
1 – Escrevo este texto enquanto a Seleção Brasileira ainda não jogou sua partida nas oitavas de final, e, portanto, ainda vive uma delicada sobrevida obtida contra o Japão em uma Copa do Mundo surpreendente em que Alemanha e Holanda foram para casa mais cedo e a França e a Argentina ainda avultam no horizonte como ameaças reais. Mas antes disso tudo o Brasil precisa passar de uma Noruega em boa fase – time que nunca derrotamos antes, não importando em que fase os pseudo vikings estavam. E escrevo este texto porque, sinceramente, não tenho a menor ideia de como pensar nesta Copa ou do que fazer com ela.
2 – Como muita gente que conheço, eu comecei desinteressado dessa Copa e descrente da Seleção devido a muitas razões. O jogo da bola se dá em campo (eu antes diria “nas quatro linhas” ou algo parecido, mas a recorrência com que o ex-oligofrênico-mor da nação, hoje inelegível, usava essa frase para tudo a contaminou e o que eu sinto agora em pensar nela é repulsa), mas há muitas instâncias fora dele que o afetam. E neste momento, nesta Copa em especial, tivemos várias, entre elas as questões políticas da própria Fifa e a política externa internacional ela própria.
3 – A Rússia está banida da Copa desde 2022 em resposta à invasão da Ucrânia. Curiosamente, a mesma Rússia havia sido a sede do Mundial de seleções meros quatro anos antes. Na época em que jogos ocorriam na capital Moscou, na São Petersburgo de Dostoiévski e na Níjni Novgorod de Górki, a Rússia já tinha em seus códigos legislativos normas proibindo a visibilidade homossexual – que eles chamam de “propaganda”. O país também já tinha um histórico de criminalização de qualquer ativismo dissidente, mas nada disso foi um problema para que a Copa fosse realizada lá sem que a conivente imprensa esportiva presente na festa desse um pio. Bom, parece óbvio, alguém me diria, que há um limite claro sendo traçado com esse banimento: a Fifa não se mete em suas políticas internas, mas responde com o banimento quando você começa uma guerra não provocada com outro país.
4 – Só que, olha que curioso… Nesta Copa de inédito trio de países-sede, um dos centros da competição está nos Estados Unidos, que, adivinha só, começou este ano uma guerra não provocada com outro país, o Irã. Os mesmos EUA que impuseram, com a conivência velada da Fifa, que não interveio nem reorganizou a tabela, uma jornada de penas e sofrimento aos jogadores e à equipe técnica do Irã para cada partida. Em uma decisão absurda, os Estados Unidos negaram direito de hospedagem aos atletas, mesmo que seus jogos fossem no país. Assim, a equipe iraniana precisou em todos os seus compromissos viajar do Canadá para os EUA e aguentar além da jornada horas de revista na Alfândega a cada vez. E ainda assim, o time foi lá e jogou, e só não se classificou por um gol em uma combinação de saldos na tabela. Esse é o tipo de trajetória de uma seleção numa Copa que se tornaria filme se fosse vivida por uma hipotética seleção da Ucrânia na Rússia em 2018 ou uma improvável seleção de Israel no Qatar, em 2022. Mas se você pensa o mundo em termos de faroeste com mocinhos e bandidos, com o Irã como um todo penalizado pela perversidade (real) de seu governo, você acaba transformando em “herói” os EUA governados por um alucinado laranja já condenado por abuso sexual e que colocou em ação uma milícia neofascista de brucutus mascarados sem efetivo controle democrático de ninguém. E esse boneco de betacaroteno vira o seu “mocinho” simplesmente porque no bangue-bangue da sua cabeça ele está tocando fogo nos aiatolás…
5 – O futebol muito já foi chamado de “ópio do povo” por conta de sua aparente narcotização para desafios políticos e sociais diante da alegria da bola rolando. Acho interessante, aliás, que a expressão ou algo parecido com ela tenha sido usada primeiramente por intelectuais socialistas da primeira metade do século XIX para se referir à religião – o mais famoso caso o de Marx, em sua Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, escrito em 1843 e publicado postumamente. Porque o comportamento de muitos diante do futebol é o mesmo do fiel religioso. Você abraça a causa de sua seita, você a defende diante de qualquer heresia ou dissidência, você se apoia nela para encontrar conforto diante de sua vida minúscula e sem perspectivas e propósitos sentindo-se parte de alguma coisa maior do que você. Só que quando se fala no “ópio” é que a coisa me parece não se sustentar perfeitamente no domínio da metáfora. O ópio é um estupefaciente, o que significa que, por natureza, seu efeito nos usuários é entorpecente e debilitante. O inglês Thomas de Quincey, em seu clássico Confissões de um comedor de ópio (1821), ressalta o quanto o consumo dessa substância específica amortece as angústias e parece desarmar os impulsos: “Eloquente ópio! Tu, que por tua poderosa retórica, desarmas as resoluções da cólera e que, por uma noite, devolves ao homem culpado as esperanças de sua juventude e suas antigas mãos puras de sangue; que, ao homem orgulhoso, dás um esquecimento passageiro dos erros não redimidos e dos insultos não vingados”. Não à toa Baudelaire, em seu Paraísos artificiais, comenta que, para De Quincey, sua tribo de consumidores de ópio poderia ser descrita como “uma nação contemplativa perdida no seio da nação ativa”. E é por isso que o futebol não me parece muito o ópio do povo, está mais para uma anfetamina do povo.
6 – O futebol não parece pacificar ninguém em uma névoa de contentamento, está mais para um estressor ou estimulante que, durante seus picos de delírio, parece afastar tudo mais devido à hiperestimulação que provoca em seu “usuário” – não vou me estender muito mais nesta metáfora, já há um ensaio longo muito bom comparando o futebol a substâncias tóxicas chamado Veneno remédio, de José Miguel Wisnik, recomendo que leiam. Mas me peguei pensando muito nesse efeito de absorção integral da vontade que o futebol exerce ao ver, em mim e nos demais, o gradual escalar do entusiasmo por esta Copa à medida que o torneio se desenrolava. Foi o diabo do torneio começar e mesmo reticentes como eu pareceram aos poucos se aproximar dessa fogueira em que se desenrolavam estas narrativas que contamos para nós mesmos a cada quatro anos. Nas últimas edições, quase teatros descarados de sombras projetados na parede de um muro de prisão, dados os pendores autoritários vigentes nas últimas sedes: Rússia, Qatar, Estados Unidos.
7 – Só que aí, a Seleção entra em campo e joga. Dado que eu nem acompanhei direito o Brasil na Copa de 2022, da qual guardo pouquíssima memória por haver sido realizada ainda nos rescaldos da pandemia e em pleno pior governo brasileiro desde a ditadura, sempre achei meio falhadas as narrativas muitas vezes repetidas sobre a seleção de 1970, que trouxe o tri (também no México, olha só, outra sede desta Copa) em meio ao período sombrio da ditadura e que, foi, claramente, depois, apropriada como uma “conquista do regime”. Em 2022, com o trauma ainda recente das mortes desnecessárias da pandemia, ampliadas pela incúria da necropolítica oficial, eu não tinha ânimo para nada disso e acho que vi só um jogo do Brasil – justamente o contra Camarões, que a Seleção perdeu (ao menos é o único de que tenho memória). Depois, assisti à final, uma das maiores partidas de todos os tempos, e só. Então sempre me pareceram estranhos depoimentos que afirmavam que a seleção de 1970 acabou levando consigo a torcida até mesmo de alguns esquerdistas perseguidos – ou a uma espécie de mal-estar confuso, como relata Alfredo Sirkis em Os carbonários: “E como deixar de comemorar? A seleção de Zagallo, à qual João Saldanha deu o grande impulso inicial, levou o futebol brasileiro à sua plenitude. (…) Era o futebol brasileiro na sua mais feliz expressão. Este futebol que nasce nos becos, nos baldios à volta das favelas, nas praias, e acaba nos estádios cheios. Futebol dos craques nascidos do povo, de suas peladas”. Essa visão idílica do futebol e dos seus craques “do povo”, bastante compatível com a visão branca classe média da militância marxista do período, também tinha de lidar com o uso político feito pelo regime daquela empolgação toda: “Porque queriam saber da Seleção, acompanhar todos os detalhes da Copa, dezenas de milhões de pessoas ficaram como hipnotizadas, de olho no vídeo. A Copa e suas imagens eram o centro de todas as conversas, de todos os palpites. Não perdiam um só videotape, uma só entrevista com os jogadores, ouviam as dicas e debates dos comentaristas, dos especialistas, das autoridades em geral, opinando sobre futebol. / O governo aproveitou a ocasião para deslanchar uma gigantesca campanha de autopromoção. Era como se a vitória do tri lhe pertencesse”.
8 – Bom, não fui acometido por esse tipo de sentimento em 2022, talvez porque a seleção daquela época fosse positivamente medíocre, e já havia então ficado claro que o tão falado “menino Ney” era um arrivista da bola, com talento individual, mas sem nenhuma característica redentora que o transformasse em um líder em campo para além de dizer “é tóis” ou ficar jogando PUBG online “com os parças”. Que ainda estejamos aguentando seus fãs descerebrados quatro anos depois, quando o “menino” com mais de trinta se tornou praticamente o primeiro caso de jogador aposentado ainda em campo, me parece meio absurdo.
9 – Mas agora, esta seleção, mesmo ainda com a presença de perebas como Raphinha ou Ibañez e com o encostado Neymar como animador de torcida no banco, parece estar evoluindo em degraus, não em eletrocardiograma (em 2022, o time perdeu a segunda partida da fase classificatória, não teve a mesma trajetória ascendente). E também em degraus parece estar crescendo a vontade de torcer por ela, o irracional desejo de vitória suplantando o otimismo que qualquer um deveria sentir ao comparar nosso time com França ou Argentina, por exemplo.
10 – E aí me ataca o questionamento: torcer pelo Brasil, ganhar a Copa. E depois? Já agora está sendo traumaticamente bizarro ver tanta camisa da Seleção por aí sem associar com uma grande convenção partidária sinistra de gente que acampa diante de quartel. A camisa da Seleção já havia sido apropriada pela direita bolsonarista antes mesmo de ela se tornar direita golpista, então sua visão ainda me fere os olhos, principalmente em grandes grupos. Alguns iludidos sempre se apresentam com o argumento de “vamos retomar um símbolo que é nosso”, e isso me faz sempre pensar em como funcionaria um bando de indianos querer retomar o “sentido original” da estrela suástica hoje em dia. Boa sorte com isso. No próprio jogo do Brasil contra o Japão havia um idiota em plena plateia com uma bandeira que fundia a nossa verde-amarela com a dos Estados Unidos. Esse é o tipo de indivíduo em que penso a cada vez que desavisadamente a transmissão foca a torcida com a camisa amarela nas arquibancadas. Não sei o que seria em ano de eleição uma vitória do Brasil nesta Copa. Imagino os dois lados tentando surfar nas consequências, mas o lado de lá claramente já tem a camiseta, então é capaz de eles, que atualmente se retorcem com brigas internas e um candidato lambendo os sapatos de Trump, até se recuperarem com o hexa. Meio que ando dissociando porque sigo torcendo pelo time, mas tenho uns arrepios sinistro pensando nesse tipo de torcedor. Sem falar que a doença ideológica desse campo é tal que aquela deputada catarinense que se fantasia de figurante do Midsommar fez questão de ir para o Twitter louvar o fato de que o gol que deu a vaga ao Brasil foi do jogador número 22, Martinelli. Não sei se tenho paciência para muito mais disso em ano de eleição.
11 – Ao mesmo tempo, o jogo contra Noruega se aproxima, e eu sei que vou acabar torcendo pela Seleção de novo. Sei também, intelectualmente, que, não importa quão fervorosa seja minha torcida, as chances mais prováveis sejam de que o Brasil não leva esta Copa e que talvez sofra uma humilhação gigante na mão de um selecionado de verdade lá adiante na tabela. Ao mesmo tempo, o fato de que Alemanha e Holanda, seleções com peso e tradição, foram despachadas bem cedo, ainda acende uma esperança irracional. Não sei o que fazer com ela.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.