivas sete salas. Ali, cada uma leva o nome de um vulto da literatura portuguesa, como Aquilino Ribeiro, José Saramago, Eça de Queiroz e Sophia de Mello Breyner.
Os turistas têm um foco: as fotos se concentram na primeira sala, que mantém o mobiliário expositor original em madeira. Uma das atendentes me convida para ir ao final, onde há um café e um mural dedicado a Fernando Pessoa. Mas eu encontro a obra que procuro um pouco antes. Vou ao caixa pagar o meu livro, mas a burocracia me persegue: ao pagar por meu livro, a atendente pergunta se quero o carimbo, que eu desconhecia. Eu me aposentei para deixar de ser um burocrata, mas o mundo é o eterno retorno. Quero ou não um carimbo. “É claro que sim”, ainda que não soubesse por quê, mas a atendente logo me explica: um dos rituais favoritos dos bibliófilos e turistas que visitam a unidade da Livraria Bertrand do Chiado é pedir o carimbo. Ele funciona como “certificado de origem”, comprovando que aquele exemplar foi adquirido na livraria mais antiga do mundo. O carimbo é circular e elegante, contendo a inscrição oficial em inglês: “Bertrand Chiado – The Oldest Bookstore in the World since 1732 – Lisbon, Portugal”. Seu valor é simbólico. Eu poderia ter comprado pela internet, em outra livraria, mas aquele livro do Zizek se transformou no testemunho de que estive na livraria mais antiga do mundo por causa do carimbo. Diz que muitos colecionadores compram edições de autores que frequentavam a livraria (como Fernando Pessoa ou Eça de Queiroz) especificamente para marcá-las com o selo histórico. Se um dia minha biblioteca fizer parte da UFRGS, como desejo, alguém talvez encontre o exemplar e o carimbo. Mas talvez, como eu, não faça inicialmente ideia nenhuma do seu significado, mas vai lá, carimbos são assim.
Escritores célebres
Passo pelo Café A Brasileira, onde vejo a estátua de Fernando Pessoa, criada pelo escultor português Lagoa Henriques, que está no local desde junho de 1988. Olho o poeta sentado, homenagem por sua presença frequente no local. Lembro da estátua de Mário Quintana, em Porto Alegre, feita por Xico Stockinger. Ela é posterior, de 2001, e ainda é mais completa porque tem Carlos Drummond de Andrade junto ao poeta. Aqui turistas fazem fila parar bater fotos na estátua de Fernando Pessoa; em Porto Alegre, nem tantos fazem na de Mário. É uma pena. Continuo a caminhada e passo pelas ruínas do Convento do Carmo, destruído no terremoto de 1755, e pelo Elevador de Santa Justa, que liga o bairro à Baixa. Também chamado de Elevador do Carmo, é outro monumento icônico de Lisboa. O engenheiro português Raoul Mesnier du Ponsard o projetou e inaugurou em 1902; ele conecta a Rua do Ouro (Baixa) ao Largo do Carmo (Chiado). Sua imponente estrutura metálica de 45 metros em estilo neogótico a transformou de utilitário em ponto instagramável. É outro lugar onde todos param para tirar uma foto; é uma verdadeira luta pelo melhor ângulo. Mas eu não olho somente para ele, mas para as “pinturas” e intervenções artísticas ao seu redor. Está ali a escultura “Sofia”, do artista Superlinox. Ela é uma peça de arte urbana, a escultura colorida que retrata uma “diva” com um aspirador de mão que parece observar os transeuntes a partir da estrutura, metáfora sobre não suportar “migalhas”. Se eu a tivesse construído, seria para varrer esses turistas que só pensam em fotografar.
Vejo no que se transforma um centro histórico: num polo de compras de luxo e marcas internacionais. Estou nos Armazéns do Chiado, um shopping situado no cruzamento entre a Rua do Carmo, a Rua Nova do Almada e a Rua Garrett. O local abrigava originalmente o Convento do Espírito Santo da Pedreira, que ficou em ruínas após o terremoto de 1755. Antes de se tornar um centro comercial, o edifício serviu como o Palácio Barcelinhos. Sou Barcellos, sou no mínimo parente. Os Barcelinhos estão ligados à figura de Manuel José de Oliveira (1774-1847), um dos homens mais ricos do Portugal do século XIX, cuja trajetória personifica a transição da elite comercial para a aristocracia nobiliárquica. Ele não nasceu nobre; foi um comerciante extremamente bem-sucedido, com negócios volumosos em Lisboa e vastas propriedades na Ilha da Madeira. Em 1835, ele comprou em leilão o edifício no Chiado que viria a ser o seu palácio, obteve o título de Barão por um casamento, com a família possuindo conexões com as de Sacavém, Alcáçovas, Condes das Galveias e os Condes dos Arcos. Em 1894, a casa deu origem aos “Grandes Armazéns do Chiado”, inspirados nos “Grands Magasins” de Paris, trazendo luxo e cosmopolitismo para a capital portuguesa. O Grande Incêndio de 1988 destruiu o edifício e grande parte do bairro do Chiado, sobrando a fachada, que foi objeto de reconstrução liderada por Álvaro Siza Vieira, que integrou a recuperação do edifício em um plano urbanístico maior para revitalizar o Chiado. São hoje 6 pisos que seguem a disposição horizontal histórica e 55 lojas, uma praça de restauração com vista para a Baixa e o Castelo de São Jorge. Na parte superior fica o Hotel do Chiado e um acesso para o Convento do Carmo.
Álvaro Siza
No Convento, descubro que ele, de novo, Álvaro Siza, criou um percurso pedonal entre o Largo e os Terraços do Carmo. Entro nele e vejo restos de arquitetura do passado. Passo pelo Teatro Nacional de São Carlos (ópera) e pelo Teatro São Luiz e Politeama, onde está passando o musical “Carmen Miranda”. Eu não sabia que ela havia nascido em Portugal. Saio do Brasil para voltar a ele, ao menos na indústria cultural. Lembro dos dois teatros Politeamas que estudei: o primeiro, o Politeama de Porto Alegre, era localizado na esquina das ruas Voluntários da Pátria e Pinto Bandeira. Ele foi inaugurado em 1898, mas teve vida curta, uma construção mista de madeira e alvenaria que servia como um espaço popular para apresentações diversas. Em 1907, o prédio foi condenado por engenheiros devido ao apodrecimento das fundações de madeira e demolido em 1908. Foi ali que construíram o primeiro e famoso Cinema Coliseu. O segundo foi o Politeama de Rio Grande, idealizado pelo diretor circense Albano Pereira, e chamado “Anfiteatro Albano Pereira”, que iniciou suas atividades em 1876. Destruído por um temporal em 1881, ele foi reconstruído e batizado como Politeama Rio-grandense.
Chego à Praça Luís de Camões, fronteira entre o Chiado e o Bairro Alto, sendo um dos pontos mais movimentados e acessíveis por elétricos históricos. Os turistas se perdem nos detalhes arquitetônicos do Bairro Alto. Caminhamos pela elite dos bairros para descobrir que entramos em um shopping de marcas como o Iguatemi, de Porto Alegre, com suas mesmas lojas, como a Swarowsky e cia. Paramos na Livraria Bertrand, ponto obrigatório para mim, ainda que tenha passado por um sebo bastante antigo. Eu devia ter entrado, mas a pressa de chegar na Bertrand fez-me passar pela livraria Sá da Costa. É a correria de turista; só pude olhar sua vitrine. Fundada em 1913, aqui não são chamados de sebos, mas de alfarrabistas. Localizada na Rua Garrett, ela é especializada em incunábulos e manuscritos, obras impressas nos primórdios da tipografia (século XV) e documentos antigos escritos à mão. É um dos melhores lugares para encontrar edições originais de clássicos como Fernando Pessoa ou Eça de Queiroz, possui uma coleção impressionante de mapas antigos, iluminuras e gravuras que decoram as paredes da loja. Sua atmosfera é de “Gabinete de Curiosidades”, por sua estética labiríntica e nostálgica. Não entrei, mas li a respeito depois. Eu me lembro do Sebo da Ladeira: ambos são espaços para passar horas descobrindo coisas raras, o que se chama “garimpo”. Já propus uma rota cultural por nossos sebos porto-alegrenses, sem sucesso.
De volta ao lar
Voltamos para casa com Amália, uma taxista brasileira que vive em Lisboa. Ela nos conta que veio há seis anos e está fazendo o curso técnico de turismo. Ela sente saudade do Brasil, mas diz que aqui em Lisboa ainda vive melhor do que em sua terra, principalmente pela segurança que a cidade oferece. Ela diz que mora na cidade, o que contraria a maioria dos taxistas brasileiros que conhecemos, que dizem já ter abandonado Lisboa para viver mais longe por causa do aumento dos aluguéis. Ela reclama da higiene dos taxistas muçulmanos, do cheiro deles e do seu carro, e eu lembro do taxista que tinha, inclusive, um pano para amortecer o sol que tocava em seu colo. Além disso, usando turbante, barba e roupas compridas, o suor é maior e o mau cheiro, provavelmente, também.
Em casa, cada vez chegamos mais cedo em casa, cansados das caminhadas, mas hoje chegamos realmente cedo, às 16h30, mas ainda assim foi uma boa performance, considerando que, mesmo vendo vários pontos, outros faltam. Na volta, a rotina: vai ao Econômico, compra algo para o dia seguinte ali pois é mais barato, volta pelas mesmas ruas, Natália, Graça, que… não teria mais a graça do passado graças ao turismo! Conseguimos agendar um passeio para o dia seguinte com uma agência on-line. Durante o dia procuramos uma agência presencial, mas resolvemos pelo jeito virtual. Fico um pouco desconfiado, mas fazer o quê? Quando fomos ao Cais do Sodré, uma verdadeira garagem de navios e trens para todo o lugar, havia muitas agências de viagens, mas de… navio! Cadê as agências de ônibus, de excursões? “Nem conheço”, disse um atendente, um rapaz magro, jovem e loiro, pedindo desculpas ao notar que era uma informação óbvia e que talvez devesse saber. Fui depois ao Setor de Informações ao Turista, desses que temos no Brasil, no interior de uma loja de lembrancinhas. Ela também não sabia, mas deu-me inúmeros folhetos de empresas e passeios turísticos que olhei com mais calma à noite, cruzando suas informações com minha própria pesquisa na internet: dou-me conta de nas empresas indicadas nos folhetos distribuídos há muitas reclamações. Escolho a com menos reclamações. Faço a contratação. Há apoio de WhatsApp, melhor. Não sei poque tenho a impressão de que as agências de turismo estão desaparecendo graças a internet. Amanhã promete muitas correrias, ao menos com almoço pago.
Todos os textos de Jorge Barcellos estão AQUI.

