
O caso do Banco Master, que de tempos em tempos atravessa o noticiário, diz mais sobre nós do que sobre o próprio sistema financeiro. Não se trata apenas de números, lucros ou prejuízos, mas de um certo imaginário coletivo que insiste em celebrar o ganho rápido, mesmo quando ele se sustenta sobre bases frágeis. A figura que lidera esse tipo de engrenagem — muitas vezes alçada à condição de exemplo — parece produzir pouco além do giro de capital. Ainda assim, atrai seguidores, seduzidos pela promessa de riqueza fácil.
E para quê? Para transformar dinheiro em símbolo. Alugar uma ilha, promover festas extravagantes, exibir gastos como se fosse poder. No fim, sobra uma pergunta incômoda: que tipo de sucesso é esse que não dialoga com a realidade ao redor? Falta propósito, sobra espetáculo. O “lobo das finanças”, competitivo e voraz, acaba se tornando menos uma exceção e mais um espelho distorcido de valores que, de algum modo, toleramos — ou até admiramos.
Talvez por isso ainda haja quem deseje esse tipo de vida. Não apenas pelo conforto, mas pelo que ela representa. Um ideal de consumo que já ultrapassou, há muito tempo, a capacidade do planeta. Se todos vivessem o “sonho americano”, vendido por filmes e séries, seriam necessários vários planetas para sustentar o modelo.
O problema não é difícil de entender; difícil é abrir mão da fantasia.
Seguimos, então, tentando expandir indefinidamente em um mundo que é finito. E, curiosamente, isso parece mais plausível do que admitir a necessidade de mudança, esta sim vista como utópica. Parece mais fácil acreditar que os impactos virão depois — ou para outros. A lógica não é tão diferente daquela do especulador que acredita que nunca será cobrado por seus atos. Ganância, egocentrismo e desperdício caminham juntos, servindo de modelo, tanto no topo quanto na base da pirâmide.
Mas há uma diferença fundamental entre nós, humanos, e as demais espécies: não é apenas a capacidade de viver em sociedade, e sim de produzir cultura. Foi a cultura que nos permitiu imaginar futuros, desenvolver ciência, transformar o mundo. E ciência não existe sem educação — sem a transmissão contínua de conhecimento e investimento em pesquisa. Esta deveria ser nossa aposta para reimaginar o futuro; esse seria o luxo onde investir.
Diante disso, a pergunta surge quase naturalmente: por que, então, tantos movimentos de desvalorização da educação e da cultura? Por que a insistência em simplificar o mundo em divisões rasas, como se a complexidade fosse um problema a ser evitado, e não compreendido?
Talvez haja medo. Mudar de verdade implica rever privilégios, redefinir o que entendemos por bem-estar e desenvolvimento. E isso não é trivial. É humano querer mudança — desde que ela não nos atinja diretamente. Sobretudo quando se ocupa uma posição confortável dentro do sistema. Nesse cenário, não faltam esforços — e investimentos — para que tudo permaneça como está.
Mas o problema não se restringe a quem está no topo. O filme O Poço ilustra bem isso ao expor nossa dificuldade coletiva de lidar com recursos limitados. A escassez, ali, não é apenas material, mas ética. Falta empatia, mesmo quando sabemos que, em algum momento, podemos estar em uma posição pior. É um retrato incômodo — justamente por ser reconhecível.
Se há algo evidente, é que mudanças estruturais deixaram de ser escolha e passaram a ser condição de sobrevivência. A questão já não é “se”, mas “como” e “quando”.
Pode parecer complexo — e é. Mas não mais do que outras transformações que já realizamos ao longo da história. Da descoberta do fogo ao micro-ondas, reinventamos continuamente nossa forma de existir. Talvez o desafio agora seja menos tecnológico e mais cultural.
Isso passa, inevitavelmente, pela educação. Não apenas como formação técnica, mas como construção de valores. Sem uma revisão do que desejamos — individual e coletivamente —, não haverá mudança consistente. Continuaremos apenas ajustando um modelo que já dá sinais claros de esgotamento.
No Brasil, não faltam recursos ou capacidades. Temos indústria, agricultura, tecnologia. O que falta, muitas vezes, é propósito compartilhado. E o propósito começa por reconhecer o essencial. Água, por exemplo, não é apenas um recurso: é condição básica de vida. Cuidar dela deveria ser um consenso — mas ainda não é.
Compreender os problemas em sua complexidade é o primeiro passo. Investir em conhecimento é o caminho mais sólido para mudanças duradouras. Educação como base, ciência como guia.
E, para quem pensa as cidades, como eu, tudo isso é ainda mais evidente. A cidade é a materialização da nossa cultura. Cada muro erguido, cada solução adiada, cada desigualdade naturalizada revela escolhas — conscientes ou não. Ao negligenciar questões estruturais como moradia, segurança alimentar, mobilidade e acesso à educação, reforçamos um modelo que compromete o futuro.
Não há solução somente individual. Tampouco somente local. Vivemos em um mesmo planeta, interdependente por definição. Os grandes temas — aqueles que realmente importam — são globais.
Dentro deste contexto, o desafio é começar individualmente, impactar localmente e, assim, ir construindo o caminho da mudança de forma global.
O deslocamento necessário é substituir a lógica da competição pela da colaboração. Em um mundo que ainda investe pesadamente em tecnologias de destruição, imaginar alternativas sustentáveis exige mais do que inovação técnica — exige mudança de mentalidade.
No fim, a pergunta permanece aberta, mas cada vez mais urgente: o que queremos sustentar — a cultura do consumo ou nossa sobrevivência?
Todos os textos de Cibele Figueira estão AQUI.

