
Já contei por aqui que minha atividade física predileta é a caminhada? Amigas da área e profissionais da saúde sempre me avisam que musculação e academia são importantes para pessoas na minha idade. Ainda não consegui me convencer a iniciar.
A atividade física, logo depois que infartei, entre outras mudanças no estilo de vida, era essencial que eu transformasse em hábito diário. De início, duvidei de mim mesma. Mas me encorajei. Como aprendi com a minha nutricionista, Dra. Tatiana Pedroso de Paula: “O feito imperfeito é melhor que o não feito”. Comecei. No passado, havia escutado e validado quem dizia que era preguiçosa e sem disciplina. Hoje percebo o quanto essas vozes eram tóxicas e serviam para que me mantivesse paralisada.
Para escolher qual atividade, pensei no que me oportunizava prazer, já que seria algo que precisaria fazer diariamente e por muito tempo, ou a vida toda. Lembrei da caminhada porque, desde criança, adorava sair sem rumo pelo campo e pelas ruas.
A caminhada me proporciona conjugar apreciação com atividade física. Amo a conexão que ela me dá quando olho para o alto e observo o céu, nublado em seus dias de angústia ou azulado quando alegre, para o alto das copas das árvores, mirando os papagaios, sabiás, bem-te-vis e as pombas, e o passar das estações, brotando, florescendo, rebrotando.
É caminhando que também estabeleço uma relação própria com a cidade. Reconhecendo e me reconhecendo pelas ruas e bairros. Assistindo ao nascer e morrer de casas e edifícios, padarias, restaurantes, mercearias, cafeterias, farmácias. Relembrando histórias que vivi ou, quem sabe, gostaria de viver em lugares por onde vou passando. Também é caminhando que vou me apropriando das ruas e sentindo que a cidade não é tão fria nem tão violenta como tantos dizem que é.
A caminhada é uma meditação ativa para mim. Em dias de tristeza, preocupação, raiva, angústia, perguntas, na caminhada, a conversa comigo mesma vai oferecendo respostas e soluções, apaziguando o espírito.
Mesmo sendo mulher e, por isso, me cuidando para caminhar à luz do dia, não andar pelo canto da calçada para não correr o perigo de ser “prensada”, observar ao redor pela minha visão periférica para não ser surpreendida, preferencialmente, sinto a felicidade de sair sem rumo pelas ruas, com o compromisso de voltar dali um tempo, dependendo da minha disponibilidade. Não me deixo vencer pelo medo. E, sejamos honestas, os dados provam que o maior perigo para nós está dentro de casa.
Adoro observar as pessoas. O caminhar, a expressão, e sou daquelas pessoas que saem sorrindo e dando bom dia para desconhecidos. Sei que boas energias se espalham e provocam um efeito multiplicador. Mas, nesses anos de andanças que faço, pelas minhas observações, tutoras e tutores de cachorro e pessoas pelas calçadas são mais receptivos aos meus cumprimentos do que as que caminham “esportivamente” como eu. Por que será?
Uma hipótese que tenho é a de que esses se levam mais a sério. Estão ali para cumprir sua performance, suas metas, precisam ser produtivos e imaginam que, para colocar 100% do seu foco na sua atividade, não podem se dar ao luxo de perder tempo com sorrisos e bons dias. Se assim é, sou uma ovelha negra como Rita Lee, musa.
Entendo essa apreciação da Natureza e a meditação ativa que pratico como formas de preservar e estimular minha saúde mental. Assim como a prática dos meus cumprimentos com a rede de conexões criada com faxineiras, guardas, passantes, porteiros, zeladores, frentistas, funcionários de bancas, tutores de cachorros que me ofertam alegria por qualquer roteiro que decida fazer.
Por favor, não me entenda mal, levo muito a sério a caminhada. Ela é importante pra minha condição física; pratico desde o momento em que fui liberada pelos profissionais da saúde que me aconselharam, logo depois que infartei. Mas faço para manter minhas metas de saúde física, não para atender padrões de beleza inatingíveis, que fazem com que nós, mulheres, nos sintamos insuficientes permanentemente.
A caminhada, como canta o Chico César, na letra de “Deus Me Proteja”, é poesia também:
“Caminho se conhece andando
Então, vez em quando, é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber
Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído espalhar bem-querer”