
“Nessas alturas, mil pensamentos povoam minha mente e começo a ver os fatos se concatenando. Aclara-se toda a significação daquele dia: o dia dividiu minha vida ao meio, como uma paisagem cortada em duas por um terremoto – de um lado, a infância, você e tudo o que significava a vida passada, de outro, a obscura, incomensurável distância que me caberá percorrer, o tempo que me resta viver. Um abismo separa as duas partes. O que aconteceu? Não encontro respostas.” O trecho acima está no capítulo 15, da edição da Companhia das Letras do romance As Brasas, o meu terceiro favorito do Sándor Márai. O De Verdade segue em primeiro lugar e o Confissões de um Burguês, em segundo. E o Márai, eternamente, entre os escritores da minha vida.
A minha vida, em amplo sentido, é óbvio, se constituiu a partir da interação com gente de carne e osso, e, em um mais singular, com a minha leitura de muitos livros (e antes que alguém venha me dizer que isso impede uma fruição mais densa, esclareço que cada um lê com o cérebro que tem), ou seja, com a existência das inúmeras personagens da Literatura Ocidental, todas desdobramentos da argúcia, da sensibilidade e do talento de alguém capaz de narrar o que passa conosco individual e coletivamente. Somos, gostando ou não, e, apesar de muito egocêntricos, parte de uma forma de existência interdependente, seven seconds away uns dos outros, sem a mínima chance de sobreviver por conta própria.
Por conta própria, é provável que só consigamos, sem grandes obstáculos, ser estúpidos no que diz respeito à preguiça de pensar e à presença de grosserias. Eu não tenho a mínima vocação para o universo dos maus-tratos e para a verborragia dos discursos prolixos. Falta de lucidez, de objetividade e de educação não me representam. Meus pais quiseram me educar, e eu quis ser educada, até para ter mais liberdade. Quanto mais civilizada e, por tabela, gentil e respeitosa uma pessoa for, maiores e melhores serão as suas interações sociais e mais ela será bem-vinda. Ser bem-vindo diz muito sobre nós. Uma boa parte da rejeição que algumas pessoas sofrem não é gratuita. É, como dizem por aí, colheita mesmo, consequência de como elas se manifestam. Se aos gritos, cheia de adjetivos e de ofensas, pouco ela é ouvida. E se ouvida, desprezada, inclusive pelos seus iguais, ou melhor dizendo, semelhantes, porque, para a nossa sorte, exército de clones não encontramos no mundo real.
No mundo real, diversidade humana é o que não falta, o que penso ser produtivo para a sobrevivência e o desenvolvimento da nossa espécie. Mas, e quando a gente diz ‘mas’, é porque aí vem algo relevante, essa diversidade pode ser dividida em grupos. Segundo o escritor e jornalista Eduardo Galeano, autor de As Veias Abertas da América Latina, em dois: o de pessoas sensíveis e o de quem se dedica a atormentar os demais por não possuir uma glândula bastante rara que ele chama de ‘consciência’, uma linguagem simbólica e fundamental para que a terra fértil em que pisamos não se torne um lamaçal de desonras e de vexames sobre qualquer forma de relacionamento.
Todos os textos de Helena Terra estão AQUI.

