
Enquanto alguns ignoram as consequências da emergência climática, há quem esteja se debruçando em pesquisar e encontrar soluções para aprender a lidar com essa crise que veio para ficar. Aliás, o contexto climático é um lado do nosso contexto civilizatório, desse nosso mundo em metamorfose, como argumenta o sociólogo Ulrich Beck, que escreveu a obra Sociedade de Risco, ainda na década de 90.
Quem me acompanha por aqui sabe que esse tema me toca e mobiliza há muito tempo, uns 20 anos, pelo menos. Até por isso, resolvi voltar à academia para tentar entender a complexidade desse emaranhado de tragédias, interesses e como a comunicação, no sentido mais amplo, onde a mídia está inserida, tem funcionado.
Quem viveu ou sentiu as consequências daqueles fatídicos dias de maio de 2024, talvez saiba do que estou expressando. Estávamos na iminência de sermos engolidos pelas águas – Porto Alegre e Região Metropolitana recebem as águas de muitos rios da bacia hidrográfica do Guaíba – e não tínhamos um direcionamento claro, objetivo do que fazer pelas autoridades oficiais. Cada prefeitura dizia o que achava: algumas ignoravam a situação. O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, deu entrevistas dizendo que o melhor era sair da cidade.
Pois há muitas questões a serem desveladas das nuances do desastre de 2024 e de outros que aconteceram e para estarmos mais conscientes do que pode vir pela frente. Entrei no mestrado, depois de mais de 30 anos de formada. Um mega desafio voltar para a Famecos/PUCRS, onde me formei em janeiro de 1993, e me deparar com tudo novo. Aliás, só o piso da escada e dos corredores é o mesmo. O restante é tudo diferente.
Entrei em um universo completamente distinto, com códigos, posturas e gente muito diferente do que estava habituada a transitar. E caí nessa órbita devido à minha inquietude de tentar entender a comunicação nos desastres de 2023 no Vale do Taquari. Aquilo me tocou de um jeito tão profundo que tinha uma sede para compreender como se chegou àquela situação. Fiz inclusive uma reportagem para a Agência Pública que acabou ganhando prêmio sobre o contexto do desastre de 23.
O que aconteceu naquele 2023 foi uma amostra do que estava por vir em 2024, onde milhões de gaúchos tiveram a rotina alterada e impactos de todos os tamanhos Dou essa contextualizada para contar aqui sobre a realização de um evento que trará muitos elementos para entendermos esse contexto, esse “Desastroceno”, como definiu a professora Norma Valencio, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto Sociologia dos Desastres, e que fará a palestra de abertura do evento. O conceito descreve a era contemporânea, na qual o desastre deixa de ser um evento isolado e passa a ser uma condição permanente de vida.
Será o 1º Seminário Internacional Comunicação de Risco e Cultura do Cuidado (clique aqui para ver a programação), que tem como objetivo ampliar o diálogo entre pesquisadores, lideranças comunitárias, gestores públicos e demais interessados para compreender a potência da comunicação de risco no enfrentamento de eventos extremos. A organização do evento é do Grupo de Pesquisa Cuidar_Com, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da PUCRS, e da Escola Municipal Liberato Salzano Vieira da Cunha, que foi extremamente afetada pelas águas em 2024 no bairro Sarandi, em Porto Alegre.
Com o tema “Inovações comunitárias para a proteção coletiva em eventos extremos”, a iniciativa fomenta caminhos possíveis para o desenvolvimento de metodologias que fortaleçam a capacidade de prevenção e resposta social, reduzindo a ocorrência e o impacto dos desastres. O evento integra ainda o Seminário de Movimentos Sociais, promovido pela Escola Municipal Liberato Salzano Vieira da Cunha, o que fortalece a interação entre a produção acadêmica e os saberes e experiências comunitárias.
Um aspecto interessante é que, ao contrário da maior parte dos eventos sobre o tema, este é organizado por mulheres e a programação também é composta majoritariamente por mulheres. O seminário reúne palestrantes nacionais e internacionais, como Fabienne Brugère (Universidade Paris 8), Karla Palma (Universidad de Chile), Norma Valencio (UFSCar), Raquel Recuero (UFPel), Cora Quiteros (UTFPR) e Maria Isabel Bellini (PUCRS). Também contará com a participação de lideranças comunitárias como Mãe Bia (Ilha da Pintada), Jamaica (Quilombo dos Machado), João Rocha (Fundação Pão dos Pobres) e Paulo Sérgio da Silva (Sarandi).
Também será realizado o 2º Colóquio Científico Cuidar_Com, com o tema Comunicação de risco e cuidado em tempos de eventos extremos, de forma presencial e híbrida, no qual participarão pesquisadores, docentes e estudantes de pós-graduação que submeteram suas propostas de trabalho.
O seminário é promovido pelo Grupo Cuidar_Com e pela Cátedra Fulbright PUCRS e tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do RS (FAPERGS), por meio do Edital FAPERGS de Apoio a Eventos Científicos, e do Programa Proext-Capes. O Cuidar_com é um grupo que ajudei a batizar o nome, participei ativamente, mas, por conjunturas da vida, precisei me afastar nos últimos meses. É um grupo de pesquisa do CNPq que articula atividades de pesquisa e extensão voltadas à comunicação em contextos de crise, com ênfase na construção de estratégias que promovam o cuidado, a prevenção e a proteção coletiva diante de eventos extremos.
Aproveito este espaço para divulgar essa bela oportunidade a todos que queiram compreender outros lados da inundação que nos abateu em 2024. Precisamos nos fortalecer e entender melhor outras abordagens interdisciplinares, capazes de enfrentar contextos de crise permanente. Ainda mais porque o Rio Grande do Sul está em uma região muito vulnerável a fenômenos climáticos intensos. Esse debate é cada dia mais urgente diante dos impactos sociais, econômicos e ambientais observados nos últimos tempos, que deixaram marcas e rastros em corações e mentes de todos que foram envolvidos.
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