
Alguns livros são impiedosos. Tocam a alma de tal maneira que, para continuar a leitura, precisamos parar, respirar fundo e esperar que as emoções voltem a se acomodar nos lugares de onde foram arrancadas. Essa pausa pode durar alguns minutos, segundos ou o tempo suficiente para sugar o ar pelo nariz e, lentamente, expulsá-lo pela boca. Pode, também, estender-se por horas, semanas ou anos. E, quando finalmente acreditamos tê-lo esquecido, ele reaparece sobre um móvel ou no fundo de uma bolsa, convidando-nos a retomar a leitura e a buscar as respostas que ela mesma despertou.
Estes livros não se encerram na última página. Continuam reverberando em nossos pensamentos, nas emoções cotidianas e nas novas experiências ao longo da vida. Eles nos obrigam a revisitar lembranças e a enxergar o mundo — e a nós mesmos — sob uma nova perspectiva. É desse encontro entre o familiar e o desconhecido que nascem o estranhamento e a percepção de que certas dores, desejos e medos continuam vivos, mesmo quando acreditávamos tê-los deixado para trás.
Outro dia, fui ao lançamento de um desses livros que não devem ser lidos uma única vez e depois esquecidos na estante. Mariposas: sobreviver sem ossos, de Fabrício Vijales, é um desabafo literário que nos conduz por conflitos e inquietações resistentes a interpretações apressadas, com a rara capacidade de nos tirar da zona de conforto. À primeira vista, parece uma leitura breve, daquelas que costumamos dizer que terminamos “de uma sentada”. No entanto, a escrita fragmentada de Fabrício nos arremessa com tanta intensidade para o universo íntimo de seus personagens que se torna impossível abandoná-lo tão cedo. Em cada conto, que o autor prefere chamar de prosa, escondem-se metáforas e subtextos que só se revelam quando aceitamos voltar às páginas, lendo e relendo quantas vezes forem necessárias para construir nossas próprias interpretações.
A imagem da lagarta que precisa morrer para o nascimento da mariposa conduz toda a obra. Se, para muitos, a mariposa simboliza o mau presságio, Fabrício Vijales transforma essa figura em uma reflexão sobre a transformação, o renascimento após a morte e o luto das perdas cotidianas, em que o fim de algo não representa um encerramento, mas uma nova forma de existir. Psicanálise e literatura se entrelaçam com leveza, fazendo com que o leitor, por vezes, se sinta o analista e, em outras, o analisado.
Poucas leituras contemporâneas me instigaram tanto nos últimos meses. E eu não digo isso por conhecer o Fabrício há muitos anos. Digo pela qualidade da escrita, pela coragem de transformar fragilidades em literatura e pela capacidade de escrever um livro que continuará nos provocando depois do último ponto final. Mariposas: sobreviver sem ossos é uma dessas obras impiedosas que nos transformam silenciosamente. Fechamos o livro, mas ele continua nos lendo por muito tempo.
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