
1 – Para viver na serra há que se acostumar com a umidade.
2 – Quase quinze dias de neblina matinal. Às vezes pura névoa, às vezes com uma chuva miúda entre o branco. Ou uma chuva de lado, feito agora, que seria neve, estivesse mais frio.
3 – “Subitamente esta derrota / Esta chuva”, escreveu o poeta Jack Gilbert.
4 – Poeta de muita sensibilidade, mais um fora do radar das editoras brasileiras. Gostaria de culpar a escassez de recursos das casas nacionais, mas é mais falta de coragem, talvez os desafios a vencer com distribuição, gráficas, convencimento dos leitores a irem além das obras fáceis de capas fosforescentes, que nada surpreende possam ser resumidas em cinco linhas por uma IA qualquer.
5 – Leia quinze livros em um dia. Impressione nas reuniões de gestão.
6 – E noto que a crônica já vai rabugenta. Eu não estava rabugento. O poema do Gilbert é precioso, mesmo que a memória só me entregue, por ora, os dois primeiros versos. Penso em buscar o resto, alegra-me reencontrar um poema muito percorrido, mas nunca percorrido de todo, mas não quero parar de escrever para abrir outra tela. E se vou atrás do original no livro, corro o risco de me perder na selva dos poemas.
7 – Melhor carregar a salamandra com mais uma lenha.
8 – Nada seca. Exceto ao calor do fogo.
9 – Catorze dias de neblina, para ser mais preciso. Com algumas incursões de um sol frio e timoroso.
10 – E reclama (eu deveria me constranger) um entusiasta do inverno.
11 – Não quero que o texto seja uma catilinária climática. O clima, ao fim, é como nossa medonha equipe do coração no futebol, há décadas metida em lutas inglórias com refugos de toda sorte no plantel. O pior é que, neste caso, não se trata nem de uma súbita derrota. Reclamamos por rabugentos.
12 – E não era, não no projeto, uma crônica rabugenta. Mas agora é. É o que faz da escrita um movimento livre, que só parece controlado. Ou controlável. Mas a cada nova frase, percebe-se que o fluxo do pensamento escrito é irreversível e chucro. Como a vida.
13 – E que o suposto controle fracassa e o caos nos dá uma piscadela.
14 – Depois forjamos, ao revisar, uma ordem, uma coerência. Um sentido.
15 – Escrever é aportar sentido. Escreva isto no X, ou dance com este slogan girando entre as mãos no Tiktok.
16 – Só a rabugice é verdadeira.
17 – Vou atrás do poema do Gilbert. Não estava equivocado. Ali está uma voz humana no fundo da mais humana solidão, que resistia às perdas até a chegada repentina de uma chuva.
18 – “Entre todas as pessoas / tua ausência/ As pessoas que sempre /
não são tu.”
19 – Esta derrota. Que o fogo diminui, eu diria, aqui no calor poltrona. E até vence.
20 – Antes da fase dos mata-mata.
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