
“E saber disso muda alguma coisa para ti?” Essa foi uma das perguntas que mais ouvi depois de receber o diagnóstico de TDAH. Afinal, por que mudaria? Convivo com a neurodivergência desde que nasci e, aparentemente, ela nunca representou um problema para mim. Sempre fui boa aluna, embora minhas notas nem sempre fossem as mais altas. Publiquei livros, tornei-me professora, cronista e leitora assídua. Preservo um relacionamento estável. À primeira vista, sou calma. Não costumo causar conflitos nem impor os meus desejos. Aceito a opinião dos outros.
Então, por que um laudo faria diferença se ele não me garante direitos trabalhistas, não me torna superior a ninguém e tampouco muda a pessoa que sempre fui? Para alguns desses interrogadores, trata-se apenas da “modinha” da vez, ou de uma forma de entrar para o suposto “clube” dos neurodivergentes, já que dizem que “hoje em dia todo mundo tem um pouco de TDAH”. Para outros, mais céticos, não muda nada. É só mais um papel que explica algo plausível e antecede uma infinidade de receitas de remédios controlados e indicações de terapia, nada com o que eu já não esteja acostumada. O que essas duas leituras têm em comum é a ideia de que um diagnóstico só faz sentido quando transforma a pessoa em alguém diferente. Mas, para mim, que tento entender o que tem me causado tantas quedas, muda absolutamente tudo.
Há anos convivo com problemas relacionados à saúde mental, com breves intervalos de estabilidade. Primeiro vieram o estresse e a depressão. Depois, a depressão, a agorafobia e a síndrome do pânico. Mais tarde, a depressão acompanhada do TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada). Por fim, um quadro de depressão, TAG e síndrome de burnout que me afastou por quase um ano das minhas atividades sociais e ainda não me devolveu por completo ao lugar de onde me tirou. Os nomes mudavam, mas a sensação permanecia a mesma. Cada diagnóstico parecia explicar apenas uma parte e não a minha história inteira.
Durante esses anos todos, nunca deixei de tomar antidepressivos e ansiolíticos que, por muitas vezes, foram ajustados conforme a situação em que eu me encontrava. No entanto, apesar de aliviarem os sintomas e tornarem os dias mais suportáveis, as medicações não tiravam de mim a sensação de que havia algo mais. Era como se eu tratasse as consequências sem conseguir compreender a origem de tudo aquilo. As crises iam e voltavam. Eu aprendia a administrá-las, reorganizava a rotina, recuperava parte da disposição e seguia em frente até que, em algum momento, o ciclo recomeçava. Eu sabia controlar as crises, mas nunca entendia por que elas sempre voltavam. Eu seguia a vida sabendo que, em breve, uma nova situação me levaria novamente ao caos, driblando os julgamentos de quem me rotulava como preguiçosa, por conta dos muitos atestados e licenças médicas.
Depois de um período de afastamento, eu sempre conseguia retomar as minhas atividades normalmente, aos olhos dos outros, como se nada tivesse acontecido. O que essas pessoas não poderiam imaginar era que, para isso, eu gastava uma energia descomunal. Para não perder prazos, na escola onde trabalhava, era sempre a primeira a entregar documentos. Não me negava a participar de nenhuma atividade extra nem de socializar com os demais. Abraçava, a cada dia, mais compromissos, tanto como professora quanto como escritora, e me sentia feliz por estar “dando conta de tudo”, igual a todo mundo que eu conheço. O que ninguém via era o esforço necessário para sustentar essa aparente normalidade. Porém, dessa vez, as coisas estavam sendo diferentes e, apesar de ter passado quase todo o ano de 2025 longe de tudo, o meu esforço já não teve o mesmo efeito.
“As pessoas vão se adaptando e mascaram os sintomas”, o médico me explicou quando eu disse que jamais havia pensado que teria TDAH. Eu acreditava que os meus sinais se referiam a outras questões, incluindo a TAG que há anos vinha tratando. Foi somente quando comecei a olhar para toda a minha trajetória, e não apenas para cada diagnóstico isoladamente, que percebi um padrão se repetindo. Não se tratava de uma sucessão de fracassos pessoais nem de uma incapacidade de lidar com a vida. Havia uma história inteira que ainda precisava ser compreendida.
Foi então que comecei a estudar sobre o tema e enxerguei o que eu fingi não ver durante toda a minha vida. Como professora, atendi muitos estudantes neurodivergentes. Confesso que, muitas vezes, me vi em algumas de suas características, mas, como eram detalhes isolados e eu tinha um conhecimento limitado sobre o assunto, jamais pensei que eu também me enquadraria em um desses diagnósticos. Para mim e para outras tantas pessoas que pouco sabem sobre o TDAH, apenas crianças muito desatentas e com dificuldades de aprendizagem fazem parte desse grupo, assim como os hiperativos, aqueles inquietos que não conseguem permanecer sentados em uma cadeira.
Ao ler o psiquiatra Russell A. Barkley, encontrei uma explicação que parecia dialogar com boa parte da minha história. Em “Vencendo o TDAH Adulto”, ele explica que o transtorno compromete principalmente as funções executivas do cérebro, responsáveis por organizar, planejar, controlar impulsos e regular emoções. O problema, segundo o autor, não está na falta de conhecimento nem de vontade, mas na dificuldade de transformar intenções em ações. Pela primeira vez, compreendi que, durante anos, eu havia confundido limitações das funções executivas com falhas de caráter, pois muitas vezes eu acreditei que era preguiçosa e que me faltava esforço para ser igual aos outros.
Foi aí que percebi por que o diagnóstico muda tanto. Ele não altera quem eu sou, nem apaga as dificuldades que enfrento. Mas muda completamente a maneira como interpreto a minha história. Em vez de enxergar uma sequência de fracassos, passei a enxergar uma sequência de tentativas e, pela primeira vez, consegui olhar com um pouco mais de compreensão para a pessoa que passou a vida inteira tentando caber onde nunca haveria espaço para ela.
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