
A rua está deserta, porque é noite. Noite alta. Confesso certo mau humor com o Boris, que cheira, cheira todas as moitas e não escolhe nenhuma para fazer xixi. Estou cansado. Do outro lado do mundo, tenho familiares na Guerra, e isso me consumiu durante o dia. Não somos diretos. Descarrego o desassossego no Boris. Ele me olha com a cara canina verdadeira de quem não tem nada com isso. Se a nossa cultura baniu o tempo e impôs a Guerra, ele não é o responsável. Só quer tempo para cheirar pacificamente. Para escolher onde fará o xixi. Para adiar o xixi, se for o caso. Ouço passos, são lentos, arrastados. Acabo de botar o fone no ouvido para parar de importunar o Boris. Uma música pode mudar o mundo. Os passos se aproximam num quase silêncio. Deve ser um assaltante de olho no meu celular. Sou presa fácil na rua escura e deserta. Temo pelo Boris mais do que pelo aparelho, mesmo que este guarde minha vida burocrática dentro dele. O vizinho da Rua Cabral, faz três meses, viveu perto dali uma tragédia como a que imagino agora. Foi assaltado, noite alta, na frente da escola. Seu cão, um labrador, latiu e foi morto na hora com um tiro do assaltante. O vizinho ainda correu com o cão nos braços, por toda a Joaquim Salgado, subiu a Casemiro, chispou até o veterinário. Não deu tempo. Sobrou o companheiro do labrador, um vira-lata que está deprimido desde então. A Guerra também é aqui. O Haiti é aqui. Os passos se aproximam. O homem está curvado. Carrega muitas sacolas. É todo o seu espólio real, como o virtual do meu celular. A bermuda quase caída está cheia de rasgões; a camiseta, idem. A voz quase não sai. Sorriso não se vê. Mas entendo que pergunta se tenho um troco para ele comprar um pão. Tenho um banco no meu celular que ele não vai roubar. Mas não vejo dinheiro vivo há muito tempo. Estou a três quadras de casa e pergunto se ele me acompanha. Ele me acompanha. Seu Luís, morador de rua, a família não quer saber dele. Não parece alcoolizado, mas talvez esteja em breve. Trabalhou anos na coleta do lixo para uma empresa terceirizada, não pôde se aposentar. Diz que tem 65, parece ter 80. Dormirá numa marquise, perto do Colégio Israelita, onde estudei. Ele parece ter saído de um livro de poemas que acabei de escrever: O homem no lixo e outros poemas pornográficos, fruto de minha observação desses homens e mulheres cada vez mais assíduos nas ruas, fuçando nos lixos, agarrando o que encontram no caminho. Vamos falando, porque ele fala, eu pergunto o mínimo. Não quero invadir. Nem o Boris, que, comumente, late, cheira, invade. Parece haver entendido o drama. Acompanha o seu Luís, a mim e meu Superego, onde um amigo militante me acusa de estar fazendo caridade. Mera caridade. Sei que é o que estou fazendo, mas não consigo fazer diferente. E tenho uma pequena esperança de que a empatia daquele encontro poderá relançar o seu Luís, transcendendo a minha caridade. Chego ao prédio com ele. Um vizinho, chegando também, me olha desconfiado com um Superego que é mais cruel do que o meu: o que estou fazendo com um homem desses, na frente de onde moramos? Subo e depois desço com 30 reais, uma bermuda e uma camiseta em bom estado. Entrego ao seu Luís com aquela súplica um tanto vã que, às vezes, fazemos a um filho. Que não faça merda. Que não beba o dinheiro. Que compre o pão quente que me pediu, duas ruas acima.
Seu Luís primeiro esboça e depois, a muito custo, completa um sorriso. Não é um sorriso grande, mas é um sorriso. Que faz esquecer superegos, a Guerra, o Haiti, a morte do cão do vizinho. E, como se estivesse aliviado, Boris escolhe uma moita e faz xixi em paz, sem titubear.
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