
Tarde de outono no Sul, meio frio, meio chovendo.
Dona Arlete saiu correndo de casa, precisava pagar um boleto e voltar logo pra não perder o grupo de oração online.
Ela fazia tudo pelo zap: se informava, conversava com as amigas e família, espalhava fake news, fazia aulas e participava de todo tipo de grupos.
Usava o aplicativo de transporte, de comida, de música, filmes e entretenimento.
Mas pra pagar boletos, comprar passagem de ônibus, visitar as irmãs, marcar exames ou comprar remédios, Dona Arlete fazia questão de ir pessoalmente.
Naquela tarde meio fria, meio chuvosa, com o boleto na mão e o celular na outra, um buraco na calçada atravessou na frente de Dona Arlete. Ela caiu, em câmera lenta, e bateu a cabeça no chão, não com tanta força para abrir a cabeça dura, mas com tração suficiente para doer.
Orgulhosa e sabendo que estava perto de um hospital, foi sozinha para a emergência.
Pela idade e pelo galo na cabeça, foi atendida imediatamente. Exames, espera, mais exames, e o celular toca.
⁃ Mãe, onde você tá?
⁃ Quem fala?
⁃ Mãe, tá de brincadeira? É o Junior, teu filho!
⁃ Ahh, você. O filho reacionário, né?
⁃ Mãe, tá me assustando. Onde você tá?
A enfermeira pega o telefone e explica a situação.
Enquanto Dona Arlete passa por mais exames, os filhos chegam ao hospital.
Junior, companheiro de passeatas de Dona Arlete, chega com sua camisa verdeamarela com a foto do mito. Desde pequeno, Junior era o xodó da mãe. Protegido, mimado, com os dois pés no machismo e falta de empatia, morava com a mãe, com quem compartilhava a falta de noção, o ódio pelas causas sociais e pelo PT.
Logo em seguida, a filha, Luciana, chega correndo. Cumprimenta o irmão, que quase não vê nem conversa. Desde que o pai morreu e o irmão mais velho foi embora do país, ela ficou se sentindo deslocada em casa. Foi morar sozinha, pois não aguentava a mãe e o irmão preconceituosos e sem consciência de classe.
“Sua cumunista”, era o que mais ouvia quando participava de algum evento familiar, o que raramente fazia.
⁃ Como ela está? perguntou Luciana ao irmão.
⁃ Boa tarde pra você também cumunista. Quebrou nenhum osso e está bem, nada sério, só vai ficar 24 horas pra observação. Mas achei ela um pouco estranha no telefone…
⁃ Estranha como Junior? Ela sempre foi parecida com você, digo, estranha…
⁃ Ela me chamou de reacionário!
⁃ Não!! Mais um apelido carinhoso entre vocês? O que tem de estranho nisso? retrucou Luciana, ironicamente.
Nesse momento, Dona Arlete entra no quarto, sentada em uma cadeira de rodas empurrada por uma enfermeira, com quem conversava sobre como o SUS é incrível.
⁃ Mãe, mãezinha, como você tá?
⁃ Junior !! Que merda de camisa é essa? Tira essa camisa do biroliro já! Que vergonha pra uma mãe…
⁃ Mas mãe, foi você quem me deu essa camisa, lembra? Quando a gente ficou aqueles dias todos na frente do quartel…
⁃ Tá maluco, Junior? Eu sou lá mulher de ficar na frente do quartel? Muito menos defendendo golpe, basta o de 64 e o da minha querida Dilma.
O filho incrédulo olha pra irmã, tão perdida quanto ele, quando a mãe dispara:
⁃ Luciana, filha, vem cá dar um abraço e fazer o L comigo…
⁃ Mãe, isso é alguma pegadinha? pergunta Luciana enquanto o irmão se senta pra não desmaiar.
⁃ Não sei, minha filha, do que vocês estão falando?
⁃ Mãe, até ontem você tava tomando detergente…
⁃ Eu? Detergente? Mas por quê?
⁃ Você não lembra? Não sabe o que está acontecendo no país, na Anvisa, na produção do Black Horse, no Banco Master?
⁃ Meodeos, claro que sei, ainda bem! Votei no Lula a vida inteira e já quero pendurar as bandeiras na janela de casa pra eleição desse ano! Lula, ladrão, roubou meu coração…
⁃ Chegaaaaa!!!! gritou Junior com as mãos na cabeça, deixando a camiseta verdeamarelo e o mito ainda mais visíveis, e continuou: Mãezinha, querida, a gente paga mensalidade do Brasil Paralelo, jogamos fora todas nossas Havaianas, rezamos pra pneu, passamos pano pra toda a família Bolsonaro, e agora que mais do que nunca o Flávio precisa da gente, você surta, isso é um pesadelo!!!
Nisso entra um médico no quarto, muito sério, mas logo que reconhece Dona Arlete se transforma em simpatia pura.
⁃ Dona Arlete, quanto tempo! Desde os protestos contra os médicos cubanos…
⁃ Desculpa, mas não era eu, doutor. Eu sou e sempre fui comunista, socialista, defensora de Fidel e charutos cubanos.
Doutor Azevedo ri, achando que Dona Arlete está brincando, e fala do resultado dos exames.
– Tudo certo, nenhum osso quebrado nem intercorrências na cabeça. Rx, tomografia, tudo normal. Amanhã pode ter alta, só por garantia fica aqui essa noite, blá blá blá.
Junior interrompe e conta sobre a aparente transformação da mãe, numa genuína incredulidade.
Depois de ouvir toda a explicação nervosa de Junior, o doutor Azevedo declara não haver nada a fazer, apenas aguardar que a mãe retorne da amnésia retrógrada, pois não houve dano físico. Pode levar semanas, meses, anos ou nunca voltar.
Luciana, um pouco assustada e muito aliviada pela mudança, pede que não se preocupem, pois a partir de agora ela vai cuidar da mãe para ter certeza de que ninguém sequestra a sanidade e humanidade de Dona Arlete novamente — ou pelo menos até a votação do segundo turno desse ano.

