
Se você ainda não ouviu falar dos chamados “Dopamine Sites” (ou “sites dopaminérgicos”), prepare-se: talvez este seja o retrato mais fiel da sociedade contemporânea. Imagine uma loja virtual igual à Shopee, Amazon ou Mercado Livre. Você cria uma conta, escolhe um produto, coloca no carrinho, confirma a compra, acompanha a separação do pedido, vê o aviso de que ele saiu para entrega e até recebe a notificação de que o entregador está próximo. Há apenas um detalhe: ninguém pede o número de seu cartão, você não paga nada… e o produto, parece promessa de político, jamais chegará. Um absurdo? Pois milhões de pessoas estão adorando.
A neurociência explica: a dopamina, o tal hormônio do prazer, não é liberada quando recebemos a recompensa, mas quando a esperamos. Parece que ela não gosta de ser feliz de verdade; ela é uma amante da promessa. O clímax bioquímico está na decisão de comprar e na ansiedade da espera, não na abertura da caixa. O produto físico é só um detalhe burocrático que estes sites decidiram cortar, pois, antes mesmo de usar, o consumidor já está pensando em comprar outra coisa.
Foi justamente explorando esse mecanismo que surgiu, na Coreia do Sul, uma ideia que começou como uma brincadeira. Seu criador, Malhee, imaginou um ambiente onde as pessoas pudessem “comprar” sem gastar dinheiro. O sucesso foi tão grande que hoje essas plataformas reproduzem toda a experiência do comércio eletrônico, incluindo promoções personalizadas, rastreamento do pedido e até avaliações de produtos que ninguém jamais recebeu.
Tem até segmentação de mercado nessa fantasia. O FoodNeverComes, nome que já é uma confissão espontânea de honestidade publicitária, permite ler comentários e avaliações de produtos que nunca existiram fisicamente em lugar nenhum. Outros sites foram além do varejo e recriaram rituais sociais inteiros: a “pausa virtual para fumar”, o “cafezinho” socializando com desconhecidos. Gente fumando sem fumar, tomando café sem café, num exercício coletivo de mímica social que faria qualquer antropólogo perder o sono. É como se estivéssemos construindo um metaverso da rotina, onde a experiência importa mais do que sua existência.
Os defensores dessa tendência argumentam que essas compras fictícias ajudam no planejamento financeiro, permitem conhecer melhor produtos e evitam gastos impulsivos. Sob uma ótica ambiental, dizem ainda que oferecem o prazer do consumo sem produzir lixo, emissões ou desperdício. À primeira vista, parece um excelente negócio: consumo sem dívida, sem poluição e sem arrependimento. Mas existe outro lado da história.
Sempre que o cérebro aprende que um simples clique produz uma pequena recompensa emocional, aumenta a chance de repetir esse comportamento diante de qualquer desconforto. Ansiedade? Faça uma compra fictícia. Solidão? Coloque mais alguns produtos no carrinho. Estresse? Aguarde uma entrega que nunca existirá.
Pouco a pouco, o cérebro passa a preferir recompensas rápidas e previsíveis, exatamente como acontece com redes sociais, jogos eletrônicos e outros sistemas desenhados para capturar nossa atenção. O risco não está na compra imaginária em si, mas no treinamento silencioso de um cérebro que vai perdendo interesse pelas atividades que exigem esforço, paciência e resultados de longo prazo.
O mecanismo é familiar. É o mesmo que nos faz conferir compulsivamente as curtidas de uma postagem, esperar por mensagens, buscar elogios para fotos cuidadosamente editadas ou acompanhar métricas que, no fundo, pouco alteram nossa vida real.
Não encontrei estudo científico que tenha mapeado as consequências diretas dessa prática, mas podemos traçar um paralelo: antigamente, os gregos já diziam que “mais importante que ter, é ser”. Depois, o mercado nos convenceu de que “para ser, é preciso ter”. Agora, a Geração Z nos presenteia com o mantra do século XXI: “mais importante que ter, é quase ter”.
Estamos terceirizando nossa felicidade para um aplicativo que nunca nos entrega nada, e pior, muita gente achando isso genial. Resta perguntar: se já compramos sem comprar, viajamos sem sair de casa, socializamos sem presença, fumamos sem cigarro e tomamos café sem café, quanto tempo falta para começarmos a viver sem realmente viver? Talvez o maior produto vendido pelo século XXI não seja um objeto, mas uma sensação. E, quando nos contentamos apenas com a sensação, corremos o risco de entregar aquilo que temos de mais valioso: a capacidade de encontrar prazer na realidade, e não apenas na sua simulação.
Referências:
– CartaCapital: Dopamine sites: chegamos à era metaverso do consumo onde é possível “comprar” sem gastar nem receber.
– FoodNeverComes
– DreamCheckout
– FakeEats
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