
Damaris não pôde ter filhos. Juntou-se com Rogelio aos dezoito anos e, depois de dois anos de relacionamento, as pessoas começaram a questionar: “Os bebês vêm quando?” ou “Por que estão demorando tanto?”. Eles não estavam fazendo nada para evitar a gravidez, e então Damaris passou a tomar infusões de duas ervas da mata, erva-de-santa-maria e erva-do-espírito-santo, que ouvira falar serem muito boas para a fertilidade.
Quantas mulheres nunca ouviram cobranças sobre a maternidade? Quantas não escutaram, de familiares e conhecidos, as mesmas exigências dirigidas a Damaris? Não são poucas as que, a exemplo da protagonista de A Cachorra, romance da colombiana Pilar Quintana, carregam a culpa por uma gestação que não aconteceu. Outras tantas atribuem a si mesmas uma espécie de falha, como se a perda de uma gravidez fosse resultado de sua própria incapacidade. Há também aquelas que são julgadas por não desejarem a maternidade nem corresponderem ao papel que lhes é imposto, mesmo quando esse nunca foi o seu desejo.
Qual de nós nunca se preocupou com o relógio biológico que, aliado a uma sociedade patriarcal e conservadora, transforma o tempo em urgência e relega nossas aspirações a um segundo plano? Desde o nascimento, tentam nos fazer acreditar na falácia de que nossas vidas se resumem a cuidar da família e ao cuidado da família e que só depois dos filhos criados — se for possível e ainda houver tempo — poderemos pensar na carreira, nos estudos ou em qualquer outro projeto de vida.
Costumo dizer que nós, mulheres, quando não somos vistas como objeto sexual, somos reduzidas ao nosso útero. Um enjoo ou uma tontura já são suficientes para que surjam especulações sobre uma possível gravidez. Nesse momento, não importa a nossa idade nem os nossos interesses, apenas o fato de termos um órgão reprodutor e nossa existência girar em torno dele. É por isso que o medo da infertilidade, assim como a imposição da maternidade, persegue tantas mulheres, levando-as à exaustão, à culpa e, não raro, à depressão.
Dizem que nascemos para ser mães. E, quando não somos, algo em nós parece faltar aos olhos dos outros. Quando decidi engravidar, também fui tomada pela insegurança. Apesar de minha médica afirmar que a demora era normal após muitos anos de uso de anticoncepcionais, aos sete meses de tentativas frustradas eu me considerava incapaz de gerar um filho. A cobrança não vinha apenas das convenções, mas de mim mesma, que precisava me reafirmar como a mulher que me ensinaram a ser.
De algum modo, eu havia internalizado a ideia de que, se não cumprisse a tarefa de procriar, não escaparia dos questionamentos ao longo da vida. Minhas colegas de trabalho comentariam todos os dias, querendo saber se eu havia desistido. Outras pessoas que cruzassem o meu caminho estranhariam o fato de eu não ter filhos e, sem perceber, transformariam minha escolha — ou minha impossibilidade — em assunto público, aberto à curiosidade e ao julgamento.
Ao contrário da protagonista criada pela colombiana Pilar Quintana, eu engravidei. Mas as cobranças que imaginei encerradas com o nascimento do meu filho logo se transformaram em outras. Não bastava ser mãe; era preciso ser mãe novamente. Então, frases como “Não espera muito para ter o segundo” e “Quando o Felipe vai ganhar um irmãozinho?” passaram a se tornar corriqueiras. E, quando meu marido e eu decidimos não ter mais filhos, vieram novos julgamentos. “Não é bom para uma criança não ter irmãos”, “Vai ser muito difícil para ele quando vocês ficarem velhos”. Sempre há uma falta a ser apontada, e o que fazemos ou queremos nunca é suficiente aos olhos da sociedade.
Damaris não pode ser mãe. Dos quatro filhos planejados com o marido, não teve nenhum. Tentou de muitas formas e por muito tempo. Chorava em silêncio as punhaladas que sentia ao ver mulheres grávidas, bebês recém-nascidos, casais com crianças já crescidas. Ela queria ser mãe e, quando beirava os quarenta anos, idade que, segundo o tio, as mulheres secam, aceitou que a maternidade não lhe convinha.
No momento em que encontrou a pequena órfã de apenas seis dias, passou a depositar nela todo o afeto guardado para o filho que não teve. A cachorra preenchia o vazio que jamais se completara, e por isso Damaris estava feliz. Ainda assim, pessoas próximas a ela passaram a criticar sua ousadia de tratar o animal como se fosse um bebê. O instinto materno — nato ou imposto — crescera a tal ponto que Damaris deu à cachorra o nome que daria a uma filha e, quando precisava sair de casa, levava o bichinho escondido no sutiã, para que não se separassem nem por um instante. Damaris, enfim, era a mãe que sonhara ser e manteve a filha adotiva cercada de cuidados até o dia em que algo fugiu ao seu controle.
Damaris não suportava vê-la. Era uma tortura encontrá-la cada vez mais barriguda quando abria a porta do casebre. A cachorra se empenhava em estar sempre ali e em segui-la do casebre ao quiosque, do quiosque ao tanque e do tanque ao casebre.
Damaris observava aquela transformação sem saber nomear o que sentia. De repente, já não queria a cachorra por perto e, quando os filhotes nasceram, permaneceu indiferente. A ausência de afeto da mãe pelos próprios filhotes, porém, despertou repulsa na mulher que sempre ansiara pela maternidade. A cachorra, que deveria encarnar aquilo que nela faltava, obedecia a outro instinto. O abandono dos filhotes era a negação de um ideal que a feria. Nesse choque entre o que esperava e o que via, Damaris deixou de se importar com a suposta filha. Algo nela se rompia. E, sem refletir, tomou uma decisão drástica da qual já não poderia voltar atrás.
Damaris não suportou ver, concretizado em um animal, tudo aquilo que um dia esperou de si. E fez recair sobre ele o peso de uma falta que nunca foi só sua. Uma vontade imposta que, de tanto ser repetida, acabou por se tornar verdade dentro dela.
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