
1 – Aos dezessete já não tocava tão mal o saxofone. Era ainda um alto, da guerreira Weril, marca brasileira com uma lataria tão pesada, e ao mesmo tempo tão pouco ressonante, que melhor seria ter sido um escudo, uma arma, e não um saxofone. Havia que soprar com força, ao risco de guinchos e desafinações. A afinação não era, em 1992, uma questão de gosto como hoje.
2 – Um pouco antes disso, eu havia me tornado um fã de jazz. Quando alguém me diz que a música, a literatura, o cinema, a dança o salvou, não só lhe creio, como reconheço ali um irmão.
3 – É muito solitário ser jovem, quando ninguém está vendo. Nas longas viagens de ônibus, cedo ou tarde nas madrugadas, nas manhãs escuras de outono em que a melancolia úmida de Porto Alegre se adere às roupas, aos ossos, e é impossível não se supor condenado a estar para sempre sozinho.
4 – Esta solidão, contudo, é compositiva, ali tanta coisa começou.
5 – Os saxofonistas americanos. E logo os mestres do tenor. Coltrane, Dexter Gordon, Hank Mobley, Wayne Shorter, mas, sobretudo, Sonny Rollins.
6 – Que faleceu aos 95 anos, o último dos gigantes, nesta semana. Quando morre um artista que amamos, morre parte de nós. E não apenas porque não poderemos esperar que venha nada novo de sua criação (ele já estava há anos aposentado — foi uma vida longuíssima, dirão os que não foram tocados por sua arte), mas por tudo o que sua presença fez por nós antes, em nossa vida, o que de seu engenho se mesclou aos nossos júbilos e infortúnios.
7 – Na época da faculdade, não sei quantas vezes escutei seus discos em cassetes turbinadas pelo poderoso Miami II da Bosch, num voyage a álcool herdado de meu avô.
8 – De todos os sons de saxofone, não haverá nenhum tão gordo como o de Sonny Rollins, mesmo com toda a energia que a nova geração converteu em virtude ao tocar. É virtude, mas é estridente. Penso em gordo como alguma coisa forte, mas acolchoada.
9 – E então tentei imitar seu som. Foi minha referência sonora durante anos, até perder seu lugar para a virulência terna de Gato Barbieri.
10 – Este imitar os gigantes, trabalho impossível, é até hoje o meu principal método de trabalho nas oficinas de escrita criativa. A distância que percorremos para alcançá-los nos leva muito além do que faríamos sozinhos, termina por nos apresentar um outro caminho no meio da estrada, por onde trilharemos nosso som, nossa voz, nossa escrita.
11 – O colosso do saxofone, assim era conhecido. Não tão espiritual como Coltrane, não tão lírico como Dex, mas um campeão dos fraseados e do som redondo, que não preciso fechar os olhos para escutar.
12 – E agora o lembro como naquele voyage, depois de uma noite fracassada, ouvindo Solitude, do disco Way out west, gravado em duas horas, entre as três e as cinco da manhã, num dia qualquer em 1957.
13 – E enquanto a faixa soa, sei que não há tempo, senão o tempo da faixa, onde não há décadas de distância, nem morte, nem nada.
Todos os textos de Pedro Gonzaga estão AQUI.

