
Há poucos dias, um seguidor de redes sociais me pediu que escrevesse uma descrição da minha pessoa. Uma descrição realista, ele me disse, supondo que tudo que posto se trata de um simulacro ou de que não falo o suficiente sobre mim, ou melhor dizendo, sobre minha vida pessoal e sobre os meus dados orgânicos. Segundo ele, nem o meu estado civil, nem a minha idade, nem o meu peso e tampouco minha altura estão disponíveis na internet. Aí, depois de pensar um pouco, decidi enviar a pergunta: por que eu deveria me descrever para você?
Ele respondeu: “Porque quem não deve não teme”.
Primeiro, ri. Como diria minha mãe, resposta de criança. Mais infantil só se ele dissesse “porque sim”. Mas, depois, tomando minha xícara de chá de laranja com mel e gengibre e olhando para um céu cheio de nuvens, resolvi enviar a ele um desafio do meu pacote básico, certamente um pouco sofisticado para o dele.
Prezado fulano, terei o imenso prazer de responder a todas as suas perguntas desde (sempre há um mas ou desde) que você me responda em que livro está o seguinte trecho ou, pelo menos, quem o escreveu:
“Tenho 58 anos de idade, 1 metro e 76 de altura e 86 quilos de peso – que são 12 quilos a mais do que devo pesar de acordo com uma tabela do nosso exemplar já gasto do Guia Familiar de Saúde”.
Ele respondeu: “Ninguém”.
Resposta errada. Primeiro, porque o trecho está em um livro de um escritor bastante famoso. Segundo, porque, se essa autodescrição não tivesse sido escrita pelo David Lodge, no Terapia, teria sido escrita por mim, uma pessoa mais falante, pensante e, por vezes, implicante do que ele imagina no mau sentido. No bom, imaginação é tudo. Como escreveu o Gaston Bachelard, em seu A Poética do Devaneio: “Grandes paixões são preparadas em grandes devaneios”. E devaneio anda de mãos dadas com a fantasia, a criatividade e uma série de outras capacidades humanas.
Mas voltemos a dele, a do prezado fulano, que pensou que poderia me obrigar, em nome de um ditado popular, a interagir com ele, compartilhando aquilo que, se não está disponível na internet, é porque não interessa a ninguém, exceto a mim. Isso é uma coisa que me aborrece. Por que as pessoas fazem esse tipo de pergunta? Por que, sobretudo, os homens fazem? Que tipo de adulto precisa dessas informações? Eu não lembro de ter perguntado, nem quando eu era adolescente, a um único esse tipo de coisa, como também não lembro de ter perguntado às minhas amigas se o fulano que elas tinham conhecido não sei onde era bonito.
Se tem uma coisa de que tenho certeza sobre mim, é de que o meu gosto não se molda pelo de A ou de B ou de C, e de que preconceitos não cabem na minha casa de campo “onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais”. Ou quase isso.
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