
“…Era pequeno. Uma tarde. Caía o Sol. Gente, muita gente. Quase toda a população da cidadezinha. A cadeia (a “Cadeia Velha”) era um edifício raro. Velho, tinha uma espécie de sótão, que o distinguia das casinhas baixas da cidade e era como um remanescente duma edificação anterior, suntuosa, que devia ter existido, num passado misterioso e irreal.
Ele estava com a mão fria e tremendo presa à mão da mãe. Todos, ali defronte da Cadeia, comentavam e esperavam. E quando o homem esquálido surgiu no terreno da frente (ela era metida para dentro), reatado em cima do cavalo, as mãos amarradas às costas, guascas maneando as pernas por baixo da barriga do animal, e vociferando numa revolta ao mesmo tempo enfática e triste, ele quis saber, saber! Já um pelotão de soldados o rodeava. Era a escolta.
– O que é que eles vão fazer com o homem, mãe?
– Psiu! Vão matar ele lá no Cati.
Dyonélio Machado – O louco do Cati
O Cati é o mal, a morada do demônio. Mas como fugir do Cati quando se leva o Cati na alma? É essa a questão a ser enfrentada pelo perturbado protagonista de O louco do Cati, considerado por muitos a obra-prima do escritor gaúcho Dyonelio Machado (1895 – 1985). O romance narra a história de um homem sem nome, sem passado e com poucas frases ditas ao longo das suas 270 páginas. Sem personalidade definida e conhecido apenas por nacos oníricos de seu passado distribuídos aos poucos na narrativa, o “maluco” embarca em um bonde, vai até o fim de linha, tenta trocar uma nota antiga em um bar e acaba sendo levado como uma curiosidade interessante por um grupo de jovens a uma excursão feita pelo litoral em um caminhão que a turma chama de “Borboleta”.
A certa altura, o grupo se divide. Os demais retornam, enquanto o louco segue viagem acompanhando um deles, o malandro Norberto, até ambos serem detidos sem razão aparente em Santa Catarina. Daí, são levados para o Rio de Janeiro e amargam a cadeia. Solto, o louco refaz penosamente o trajeto até o Rio Grande do Sul, terminando, de modo fantástico, no Cati, na fronteira com o Uruguai. Aliás, para quem tem interesse, parte dessa história foi livremente adaptada com uma feição mais moderna no filme A última estrada da praia, primeiro longa-metragem do diretor gaúcho Fabiano de Souza.
Os planos de Dyonelio
Meticuloso, Dyonelio fez o planejamento da viagem, desenhando um mapa com o percurso do protagonista e o tempo que cada passo do trajeto demandaria. Se, como querem alguns teóricos, o maior objetivo da literatura é causar estranheza, O louco do Cati é literatura em altíssimo grau. O livro intriga desde a primeira linha, tanto na história narrada em clima de tédio e pesadelo quanto na forma. O louco do Cati não foi escrito. Muito doente depois de ter conhecido as prisões do Estado Novo, Dyonélio ditou em 1941 o romance à sua filha, Cecília, e à sua esposa, Adalgiza. O escritor, libertado uns anos antes de uma temporada de quase dois anos na prisão, arrebanhado com todos os comunistas que se pudessem encontrar após a Intentona Comunista de 1935, sentia-se alquebrado pela experiência do cárcere, padecia de uma cardiopatia grave e acreditava não ter condições físicas de pôr no papel a história que havia imaginado enquanto esteve preso – e na qual descreveu parte da própria experiência. Foi o que contou em uma das entrevistas compiladas por Maria Zenilda Grawunder no volume O cheiro da coisa viva (Graphia, 1995):
O louco do Cati foi um desafio com a morte, ou eu escrevia o livro ou morria. Está meio melodramático, mas é certo. Eu já tinha tido um colapso periférico e ouvido o grito da minha mulher, que era igual ao grito das mulheres cujos maridos estavam morrendo, e eu, como médico, sabia disso. Eu reagi contra a morte. O louco do Cati tem muito da experiência da prisão… Se tem, se tem. Utilizei minhas vivências neste período (preso político de 1935 a 1937, abalado da prisão e escrevi o romance em 1941) não com um caráter memorialista, mas como elemento para a ficção.
Para quem tiver um ouvido apurado, essa origem inusitada transparece no andamento do texto. Dividido em capítulos curtos, O louco do Cati é narrado de forma áspera, intercalando em uma melodia espástica frases curtas, espasmódicas, com sentenças mais longas. A oralidade da história está também presente na linguagem coloquial e repleta de expressões e gírias — algumas delas de sabor passadista.
Minha primeira leitura desse livro se deu aos 16 anos, em um exemplar da edição antiga da Ática emprestado da Biblioteca Pública de São Gabriel (a capa daquela edição particular era horrorosa, mas não deixava de, a seu modo, preparar o leitor para o desconforto que se seguiria). Era um verão quente como o inferno, e a leitura coincidiu com uma gripe fora de época que me derrubou e me deixou de tal modo zonzo que a leitura pareceu correr em um tom de sonho, mais como se eu tivesse sonhado o absurdo da narrativa em um delírio de febre em vez de lê-lo de fato. Eu não conseguia entender muito bem qual era a daquele louco, e minha impressão também não foi das melhores; ele parecia ir muito bem até uma parte e depois simplesmente parecia não fazer mais sentido, embora continuasse sendo muito eficiente em transmitir com aquelas frases de andamento irregular um mal-estar que eu já não sabia se era da gripe ou daquela prosa febril.
Tive a chance de reler o livro anos mais tarde, quando ele foi reeditado pela Planeta (em uma edição que ainda deve se encontrar em sebos ou na Estante Virtual; a capa era bem mais elegante, branca, com a metade superior ilustrada com um quadro de Iberê Camargo) e pude reencontrar algumas daquelas imagens e cenas que eu sabia serem do livro, mas que pareciam não ter nada a ver com o que eu me lembrava – fica a sugestão de um estudo mais aprofundado para esse efeito que a prosa de Dyonélio provocava: Mario de Andrade disse em uma carta ter sentido algo parecido ao ler Os ratos, como se as frases do livro ocorressem a ele antes mesmo da leitura. O fato é que, nessa segunda leitura, tudo fez muito sentido, mesmo continuando não fazendo, consigo me explicar? Não foi a primeira vez que a releitura de um livro que li na adolescência me provava que eu não havia entendido nada, entre outros motivos porque não tinha muitas das referências.
Intermitências
A região do Cati (um dos sete distritos da cidade de Santana do Livramento, na fronteira do Uruguai, nomeado assim por causa do arroio homônimo) ganhou celebridade na história gaúcha devido à atuação feroz do caudilho João Francisco Pereira de Souza nos combates da revolução de 1893. João Francisco castigou os derrotados da insurreição com violência, apelando para o bárbaro recurso da degola.
Dyonélio, aliás, em outro trecho compilado no livro de Maria Zenilda, atribui parte de seu temperamento fabulador à sua própria origem na fronteira rural do Estado (o escritor havia nascido em Quaraí, em 1895:
Eu sou de uma terra de imaginação. O gaúcho, aquela vida segregada na estância, com um convívio muito limitado, aquilo leva às fantasias, aos sonhos, ao conto, à história… De muito cedo a gente está neste mundo de ficção. Eu penso que foi isso que me levou. Minha cidade, Quaraí, é um lugarejo de três mil habitantes. Era aquela solidão numa savana, uma casa a léguas de distância da outra, naquele campo. Aquela solidão leva ao sonho; tem que se conviver com alguma realidade, e a realidade que está mais à mão é o sonho, é a ficção.
Sutil, Dyonélio criou em O louco do Cati uma atmosfera de mal-estar, associando as lembranças esparsas que o louco tem de sua infância, passada sob o terror do coronelismo na região, e a ditadura Vargas contemporânea da escrita da obra, retratada e sempre presente, mas nunca mencionada.
Em uma reviravolta que parece ter desconcertado muitos dos leitores naquela primeira metade do século XX, o romance terminava ainda com um aceno ao fantástico – já presente na literatura latino-americana desde os primórdios, mas não muito assíduo na experiência literária brasileira daqueles anos. Publicado em 1942, o romance recebeu a aprovação entusiasta de Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Erico Verissimo, mas foi tratado com desdém pelo restante da crítica – “como coisa que não devia ter vindo a público”, nas palavras do próprio autor. Só foi redescoberto depois de relançado, em 1979, o que renovou o interesse pela obra de Dyonélio como um todo.
Como o próprio Dyonélio reconhecia, com uma dose de melancolia e outra de ressentimento, não foi um livro que tenha encontrado muitas ressonâncias. Aliás, provando a acurácia de sua autoanálise, o próprio Dyonélio reconhecia que suas obras passavam por sazonais sumiços seguidos de surpreendentes redescobertas:
Meus livros tiveram segunda edição e, quando apareceram, foram sempre recebidos sem simpatia. Alguns, como O louco do Cati, chegaram a ser recebidos como uma coisa que não devia ter vindo a público; disseram que não tinha nada que se pudesse aproveitar, inclusive como técnica. Foi assim, de um modo geral, que a crítica o recebeu. A crítica favorável não conseguiu criar uma atmosfera contrária, porque foi uma crítica de boca, de orelhas ou de cartas. Algumas destas vieram a público, como as declarações de Guimarães Rosa, depois que ele morreu. Mas, quando isso saiu, as demais pessoas não estavam mais ligadas ao livro, ou seja, aquele teor afetivo que poderia atrair ou repelir o livro já tinha desaparecido. Nós não temos memória, não é?
É um livro que segue, infelizmente, apesar de seus grandes méritos, vítima de intermitências editoriais. Depois de vinte anos ignorado e em ostracismo político e literário, Dyonélio voltou a ser comentado nos anos 1960, após a reedição e consagração de Os ratos. Depois disso, sobreveio outra década de silêncio, até uma nova redescoberta nos anos 1970 – é dessa fase a edição da Ática na qual li O louco do Cati pela primeira vez. Depois, novo sumiço, até o início da década de 2000 (2004, mais especificamente), quando a Planeta encabeçou uma tentativa de reedição de sua obra, mas ficou só na republicação d’Os ratos e de O louco do Cati – este, depois de anos fora de catálogo, e, passados um par de anos, estava de novo esgotado.
Muita gente, aliás, imagino até alguns que leram O louco do Cati, desconhece que ele é o capítulo inaugural de uma série interligada de romances. Ele foi seguido por Desolação (1944), que transcorre no período de uma semana e segue a viagem com o grupo de amigos que, na primeira parte de O louco do Cati, separaram-se do “louco” e de Norberto. Em 1946, Dyonélio publicaria ainda Passos Perdidos, que dá sequência à série e, a seu modo, retoma a estrutura pela qual Os ratos se tornou célebre. O foco do romance é o mecânico Maneco Manivela, que dirigia e era responsável pela manutenção do calhambeque em que a trupe viajava. Libertado da prisão após os eventos de Desolação, Maneco é acompanhado pela narrativa durante as 24 horas seguintes. Um quarto livro, no qual o mecânico Manivela busca sair da ilegalidade, retomar a vida e se casar com um antigo amor, Carmosina, foi escrito entre 1945 e 1949, mas só foi efetivamente editado em 1981 – na esteira de um dos renascimentos da obra do autor.
Neste momento em que escrevo, Dyonélio vem sendo resgatado outra vez, talvez com menos impacto. Seu onipresente clássico Os ratos, depois de renascer nos anos 1960, nunca sumiu de verdade, e a edição mais recente está nas mãos da Todavia. A boa notícia é que a mesma editora também republicou O louco do Cati, e, portanto, o livro está disponível – a capa desta nova edição tem uma ilustração de pernas andando a esmo que casa elegância e apelo pulp, mas que talvez tivesse sido melhor usada numa eventual reedição de Passos perdidos. Mas a Todavia também não parece ter planos para que novas obras saiam no futuro próximo – e nem todos os livros do autor parecem ter interessado, já que Fada, o último romance editado pelo autor em vida, ganhou segunda edição há pouco tempo pela brava Zouk.
Em outra citação de Dyonélio, recolhida no livro de Maria Zulmira, ele comentou:
O tempo pode melhorar o produto, embora quase sempre consiga piorá-lo. Se isso acontecer, o livro não deve mais ser reeditado, porque não vale mais nada.
Dito isso, sou obrigado a concluir que O louco do Cati vale muito, dado que, mesmo em um país sem memória, nas palavras do próprio autor, e com a dificuldade que a obra de Dyonélio tem em penetrar a mentalidade crítica, sempre dá um jeito de retornar. Não apenas o louco voltando ao Cati na letra elíptica do livro, mas o romance mesmo, resgatado a intervalos no labirinto precário do mercado editorial.