
Na arte, há mais de um tipo de afetação. Uma delas pode ser a que se expressa na forma: uma prosa mais densa, carregada, arrevesada, com intenções de reproduzir ritmos ou dicções de um determinado campo léxico como parte de um projeto maior. Essa é uma afetação tomada por escolha estética e, embora, como muitas afetações, possa desagradar alguns, não deve ser descartada senão em seus próprios termos, na forma como ela contribui para o efeito pretendido ou sugerido pelo autor. Mas há, com mais frequência do que muitos percebem, um outro tipo de afetação artística, performática, dedicada a amplificar não os efeitos estéticos de uma obra, mas uma imagem que o artista quer criar de si mesmo. Essa, sinceramente, acho palha pra cacete…
Não tive como não pensar nesse segundo tipo de afetação quando as artimanhas do algoritmo fizeram chegar a mim a repercussão de um vídeo gravado e divulgado nas redes sociais pela velejadora e, agora, vá lá, escritora Tamara Klink. Eu não procurei por esse assunto, mas, como eu sigo e acompanho personagens da bolha, essa mesma em que esse tópico provocou a polêmica, foi inevitável ter tomado consciência dela.
A polêmica
Primeiro, um breve apanhado para entendimento e edificação das massas: Tamara Klink, filha do renomado Amyr Klink, lançou um livro pela Companhia das Letras recentemente chamado Bom dia, Inverno. Segundo o material da própria editora, é um relato sobre uma expedição da jovem navegadora à região ártica da Groenlândia, onde ela passou oito meses ancorada em isolamento em um fiorde, acompanhando a passagem do inverno polar na região. O livro foi lançado em maio e, aí, em rápida sucessão, algumas coisas aconteceram, e eu não tenho explicação para nenhuma delas. A primeira é que o livro se tornou best-seller, figurando entre os lançamentos mais vendidos da editora. Não compreendo o porquê, assim como não compreendi nos anos 1980 e 1990, quando o Klink pai também se tornou sucesso de vendas com Cem dias entre céu e mar (1985) e Paratii: entre dois pólos (1992), livros que todo mundo à minha volta parecia estar lendo (e comprando) menos eu.
Imagino que tanto Tamara agora quanto Amyr naquele tempo tenham escrito um tipo de obra que alcança muita popularidade entre uma classe específica de leitores – classe aqui usada tanto como categoria intelectual quanto social: gente mais ou menos confortável na vida e fascinada por “narrativas de triunfo do espírito humano” ou alguma outra ideia dessas. Só que essa ainda não é a afetação da qual eu falava; é, para mérito de Amyr antes e de Tamara agora, a constatação de que seus livros apelam para o gosto de um bom número de leitores, bom para eles. Mas, doutor, divago.
Mas aí chegamos ao segundo fato dessa cadeia de eventos: após haver se tornado autora do livro mais vendido da maior companhia editorial do país no último mês, a mesma Tamara gravou e divulgou um vídeo em suas redes sociais dizendo que, por ela, já estava bom de livro vendido, seus fãs e leitores poderiam parar de comprar suas obras para que houvesse mais recirculação de livros e menos impressão de novos exemplares, diminuindo assim seu suposto impacto no meio ambiente. Segundo ela, o motivo para gravar o vídeo e fazer o apelo era manter a sua coerência como alguém preocupada com o ambiente natural. E isso, sinceramente, é a mais lamentável afetação performática…
Ambiente e pegada de carbono
Primeiro, considerando que eu devo fazer nas próximas linhas algumas críticas bem contundentes, preciso amenizar as coisas dizendo que já estava plenamente de acordo com Tamara Klink antes mesmo de seu vídeo: jamais me passou pela cabeça comprar o livro. Ao mesmo tempo, acho que o caso é interessante como ponto de discussão por tocar simultaneamente em três temas relevantes: sustentabilidade, circulação da cultura e reconhecimento ou não de privilégios.
É inegável que lançar um livro em suporte físico é uma empreitada que produz sua “pegada de carbono”. Você precisa de papel, tinta, corte de árvores, produção de celulose, logística de transporte e armazenamento. Peguemos apenas o livro, esse da moça. Alguns dados objetivos sobre ele são providenciados pela própria editora, como número de páginas (256), tipo de papel (pólen, gramatura entre 70 e 90 g/m² produzido pela Suzano), peso final médio de um exemplar (313 gramas). Sabemos, ainda, que um lançamento considerado aposta pela Companhia deve sair com tiragem entre cinco mil e dez mil exemplares (muito maior do que a média das publicações em geral ou das edições em casas menores ou de caráter independente, obras de pessoas que não têm um sobrenome famoso e nem publicam pela maior casa editorial do Brasil).
Dentre os efeitos ambientais da produção de livros físicos, há ainda questões indiretas, como uso de eletricidade em todas as etapas do processo e gasto de água na produção de celulose (já que a Companhia costuma usar papel da Suzano, empresa que fabrica papel a partir de madeira de reflorestamento, o que, em tese, atenuaria parte do estrago), o que se deveria levar em conta aqui é menos o corte das árvores e mais o impacto ambiental da própria produção de celulose. Vamos nivelar por baixo e pensar que a primeira edição do livro teve uns cinco mil exemplares com esses parâmetros. O resultado seria cerca de uma tonelada e meia de livros que, somando produção do papel, impressão, transporte e distribuição, teria uma pegada de um quilo de carbono emitido por cada quilo de papel. Então você teria meio que uma tonelada e meia de carbono e emissão de dois a quatro quilos de CO₂e (sigla para Dióxido de Carbono Equivalente, Carbon Dioxide Equivalent, em inglês, unidade de medida padrão usada para juntar e comparar o impacto de diferentes gases de efeito estufa no aquecimento global) para cada exemplar físico produzido – outros cálculos levando em conta outras variantes, inclusive o uso de água colateral da produção de celulose, podem chegar a umas estimadas 15 toneladas de carbono para o total da modesta edição.
O digital não é tão leve
É, de fato, um impacto considerável, o que nos leva a perguntar: se essa era realmente a grande preocupação da jovem, por que diabos se preocupar em lançar o livro impresso, no fim das contas? Por que não fazer uma edição unicamente digital?
Talvez porque a publicação de livros digitais, e eu não sei se Tamara sabe disso, nada em sua diatribe leve em favor da recirculação, deixe a entender algo assim, não é isenta de resíduos ambientais. Você precisa de uma central de armazenamento digital, o que também demanda espaço, recursos naturais, água para resfriamento, eletricidade para funcionamento. O livro digital só pode ser lido em dispositivos eletrônicos, eles próprios responsáveis por uma gigantesca pegada de carbono, incluindo extração de matérias-primas, fabricação dos componentes eletrônicos, montagem, transporte, uso e descarte. Pegando o exemplo apenas do modelo mais avançado do Kindle disponível atualmente, o Colorsoft Signature Edition, a própria empresa fabricadora, Amazon, informa uma pegada de carbono de ciclo de vida de 42 quilos de CO₂e emitidos por unidade (leia AQUI).
Veja, a produção de um único exemplar do livro de Tamara emite estimados dois a quatro quilos de CO₂e, enquanto um único Kindle “custa” 42 quilos da mesma emissão. Com a produção inteira de uma edição de cinco mil exemplares e suas estimadas 15 toneladas de CO₂e, você produz uns 400 desses aparelhos – e, diferentemente de um livro físico, as pessoas são menos propensas a emprestar seus Kindles. Além do mais, embora a Amazon não divulgue seus números de venda, assim como praticamente qualquer empresa arrombada de tecnologia contemporânea, estima-se que se vendam umas 50 mil a 200 mil unidades desses dispositivos por ano. Levemos em conta também que a maior parte do impacto ambiental de um leitor digital se dá na etapa de aquisição de matéria-prima e manufatura de materiais – algumas delas oriundas de setores especialmente devastadores para o ambiente: fabricação de semicondutores, mineração e refino de metais e minerais necessários para a operação do equipamento; produção de plásticos, magnésio e demais componentes estruturais.
Naturalmente, vocês me dirão: um Kindle pode ser usado para uma variedade incontável de obras ao longo de vários anos (tempo de vida útil estimado em cinco a dez anos), o que dilui o impacto desse tipo de dispositivo no ambiente, mas esses números ajudam a mostrar que a discussão ambiental sobre leitura não é tão intuitiva ou simplista quanto o vídeo da jovem nepoautora fez parecer. Um único leitor eletrônico possui uma pegada de fabricação relativamente alta porque incorpora semicondutores, bateria de lítio, tela E-Ink, metais refinados e uma cadeia industrial global bastante complexa.
Afinal, não há um limite de livros vendidos a partir do qual o argumento ecológico de Tamara se torna mais ou menos verdadeiro. Imprimir dez ou quinze mil exemplares é problemático, mas imprimir cinco mil também já era. Se a circulação digital é mais eficiente em termos de emissões, essa questão existia antes da primeira cópia sair da gráfica.
Cultura e privilégio
Muita gente, na direita e, para minha surpresa, na esquerda, anda tendo lá seus chiliques contra o espantalho da “cultura woke” e da “pauta identitária”, mas, entre os elementos que eu considero realmente válidos surgidos de muitas das discussões levadas a efeito nesse campo nos últimos vinte ou trinta anos, é o debate em torno da noção de “privilégio”. Acho um termo meio mal escolhido – penso que “vantagens” diz mais sem apelar para um imaginário elitista que nubla a questão. Mas a noção em si é muito, muito útil: a ideia de que, em um sistema de desigualdades, os “privilégios” não dividem o mundo entre favorecidos e desfavorecidos, mas sim distribuem vantagens e desvantagens ao longo de uma escala em que cada pessoa está acima de alguns e abaixo de outros. Mesmo que você esteja no chamado “andar de baixo”, ainda assim, dentro dessa microescala, você às vezes nem percebe que algumas das portas naturalmente destrancadas para você estão fechadas para outros mais abaixo.
A moça Tamara não está, obviamente, no andar debaixo por qualquer ângulo que se olhe. É filha de um dos navegadores e empreendedores mais famosos do Brasil, e em uma posição econômica tão confortável que pode, sem demérito da coragem e da habilidade necessárias para isso, se dedicar às aventuras náuticas que a tornam herdeira de seu pai. Também, como “autora de livros”, sua posição é bastante privilegiada. Para fazer uma análise de seus livros enquanto objetos de cultura, eu teria que lê-los, claro, e se tem uma coisa que eu estou mesmo a fim de atender é a vontade dessa moça e nunca chegar perto de um, mas, com o que amealhei na imprensa e em paratextos, posso apontar sem erro que seus trabalhos são obras de nicho, no filão editorial da literatura de viagens/aventura – portanto, um tipo de livro que provavelmente não estará em cânone algum em uns 50 anos, mas que cativa uma penca de leitores hoje. E a posição de Tamara como escritora é bastante particular.
Ela não depende exclusivamente da escrita para viver. Não é uma autora desconhecida tentando conquistar espaço em um mercado difícil. É filha de Amyr Klink e chegou ao lançamento de seu livro respaldada por uma visibilidade e um capital simbólico de que a imensa maioria dos autores iniciantes não dispõe. Aliás, seu primeiro livro já foi publicado pela maior editora do Brasil – a mesma que publica os livros de seu pai desde os anos 1980. Pode-se discutir que não houve apadrinhamento direto, mas é impossível ignorar que uma coisa naturalmente tenha facilitado o caminho da outra.
Há ainda outras duas questões colaterais. Os privilégios que Tamara parece não enxergar em sua condição facilitaram o início, mas o livro, por seus próprios méritos, se tornou um best-seller. E mesmo nessa categoria seu caráter assume outras peculiaridades, dado que, quando os instintos ecológicos da jovem começam a se sentir melindrados porque está “vendendo demais”, ela está em uma posição bastante diversa daquela vivida por escritores independentes, pequenas editoras e livrarias que lutam diariamente pela própria sobrevivência. Um grande número, aliás, de autores apontou esse detalhe na feroz repercussão que o vídeo da moça gerou, alguns de modo mais contundente, enquanto outros, publicados pela mesma editora, precisaram pisar em ovos em nome dessa camaradagem de interesses tão comum em qualquer ramo. O texto mais engraçado que eu li sobre isso foi um esquete cômico em forma de diálogos, imaginando a reação estressada do editor responsável pela preparação direta do livro ao ver o vídeo. Assim, evito me alongar neste ponto. A moça, com a vida feita desde cedo e provavelmente transformando suas aventuras em livro como forma de angariar algum prestígio imaterial simbólico como “escritora”, achou que vender demais era um problema, ignorando que essa é uma manifestação de uma pessoa privilegiada diante de um sistema editorial cada vez mais precário (curiosamente, no mundo em que ninguém mais lê e pouca gente compra livro, ainda parece haver uma certa mística na ideia de “ser escritor”).
Mas outro ponto que acho interessante abordar está na forma leviana como a ideia perfeitamente razoável que a moça levantou foi apresentada, ignorando que “recirculação de livros” não é apenas “não compre, empreste” (um lema que me parece comicamente próximo do “não compre, plante” da galera ativista da marofa). Bibliotecas, empréstimos, sebos e doações são instituições valiosas precisamente porque ampliam o uso social de objetos cuja produção gerou um custo ambiental, mas isso não se faz simplesmente com um “não compre” direcionado ao consumidor final e sem nenhuma política pública envolvida. Alguém que até hoje nunca deu um “ai” sobre sucateamento de bibliotecas, acervos defasados, interrupção das compras públicas para alimentar bibliotecas, pouquíssimos projetos de bibliotecas online licenciadas parece inapelavelmente afetada ao vir a público preocupada porque, que pena, “meu livro vendeu muito, que tristeza, olha só a pegada de carbono que isso deixa”.
Complexidade
A questão é mais sutil do que cabe num vídeo para rede social, e esse sempre parece ser o grande problema das discussões contemporâneas iniciadas como reação ígnea a manifestações online. Sustentabilidade ambiental não é apenas uma questão de carbono, papel ou energia. Agora mesmo na Argentina está-se levantando toda uma outra discussão colateral sobre as políticas de desregulamentação total do psicopata Milei, reforçando um ponto que deveria ser óbvio: livro não é apenas um objeto físico, é um produto que cruza as dimensões de mercadoria e cultura, resultado de uma cadeia econômica, cultural e profissional extremamente complexa. Ao simplesmente defender que não se comprem livros, mesmo os dela própria, Tamara parece ignorar que cada exemplar vendido está imbricado em uma cadeia econômica que inclui revisores, capistas, tradutores, diagramadores, designers, impressores, distribuidores, livreiros, funcionários dos depósitos, das livrarias, das editoras, transportadoras, equipes de marketing etc.
Discutir o fetichismo mercantil do livro enquanto objeto é muito válido, mas é um debate que não se faz a partir desse tipo de gesto vazio. O livro é um produto comercial, mas com ressonâncias mais amplas, tanto que há anos se discute o quanto deixar a curadoria da produção cultural exclusivamente aos cuidados do mercado não vem sendo danoso ao ecossistema artístico e à bibliodiversidade, mais um tijolinho na construção de um futuro distópico em que o artista, em nome de certas “coerências” ideológicas vinculadas ao ambientalismo e a uma noção meio radical de “compartilhamento”, já não é mais remunerado por seu trabalho. Esse é um ponto que se tornou particularmente dramático no momento em que temos grandes companhias de tecnologia treinando seus modelos de IA, rapinando o trabalho alheio, sejam livros, filmes, artes visuais. Um ecossistema cultural saudável depende tanto da preservação dos recursos naturais quanto da preservação das condições materiais que permitem que escritores, editoras e livrarias continuem existindo. Na progressão desse cenário, parece que as únicas pessoas autorizadas ao fazer artístico nesse amanhã deplorável serão os pequenos ou grandes herdeiros com a vida ganha o bastante para não precisar viver disso.
E por isso a manifestação da jovem soa a afetação, pura performance, um gesto simbólico que, como muito do ativismo digital, produz capital moral sem enfrentar o problema em sua raiz. Pedir que os outros consumam menos um produto que já foi lançado, divulgado, distribuído e transformado em sucesso comercial é uma posição confortável – até porque, depois do pedido, para surpresa de ninguém, o livro vendeu mais ainda, o que dá ao episódio uma pátina de marketing digital enviesado disfarçado de “coerência” ambiental. Vou ser otimista e pensar que não é o caso, mas a hipótese está aí.
Há poucos dias, diante da repercussão negativa, Tamara Klink reconheceu que havia ignorado aspectos importantes da cadeia editorial e se retratou, admitindo que não havia levado em conta “toda a cadeia que alimenta as editoras” e que “precisamos de autores, pequenos, grandes e independentes”.
Se é uma retratação tão performativa quanto o vídeo original, não sei. Não conheço essa nepomoça para além das associações automáticas produzidas por seu sobrenome; não desejo mal a ela, espero que sua vida ainda reserve muitas aventuras e, se for o caso, mais livros no futuro.
Livros que, atendendo ao pedido da própria Tamara, eu é que não vou comprar…