
Em tempos de inverno, dias nublados e frios, chuva fina intercalando temporal, as operações a serem realizadas requisitam um pouco mais de determinação e foco. A peça de roupa a mais, a espessura do tecido, a luz do sol atrasada em relação à hora que corre, tudo faz resistência aos atos que se devem executar. É este contexto que envolve uma das grandes tarefas determinadas pela vida numa sociedade regida pelo interesse da produção material.
Cercado dos objetos de consumo adquiridos em transações que não favorecem as economias do comprador, os olhos se abriram diante de uma luminosidade fugidia. A íris esforça-se no ajuste da pupila conforme a claridade possível, o cristalino empenha-se em sintonizar a imagem das coisas ao derredor. Para além dos bens não duráveis, as vistas se deterão sobre os apetrechos que mais nos auxiliam ao longo da jornada.
Enquanto as águas caem do céu, embaçando vidros e janelas, enlameando ruas sem asfalto, o esforço convocado ao corpo é um dever exigido a toda pessoa imbuída de suas responsabilidades. O labor insta que sejam acionados deltoides, bíceps, tríceps e extensores, ao impulso dos músculos peitorais, que se ocupam em movimentos repetitivos (acelerando paulatinamente), engajando o agrupamento dos membros superiores. Naturalmente, como não poderia deixar de ser, os inferiores também acompanham o expediente. Estendem-se os tensores da coxa e os tibiais das panturrilhas; na sequência, tendões dos calcanhares e das plantas dos pés são agitados em rápido dinamismo. É com a garoa pingando em portas abertas que o dorso erguido, instigado pelo conjunto corpóreo, revolve-se tendo como eixo a coluna que o sustenta; que se diligenciam os passos.
O trabalho realizado aos assobios do vento, a empreitada cumprida à baixa temperatura, dignificam o obreiro. Diante do chamamento da lida necessária, a pessoa industriosa não pode se render aos maus humores de São Pedro, muito menos às pagãs seduções de Aergia e Hipnos.
Por conseguinte, havemos de concordar que, em período invernoso, a primeira e mais árdua ação a ser desempenhada por qualquer ser humano é acordar, abrir os olhos, localizar os óculos, espreguiçar-se, sentar-se na cama e tentar ficar de pé.