
Talvez o traço mais gaúcho classe média que tivéssemos era passar férias de julho no Rio de Janeiro. Em Copacabana, é claro, uma praia não tão pacata quanto o distante Leblon, mas onde ainda se podia tirar uma sesta silenciosa nos anos 70, depois de comer no Gordon’s e dar uma olhada nas Casas da Banha. O mar recém vinha de ser aterrado, mas a violência não passava de uma primeira ou última onda nele mesmo. Fora dali, descontada uma ditadura terrível, a terra era mais ou menos segura.
Meu pai, como tantos gaúchos, alugava um pequeno apartamento no edifício Treviso, praça Serzedelo Correia, a poucas quadras do mar, onde nos instalávamos eu, ele, a mãe e a irmã. A cada ano, o Rio já era outro para mim. Na primeira vez, foi o parque Tivoli, com o meu primo carioca Alexandre, filho dos tios Samuel e Regina. O parque, com seu tobogã e a montanha-russa, era uma grande aventura para quem vinha de um trem-fantasma chinfrim em Capão da Canoa, de forma que havia muita história para contar na volta, incluindo o andamento da novela, que por lá ia mais quente e adiantada do que no inverno rigoroso de Porto Alegre.
No ano seguinte, futebol de botão, com muito puxador comprado no interior das galerias, depois skate, depois teatro, depois a adolescência explodiu. Aí Alexandre e eu já íamos na Don Juan, da rua Duvivier, dando um trabalho enorme, primeiro para o olhar dilatado, depois para a mão cansada dar um jeito no que tinha visto. Mas, naquela noite, o primo ficou gripado e não foi. Fui sozinho, para a preocupação de meu pai, ao me ver desacompanhado do primo mais velho. Naquele tempo, com 14 anos, infelizmente também já se bebia, e devo ter exagerado no uísque cowboy. Resultado: não voltei à hora marcada no despertador, dispensável para o pai insone.
Ele deve ter atravessado sofregamente boa parte da Avenida Atlântica, da Praça Serzedelo a Duvivier. Lembro apenas quando chegou, ao lado do porteiro que já era seu amigo, e me encontraram dormindo na mesa 4, entre uma dançarina e um ator pornô. O pai foi firme, mas querido, assim como com as trabalhadoras do sexo que o abordavam, durante a nossa volta, na mesma Atlântica por onde viera sozinho. Let´s go, mister?
Ele nunca mais tocou no assunto da boate, embora, mesmo calado, tenha deixado claro que eu precisava ser mais responsável com as minhas saídas. Foi o que fizera o primo Alexandre, quando eu descobri que aquela gripe era uma farsa, e ele tinha começado a namorar a Ana. A vida corria mesmo, a cada ano, no Rio de Janeiro, a ponto de a morte já estar de olho no pai e no tio Samuel. Alexandre, em breve, aprenderia a ganhar muito dinheiro, e eu a contar, gratuitamente, aquele tempo que voava.