
Tirando o fato de que as ferramentas digitais contemporâneas vão acabar nos levando ao fim do mundo, a moderna tecnologia online até tem alguns méritos. Um deles é o que eu chamo – e sim, só eu tenho consciência disso – de presença vicária compensatória. A oportunidade que você tem de falar e trocar ideias em tempo real com seus amigos e pessoas que você ama, mesmo que você e seus interlocutores não estejam na mesma área geográfica. Você não vê mais a pessoa, mas ela não sumiu, você ainda sabe notícias dela, relembra memórias e histórias, compartilha informações, sugestões, ideias. E em termos imediatos, sem precisar esperar por uma semana ou um mês para que uma carta vá e outra venha.
Para os mais jovens que já vieram ao mundo praticamente com um celular na mão, isso que digo é tão naturalizado que não surpreende mais, porque não há o termômetro de comparação com o que havia antes, e sobre o qual já escrevi a respeito neste texto aqui: “Eu me lembro, portanto, desse mundo (…), um mundo em que o telefone ficava pregado ou conectado à parede e em que a desconexão era algo possível. Um mundo em que se ligava e não havia ninguém em casa”.
No início dos anos 2000, após um fim de relacionamento que, em termos práticos, desmontou minha vida em pedacinhos que eu precisei laboriosamente ir substituindo aos poucos, tive de reconstruir muita coisa, inclusive círculos de amizades. Foi nessa época que travei conhecimento com um grupo de amigos que me acompanha há um quarto de século, sem que talvez eu mereça. Mas como é uma das raras injustiças do mundo que corre em meu benefício, não vou reclamar.
Havia naqueles anos jovens essa alegria rara, e que costumamos dar por garantida, a de “ter” amigos e vê-los. Ter, no seu sentido mais pleno, você sabia que eles estavam ali, a um torpedo de celular, a uma ligação telefônica, e logo todos estariam em algum lugar bebendo cerveja, discutindo cinema e literatura, cantando Frank Sinatra podres de bêbados (nunca aderi, minhas raízes metaleiras até se revoltavam um pouco contra), repetindo as mesmas piadas (ao ponto de havermos transformado em um bordão a súplica por “piadas novas no ano que vem”), organizando um churrasco ou uma expedição de improviso (ainda chamam isso de “indiada” ou a expressão se tornou politicamente incorreta?).
Claro, essa é a fase jovem e plena de encantamento de ter amigos, esse “ter” traduzido na sua forma mais básica, a presença ao alcance da mão, a prova de que seus amigos são como um bando de entidades em filmes de terror, você não precisa fazer muito, basta tropeçar em um motivo e eles se sentem convocados a se manifestar. Mais adiante, a vida vai acontecendo: uns têm filhos, outros se mudam de cidade, algumas distâncias e fissuras incontornáveis se abrem em um grupo dessa natureza, alguns brigam de não se falar mais, testando as lealdades do grupo, outros quase saem na porrada (uma circunstância tristemente comum em grupos com muitos homens, devo admitir).
É aí que o “ter” se torna filosófico e abstrato. Você tem amigos. Eles estarão ali para você nas mais graves emergências, mas infelizmente não mais para uma cerveja às 18h ou um cinema às 16h de sábado (sempre um filme ruim, essa é uma dinâmica interessante nas melhores amizades. Vocês só se juntam para ver os piores filmes possíveis, aqueles que renderão horas de memórias posteriores sobre os infinitos aspectos da tosqueira inacreditável com a qual você desperdiçou tempo e o dinheiro do ingresso ou do aluguel da fita). Você “tem” amigos e sabe que eles serão o esteio nas tempestades, mas a alegria do convívio, cuja preciosidade negligenciamos como natural, se torna menos frequente, dependente de visitas, férias, feriados.
Antes e depois
Descrevo amizades que ainda eram muito comuns naquela primeira década do século XXI e última década do século XX. Mas já havia, desde os primeiros anos 2000, um meio de manter contato não presencial com esse grupo de amigos, e-mails que iam e vinham numa corrente incessante. Os últimos 15 anos trouxeram algo diverso, a disseminação do WhatsApp e de outras plataformas correlatas, nas quais eu hoje falo todos os dias com pessoas que, pelas circunstâncias da vida, eu só consigo ver uma vez por ano.
Naquela época da qual falei há pouco, antes da internet, trocaríamos cartas, e eu mesmo, ali nos primeiros anos de 1990, recém-transferido para Porto Alegre, tive meu tempo de correspondência com alguns colegas e amigos de São Gabriel que haviam também se dispersado pelo mundo (eu vim para Porto Alegre, um outro foi para Brasília, muitos foram para Santa Maria, alguns permaneceram na São Gabriel nativa). Mas a carta era ela própria um ritual simbólico. Havia necessidade de separar um tempo para escrever. Muitos eram adeptos de fazer primeiro rascunhos que viraram uma riscaiada e depois eram “passados a limpo”, outra expressão que nunca mais ouvi. Você dedicava mais tempo naquilo, tinha também de arranjar os envelopes, comprar selos, ir ao correio, e o trânsito entre a mensagem original e a resposta era longo, como já mencionei. Depois de um tempo, ao menos na minha geração, esse tipo de amizade epistolar feneceu ou diminuiu seu ritmo – ainda mais porque fomos nós que descobrimos primeiro os substitutos para esse tipo de interação, como as redes BBS, as salas de chat, os e-mails, as caixas de comentários em blogs, o Orkut etc.
Hoje, você monta um grupo em algum aplicativo de telemensagens e praticamente fala com todos o dia inteiro, não levando mais do que uns 30 segundos para mandar uma mensagem que dialoga com o fluxo da conversa e depois se perde e se esvai na memória. E essas ferramentas, com esse pequeno milagre, nos dão uma ilusão que pode se revelar perigosa, a de uma presença digital constante que não se traduz no convívio real, algo que vai ser doloroso se algo muito ruim acontecer de repente.
Para mim aconteceu.
Derli
Derli Kraemer, um de meus melhores amigos, morreu no último fim de semana. Cinco anos de insuficiência renal e diálise e torcida na fila por um transplante que se realizou em janeiro – e o perdemos quando já respirávamos aliviados, imaginando a vida nova e mais autônoma que ele teria, e que se foi devido a uma infecção.
Derli era quieto, desatento, tinha a aura tranquila de um mestre zen, com uma curiosidade e ingenuidade infantil. Gigante gentil, com sua altura considerável e volume corporal superlativo, era uma pessoa doce e afetuosa – parte da curiosidade que ele despertava era justamente esse contraste entre o visual de capanga brucutu de filme de ação dos anos 1980 com a voz tranquila e o humor bonachão que ele revelava ao interagir com qualquer um. Eu o amava como um irmão e sei que ele me amava de volta com a mesma intensidade, talvez mais.
Derli era, em nosso grupo de Whats cheio de tiradas e trocadilhos e citações eruditas, e piadas de quinta série, aquele que interagia menos, e isso antes mesmo de seus problemas de saúde. Às vezes, demorava três dias para responder a uma mensagem num fluxo contínuo de diálogo que já havia se afastado há muito daquele tópico. Derli não se importava com isso, seu ritmo era próprio. Ele falava pouco naquele grupo, mas era um silêncio confortável. Embora às vezes sumisse por dias, sabíamos que ele nos acompanhava, que voltaria reclamando que a gente trocava mensagem demais, era impossível seguir tudo. O silêncio de Derli no grupo era confortável, era sua presença sem pressa nos confirmando que, apesar das adversidades, estava tudo bem.
Comum
Aí, neste fim de semana, seu silêncio se tornou uma ausência intolerável. Não é uma experiência inédita nem incomum, todos nós que estamos vivos já passamos ou, infelizmente, estamos em vias de passar por algo assim, uma perda absurda em sua rapidez e cruel em sua irreversibilidade. Não me atribuo o ineditismo desses sentimentos, sei que são de uma recorrência comum, por mais incomum que nossos amados que se vão se mostrassem aos nossos olhos.
E por que escrever sobre isso? Para processar uma confusão e um luto que vêm em ondas. Uma sensação apática de incerteza e irrealidade na qual flutuo desde que soube, como se me afogasse em um gel paralisante. Os sentimentos são comuns, também as metáforas que nos ocorrem de imediato… O soco no peito quando recebi a notícia pela primeira vez. A nuvem de incompreensão em que passei o dia seguinte inteiro. A sensação em ondas da esmagadora consciência da morte de meu amigo e depois a ressaca de conseguir afastar aquele pensamento por um momento, até que o ciclo recomece. A linguagem do luto parece se socorrer das imagens mais básicas e repetitivas porque o luto ele próprio não se traduz de modo adequado em palavras, é como se ele fosse uma linguagem ele própria, e, enquanto fala, não deixa espaço para muitas elaborações ou raciocínios. Tome este clichê aqui, conversamos quando o barulho ensurdecedor dessa dor toda se tornar mais suportável.
Eu não sou best-seller nem recebo prêmios, mas o que reconheço em mim como escritor é a noção de que há coisas que só consigo processar por escrito, que só consigo lidar entremeando minhas inquietações na composição de um texto. Eu já fiz isso outras vezes aqui mesmo neste espaço, comentando perdas que me perturbaram, de pessoas com quem convivi e a quem admirava. A perda deste fim de semana é diferente, é mais ampla, completa e até mesmo pessoal. É a primeira vez em uns 30 anos que eu perco alguém que eu amava profundamente, um irmão que gostava de mim de um modo tão sincero e sem complicações, tão presente mesmo no silêncio, que a percepção de que agora esse silêncio só significa ausência é esmagadora.
Com ele, perdi uma parte valiosa da minha vida. Se não escrevesse, talvez perdesse ainda mais.
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