
— Doutor, eu vou solicitar uma segunda opinião sobre meu caso.
Todos nós já dissemos ou ouvimos essa frase. Há algo de problemático nela: se o Doutor representa a Ciência, portanto o campo do rigor metodológico, da racionalidade dos meios, da certeza quanto à previsibilidade dos fenômenos, então estamos longe da… “opinião”. A opinião é aquele ponto de vista que emitimos sobre algo, como simples suposição intuitiva e sem fundamento. Uma “opinião médica” é, no fundo, um oxímoro: ou a medicina não é ciência, ou a opinião não é “achismo”!
A Modernidade nos fez acreditar que na Razão residia a garantia de que nosso conhecimento chegaria, não à “Verdade” (coisa da Metafísica), mas à certeza contida em toda “causalidade”, prova da validade do método científico. Karl Popper mostrou que não era bem assim. Tinha razão! Num livro chamado “A estrutura das revoluções científicas”, ele defendeu que a ciência, para ser considerada como tal, devia se guiar pelo princípio de “refutabilidade”, quer dizer, um conhecimento fechado, impermeável a qualquer crítica, que não podia ser refutado, não tinha validade científica: era uma doutrina, uma religião, uma ortodoxia. Mas não uma ciência! Todo progresso científico exige a interrogação dos pressupostos, das teorias, dos princípios onde se apoia. Em “Conjecturas e refutações”, Popper mostrou que Platão, ao propor uma utopia republicana em que o Rei-Filósofo mandava, inaugurou uma Sofocracia (“Governo do saber”). O problema? É que não é o saber de um rei ou de alguns cientistas que garante o bom governo, mas, sim, a pluralidade de pontos de vista confrontando-se no chamado espaço público, onde podemos ver, ouvir, argumentar, julgar e decidir. É a base da Democracia: não temos nenhuma garantia de que acertaremos, mas assumimos coletivamente a responsabilidade das decisões. Não dependemos nem de Deus, nem do Príncipe, nem do Ignorante, nem do Cientista…
Se Platão morria de medo de que a massa ignara governasse a Cidade, precisamos estar atentos ao perigo da sua utopia: a Tecnocracia (é este o perigo!) é aquele governo que afasta os homens reais das decisões sobre suas vidas e acredita na impessoalidade dos saberes científicos e nas racionalidades instrumentais (a Técnica que negligencia a Ética): é a base dos totalitarismos, tanto o que crê na “ciência” da purificação racial quanto o que acredita na “ciência” da redenção social. Atenção!
— Doutor!
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