
No último sábado, lembramos a mulher negra, latino-americana e caribenha. Desde 1992, cada 25 de julho marca a tentativa de visibilizar a existência e a luta dessas mulheres, grupo no qual, orgulhosamente, me incluo.
Nosso continente ancestral é a África; no entanto, a diáspora forçada demarcou nossas lutas aqui em Abya Ayala – o nome da América Latina para os originários. É um pouco inusitado tomar essa voz plural, mas acontece que me sinto extremamente irmanada a qualquer mulher afrolatina e caribenha. Apesar das diferentes nacionalidades e das diferenças idiomáticas, nos une a injustiça do racismo e do sexismo de cada dia. E quem sofre as mesmas injustiças e opressões se reconhece de longe. Com maior ou menor consciência racial, sabemos que nada nos foi ou nos é facilitado.
Por falar em visibilidade, padecemos da dupla perturbação do olhar que nos racializa: aos olhos do racismo, somos ou mal vistas ou invisíveis. Lélia González – intelectual negra tardiamente reconhecida e hoje incontornável – antes mesmo de que se falasse em interseccionalidade, já questionava as estatísticas brasileiras sobre “mulheres”, assim, sem raça. Dados que apenas serviam para encobrir a grande estratificação social que faz brasis diferentes a depender do tom da pele. Assim, ficávamos subsumidas na categoria “mulheres” sem que nada de nossos interesses se mostrasse.
Lélia, que manejava diferentes saberes, entre eles a psicanálise, apelidou o continente de Améfrica Ladina – nomeação que faz da influência africana um traço inequívoco da latinidade. A intelectual mostrou que a mãe preta — essa figura ora de culto, ora de escárnio — nos subjetivou a todes, da senzala à casa grande. No caso do Brasil, ela o fez torcendo e transformando o idioma colonial em pretuguês. Contudo, essa influência negra não foi menor nos territórios hispanohablantes, ainda que a branquitude de antes – ou a de agora – tente invisibilizar a influência negra aqui e acolá.
No rol das mulheres em luta, tenho gostado de aprender mais sobre a vida da venezuelana Argelia Laya. Este mês, no último dia 10, foi o centenário de seu nascimento. Argélia foi uma professora negra e revolucionária venezuelana cujas ideias voltadas às mulheres sempre a reconduziram à luta. Saber-se negra desde o princípio, de mãos dadas com a ancestralidade africana yorubá, foi fundamental para a determinação de seus caminhos e lutas.
Somos muitas e somos múltiplas. Somos brasileiras, colombianas, venezuelanas e, sim, somos argentinas – ainda que muitos queiram resumir um país inteiro a meia dúzia de brancos ricos capazes de pagar milhares de dólares para assistir aos jogos da Copa do Mundo. Ainda aguardo que os antirracistas de ocasião deem visibilidade às nossas lutas.