
A Biblioteca do Negro foi reaberta em 2024, após 5 anos de paralisação das atividades, devido a problemas de saúde de sua fundadora, Yvanilda de Oliveira Belegante, professora de geografia que lutou incansavelmente, por mais de 20 anos, pela aplicação prática da Lei 10.639/2003 nas escolas e pelo incentivo à leitura e práticas das artes negras nas comunidades periféricas de Viamão (RS).
Diante da impossibilidade de retornar às suas atividades, por motivos de saúde, a professora Yvanilda e sua família, com extrema confiança na nossa palavra, doaram o acervo, diante do nosso comprometimento em dar continuidade ao seu trabalho. Esse recomeço registramos aqui, nesse espaço da Coluna Odabá.
Ao assumirmos a curadoria do material, composto por mais de 3 mil publicações temáticas da cultura negra, obras de arte, trajes e tecidos africanos, estávamos plenamente cientes do empenho e do engajamento necessários para o abrigo e a manutenção dos itens, especialmente frente à realidade do cenário de fechamento de bibliotecas temáticas no Brasil, nos últimos anos, por enfrentarem desafios financeiros e de sustentabilidade.
Nossa motivação e disposição, porém, superavam o medo. Comprometidos com o combate ao racismo estrutural na literatura, com a descolonização dos acervos tradicionais e com a garantia de representatividade da população negra, seguimos em frente. O objetivo era tornar acessível ao público mais um polo de resistência cultural e de democratização do conhecimento da cultura negra e acesso à sua ancestralidade.
Tínhamos o sonho de contribuir para o fortalecimento da nossa identidade e pertencimento, estando presentes na luta contra o apagamento histórico, valorizando os escritores negros, historicamente invisibilizados nos acervos de bibliotecas tradicionais.
Nós nos estabelecemos como sublocadores, durante dois anos, na sede da Associação de Afroempreendedorismo Odabá, na Rua João Alfredo, em Porto Alegre, onde, gradativamente, fomos reintroduzindo a biblioteca nos meios culturais.
A cada visita que recebíamos, ficávamos impressionados com a emoção demonstrada pelas pessoas (estudantes, artistas, comunidade em geral, professores, historiadores), que manifestaram a sensação de energia muito forte e positiva despertada naquele ambiente.
Realmente, os livros sobre a Mãe África e a ancestralidade, principalmente, emocionam, porque resgatam identidades perdidas, nos devolvem a dignidade e ajudam a cicatrizar feridas históricas da diáspora negra.
Nestes livros e artigos de arte, visualizamos nossa ancestralidade antes da escravidão e do apagamento histórico. Neles se revelam reinos ricos, tecnologias, filosofias de vida e figuras poderosas, como reis e rainhas. Mostram, também, como a cultura, a fé e a alegria sobreviveram, apesar da violência colonial.
Por meio da leitura, percebemos que existe uma enorme diferença entre conhecer a escravidão e conhecer a história africana: a escravidão é apenas um capítulo; a história é infinitamente maior, muito mais antiga e muito mais rica.
Buscando qualificação, a Biblioteca do Negro, recentemente, foi selecionada no Edital Proler/Ministério da Cultura, por meio do qual estamos aprendendo a fazer mapeamento comunitário, identificando demandas reais das periferias, por meio de rodas de conversa e escuta ativa junto a lideranças locais.
Estamos formando uma rede de parcerias com coletivos, universidades, empresas privadas e instituições diversas para viabilizar projetos. Entre as possibilidades estão a Biblioteca Itinerante, feiras do livro, oficinas culturais, feiras de saberes ancestrais com exposição de artes e de produtos típicos da cultura negra.
Hoje, A Biblioteca do Negro Professora Yvanilda de Oliveira Belegante se estabelecerá honrosamente dentro de um espaço público de resistência e cura, que é o Hub Atividade. A abertura da biblioteca está programada para outubro.
Criado pela Associação da Cultura Hip Hop de Esteio, o Hub Atividade é um ecossistema voltado ao fortalecimento institucional, captação de recursos, autogestão e sustentabilidade de projetos nas áreas culturais, pedagógicas e de desenvolvimento de eventos. Está situado na Rua Miguel Teixeira, 126, Cidade Baixa, em Porto Alegre, no antigo prédio do Ibama.
Como integrantes do Hub Atividade, estamos aprendendo a desenvolver tecnologias sociais por meio da valorização dos saberes ancestrais, da escuta comunitária e das práticas coletivas.
Nesse processo de aprendizagem, tivemos contato com o livro “História preta das coisas – 50 invenções científico-tecnológicas de pessoas negras”, da escritora e influenciadora Bárbara Carine. O conteúdo nos emocionou e desejamos compartilhar:
“A filosofia africana sankofa nos ensina que o conhecimento dos passos que nos trouxeram até aqui é fundamental na construção identitária de quem se é no presente e que, só sabendo de onde se veio e compreendendo na atualidade a sua potência existencial no mundo, saberemos para onde queremos/precisamos ir enquanto povo destituído de sua própria história. Essa é a grande magia da colonialidade: nos violentar atemporalmente, aniquilando sonhos e possibilidades de vida.”
Muitos de nós crescemos conhecendo mais sobre a nossa dor do que sobre as nossas conquistas. Esta história também pertence aos milhões de descendentes da diáspora espalhados pelo Brasil, pelas Américas e por outras partes do mundo, porque, quando uma parte da história é esquecida, todos perdem um pedaço da própria memória.
Esses ensinamentos também são fundamentais às pessoas não negras, para que construam referenciais adequados e respeitosos, que irão repercutir na ampliação de sua cultura, na conscientização e nas atitudes frente a séculos de desigualdade e privilégios.
Hoje sentimos a necessidade de falar sobre África às crianças e aos jovens, aos nossos filhos e netos, algo que, talvez, nossos pais e avós nunca tenham sentido, não porque eles não soubessem quem eram, mas porque cada geração recebeu apenas fragmentos da história, de forma intencional, para alijá-los do processo de emancipação. E aquilo que não é contado, registrado ou documentado corre o risco de desaparecer.
Nossos descendentes precisam saber que a história de nossos ancestrais não começou nas correntes de um navio negreiro. Houve dor, mas também houve muita grandeza.
Houve colonização e exploração, mas também houve resistência e construção.
Um povo que perde a memória corre o risco de perder a si mesmo. Por isso, mostremos a história completa aos nossos descendentes, sobretudo que existiu (e existe) uma África, antes e para além da escravidão.
Nota:
Obra consultada: PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. História preta das coisas: 50 invenções científico-tecnológicas de pessoas negras. 1. ed. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2021.
Todos os textos de membros da Odabá estão AQUI.
Clélia Paim tem formação como Técnica em Mecânica Industrial e é militante dos movimentos negros. Viveu no mundo corporativo branco por mais de 50 anos. Aposentada há 15 anos, segue em atividade no mercado de trabalho e em projetos de impacto social, com a Biblioteca do Negro, seu maior sonho realizado, ao lado do marido Jair Ângelos.
Jair Ângelos é servidor público e atua há mais de 20 anos como assistente social. Membro do Conselho da Igualdade Racial de Viamão (RS), foi presidente da Associação Ubuntu Ukama, na mesma cidade. Participante de vários grupos do Movimento Negro de Porto Alegre, é criador do Grupo ECAU (Estudantes da Comunidade Afro da Unisinos).