
Até poucos anos atrás, a última coisa que eu fazia antes de dormir era ler poemas em um livro físico, algo que, além de aumentar o meu vocabulário, me preparava para um sono tranquilo. Agora, se eu estiver sozinha, quase sempre, passo os olhos em uma rede social ou no WhatsApp, ou seja, a última coisa que faço é olhar para a tela e o tecladinho de meu celular. Hábito que não recomendo e que desejo mudar por uma série de razões, sendo a principal a de que, por meio dessa caixinha fina e leve, estímulos que eu não deveria viver, no horário em que meu corpo e mente pedem por sossego, acabam tumultuando um pouco o meu cérebro e me cansando. E aí não durmo porque estou com sono. Durmo porque estou exausta. Em meu favor, dentro deste contexto de uma espécie de dependência, consigo, já faz um bom tempo, pelo menos colocá-lo no modo silencioso durante toda a noite. Nem todo mundo consegue, eu sei.
Na semana passada, depois de eu ter publicado, em um outro espaço de escrita, perguntas sobre a presença dos ex em nossas vidas digitais, um leitor – homem divorciado há cinco anos depois de um casamento de dezoito anos arruinado por uma traição da esposa – me mandou uma mensagem dizendo que ele, que a recriminou de forma quase feroz, agora, de certa forma, engana a namorada curtindo posts de mulheres que acha atraentes e trocando mensagens com elas ou com quem teve breves relacionamentos quando está sozinho ou mesmo quando está ao seu lado e que, apesar de se divertir ou entreter, ele usou o verbo entreter, sente que tem algo de podre neste reino de comunicação virtual.
Eu concordo. Não que eu saiba dizer o que acontece, tenho muito mais perguntas que respostas, mas que compreendo que, entre as tantas mudanças trazidas pela internet, surgiram novas formas de deslealdade, não tenho dúvida. Antes dos celulares, ela exigia interação em um endereço físico. Hoje, sofre desdobramentos que a gente não imaginava possíveis. Como tantas coisas, a deslealdade se modernizou, substituindo o vínculo com afetos verdadeiros por conversas descartáveis com gente igualmente dispensável. Laços de afeto entre um casal que convive ao vivo e em cores demandam atenção, são trabalhosos, tendo sua confiança mediada também pelo uso que fazem das redes sociais em seus telefones. Se os colocarem a serviço da criação de uma intimidade paralela, para não dizer ilusória, com uma terceira, quarta, muitas pessoas, as chances de que o relacionamento vá pelos ares aumentam. E bastante.
Não sei como será com as gerações futuras, mas, nas que interagem agora, esse ecossistema de conteúdos e segredos protegidos pela criptografia de ponta a ponta, em que a distância espacial serve como o álibi para ocultar intenções e segredos, tem feito estragos. A ausência do contato físico, ao contrário do que se pensa, não serve como escudo de inocência, tampouco as declarações de que são apenas palavras ou um bate-papo de internet. Tudo isso não passa de uma ilusão conveniente para uma parte. A deslealdade não começa na pele. Começa na intenção de ocultar. Se uma conversa tiver de ser escondida ou apagada, pode apostar, alguma fronteira foi ultrapassada. Se envolver os ex que fazem questão de se manter presentes nas redes sociais não por genuína amizade, mas para se manterem na fila de opções do outro ou na humilhante e equivocada percepção de que ainda fazem alguma falta, nem se fala.
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