
Somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos e dos comentários que acompanhamos na internet. Sim, às vezes, em assuntos que não envolvam sofrimento, os comentários podem ser engraçados e melhores do que a notícia em si. Mas chegamos ao ponto em que a compulsão de comentar sem pensar virou problema de saúde pública. Vamos lá ao acontecido.
Uma mulher morreu atingida por um raio em uma praia de Santa Catarina. Horrível e muito triste. E mais triste: as imagens de uma câmera de segurança captaram o momento em que o raio a atingiu, e viralizaram quase simultaneamente ao atendimento de socorro.
O acontecido mostrou como a vida pode mudar ou acabar inesperadamente em poucos segundos, ou melhor, cerca de 1 a 2 milissegundos, que é o tempo que um raio leva para atingir uma pessoa. De carona, mostrou a espetacularização e tentativa de visibilidade com a desgraça alheia.
Antigamente se chamava imprensa marrom. Aqueles jornais que brincavam, escorriam sangue se fossem espremidos. Hoje podemos chamar de perfil oportunista, com posts de procedência e intenção duvidosa.
Não é jornalismo, não é informação, não é solidariedade. É tentativa de engajamento e monetização, com músicas tristes, imagens da vítima geradas em IA e chamadas de sentido duplo para informações ditas exclusivas.
E daí vêm os comentários. Quem é, morreu de quê, quem estava junto, por que estava ali, e por aí vai. Curiosidade mórbida, já falamos disso em outra coluna, mas explicada pela psicologia como uma forma de catarse, empatia e aprendizado evolutivo.
Depois vêm os religiosos radicais, aqueles que colocam tudo na conta de Deus, seja ele qual for, e dizem que foi a vontade dele. Me faz revirar os olhos. Poxa, não basta ser vontade de Deus as guerras, doenças, injustiças e provações humanas, ainda tem que jogar um raio nos humanos? Fico na dúvida se essas pessoas são fãs ou haters do divino. Talvez seja preguiça de estudar ou de se informar. Tenha fé, mas preserve um pouco de racionalidade, por favor.
Depois vêm os advogados de acusação da vítima: “Mas tava fazendo o que ali? Por que não saiu correndo? Quem estava junto não ajudou por quê? E outros absurdos mais.
E a cereja do bolo de atrocidades dos comentaristas, os piadistas que não perdem a piada, mas perdem a vergonha na cara: menos um gaúcho nas praias de Santa Catarina, e um desaplaudido sem graça nem empatia usando a frase “se eu estiver mentindo, quero que um raio caia na minha cabeça.” Deprimente.
Não sei nem o que dizer pra vocês, mas sei o que eu gostaria de ler quando acontece algo assim. Fatos e discussões realistas.
Fatos como a probabilidade de ser atingido por um raio é de 1 em 1 milhão, mas no Brasil é de 1 em 25 mil, por motivos geográficos. [1]
Gostaria de ler posts que viralizaram com informações sobre como se prevenir, evitando locais abertos, não ficando na água, ficando afastado de postes, árvores sozinhas em descampado, linhas telefônicas ou elétricas e estruturas metálicas, além de outras recomendações da Defesa Civil.
Mais abstrato, mas não menos importante, gostaria que, depois de uma tragédia, a gente se desse conta da nossa finitude, brevidade e insignificância. Gostaria muito que a gente fosse mais empático, repensasse a vida e as atitudes e a gentileza com o próximo, nem que seja em um comentário na internet que vá fazer outra pessoa se sentir aliviada ou feliz.
Que a linda Edinara, que morreu por uma fatalidade ambiental climática enquanto buscava uma vida nova num local que gostaria de viver, tenha sido feliz até o fim. Um abraço fraterno ao companheiro e familiares.
Nota:
[1] O Brasil é o país campeão de incidências de raios, e são 113 mortes e 500 pessoas feridas por conta do fenômeno a cada ano, além do prejuízo de R$ 1 bilhão. Os dados são do Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAT), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Segundo o órgão, as probabilidades de uma pessoa ser atingida por um raio no Brasil são, em média, um em 25 mil. A explicação é geográfica: é o maior país da chamada zona tropical do planeta, área central onde o clima é mais quente e, portanto, mais favorável à formação de tempestades — explicou Osmar Pinto Junior, coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica. (GZH)