
Não é fácil começar uma crônica com uma falta grave como esta: eu não saberia escrever, muito menos pronunciar o seu nome. Havia um p no início, um z no final, mas me atrapalhei e me atrapalho ainda no meio, inviabilizando o chamado.
Acho que o mesmo deve ter acontecido e acontecer com ele, pois percebi duas tentativas malogradas de pronunciar o meu. Uma visão menos crítica diria que mergulhamos na conversa e no vínculo, eu e o motorista de aplicativo que me levava no longo trajeto do aeroporto ao hotel, em Washington D.C. Ele era iraniano.
Não é fácil estar em Washington D.C. neste momento, como também não fora fácil vir de Israel, onde a Guerra apitava com frequência no celular, embora estivesse ausente nas ruas. Também não era fácil aquela conexão Israel-Irã-Estados Unidos.
Mas uma conversa ultrapassa fronteiras invioláveis, e ultrapassamos. Ele me contou que era professor de literatura no interior do seu país e que ama futebol. Não recusa ler um livro ou ver uma partida. Conversar com ele, agora, era muito fácil. Sempre me achei de boa memória, um entendido de futebol e literatura, mas ele me superava facilmente, deixando-me realmente impressionado. Eu gosto muito de aprender, o que nem sempre é fácil.
De futebol, ele sabia mais que o PVC, nosso enciclopédico comentarista, e era capaz de escalar as seleções brasileiras de 82 ou 86, incluindo os bancos de reservas e o reconhecimento da injustiça na derrota de 82. Para ele, o melhor de todos os tempos havia sido o Zico, pela estética dos seus movimentos, uma verdadeira gazela. Errar um pênalti decisivo é humano.
De literatura, sabia mais do que o professor Sergius Gonzaga e construía noções profundas sobre o Romantismo brasileiro e quão longe teriam chegado aqueles poetas, caso tivessem vivido mais. Tudo era mesmo impressionante, agora que já éramos irmãos de alma, ainda que não pronunciássemos nossos nomes. Ele fazia poesia e desejava conhecer a minha.
Sobre a sua história, na terra natal ainda, recebeu, um dia, o telefonema de uma mulher. Era engano, mas, algumas frases (bem pronunciadas) depois, apaixonaram-se pelas vozes, conheceram-se por inteiro e, há décadas, casaram-se. Ela insistiu que abandonassem o Irã, e ele disse que sempre a obedeceu, com a única exceção de não deixar de assistir na TV a um jogo importante.
Tinha um xodó pela primeira filha e sonhava juntar dinheiro para poder pagar a Faculdade de Direito da segunda. Para ele, mantinha acesos dois sonhos profissionais: tornar-se treinador de futebol ou voltar a dar aulas de literatura, em especial sobre o Barroco.
O trânsito apressado de Washington não permitiu que anotássemos corretamente os nossos números de telefone e me faltam condições digitais de reencontrar o seu, no aplicativo. Por isso, não sei se voltaremos a nos falar para que, um dia, possamos pronunciar corretamente os nossos nomes.