
Eu poderia escrever hoje sobre a declaração de Paulo Figueiredo de que mulheres não sabem votar, especialmente as solteiras, pois as casadas acompanham o marido. Parece ser uma atualização do antigo “voto de cabresto”, que evoluiu para o “voto de aliança”. Poderia escrever sobre os bolsonaristas acusando Michelle e Damares de serem feministas marxistas, o que dá um nó no cérebro de quem conhece a trajetória dessas personagens. Poderia comentar o vídeo em que Michelle acusa Flávio Bolsonaro de grosseria e desrespeito, ou lembrar que Jair Bolsonaro disse a Maria do Rosário que ela era feia demais para ser estuprada e que, agora, foi justamente ela quem se solidarizou com Michelle, provando que há mulheres capazes de separar divergência ideológica de dignidade humana, um feito que boa parte da bancada masculina do Congresso ainda não conseguiu replicar.
Mas não vou escrever sobre nada disso. Vou economizar seu tempo e ir direto à pergunta que permanece quando a poeira baixa: o que realmente está em disputa quando as mulheres entram na política? Há três aspectos que merecem reflexão.
O primeiro diz respeito ao comportamento eleitoral das mulheres. O Datafolha divulgou que elas pendem mais para a esquerda. A direita vibrou: “Viu? “Figueiredo estava certo!” Sim, as mulheres possuem demandas diferentes das dos homens, mas a pesquisa não mostrou ao grande público o que significa “preferência pela esquerda”. Parte da direita passou a considerar as mulheres marxistas por lutarem por seus filhos e defenderem o ECA Digital, que protege crianças de conteúdos nocivos, exploração sexual e violência disponibilizados pelas plataformas digitais. Também por não aceitarem ser assediadas no trabalho nem receber salários menores do que o colega que produz menos, mas circula com mais facilidade pelos espaços de poder. E, na hora da promoção, é ele quem acaba promovido. Por quererem o mínimo de dignidade humana, foram classificadas como “de esquerda”.
O segundo ponto é que o Brasil abriga mulheres com trajetórias, valores e convicções muito diferentes entre si. Há conservadoras, progressistas, religiosas, liberais, feministas e muitas que não se identificam com nenhum desses rótulos. Apesar dessa diversidade, inúmeras experiências acabam sendo compartilhadas: conciliar trabalho e família, enfrentar preconceitos, buscar reconhecimento profissional ou exercer, muitas vezes, a responsabilidade principal pelo cuidado da casa e dos filhos.
Talvez o maior equívoco seja imaginar que existe uma única forma de ser mulher ou que suas escolhas podem ser explicadas apenas por sua posição ideológica. O curioso é que, à medida que se empoderam, as mulheres começam a desenvolver uma coisa perigosíssima chamada “pensamento crítico” e, aí, surpresa: passam a questionar papéis tradicionais e, em alguns temas, aproximam-se de pautas defendidas por setores progressistas, ainda que permaneçam conservadoras em outros. Não por acaso, Paulo Figueiredo acusa as mulheres de preferirem a proteção do Estado à proteção dos maridos.
O terceiro ponto envolve uma discussão recorrente entre mérito e igualdade de oportunidades. A meritocracia defende que as posições devem ser conquistadas por mérito individual, mas desconsidera que não partimos do mesmo ponto e nem todos recebemos as mesmas oportunidades. Se a Câmara tem 18% de mulheres e o Senado, 20%, a lógica meritocrática diria que, sendo elas 51,5% da população, simplesmente não têm “mérito” suficiente. A mesma matemática se aplica às pessoas pretas e pardas, que representam 55,5% da população brasileira, mas ocupam meros 26% das cadeiras. Mesmo quando o Estado tenta reduzir essas desigualdades por meio de regras eleitorais, como a lei que destina 30% das verbas para candidatas mulheres e 30% para candidatos negros, os partidos não cumpriram a legislação e todos foram anistiados. Para as eleições de 2026, os partidos querem derrubar a obrigatoriedade desse percentual para as candidaturas majoritárias.
O maior desafio da democracia contemporânea não é apenas garantir a vontade da maioria, mas assegurar que ninguém seja diminuído por ser mulher, homem, negro, branco, religioso, ateu, conservador ou progressista. Quando substituímos argumentos por ofensas, deixamos de discutir ideias para julgar pessoas.
No fim das contas, o problema nunca foi apenas quem vota em quem. O verdadeiro teste de maturidade de uma democracia é saber se conseguimos reconhecer a dignidade de alguém mesmo quando discordamos profundamente dela. Democracias não fracassam quando as mulheres votam de forma diferente dos homens. Fracassam quando parte da sociedade passa a acreditar que determinados grupos deveriam votar menos, pensar menos ou falar menos. Quando isso acontece, o problema deixa de ser o voto. Passa a ser a própria democracia.
Referências:
– YouTube: Paulo Figueiredo repete ataque às mulheres ao dizer que elas votam mal
– Paulo Figueiredo Show: Ep. 285 – Michelle Bolsonaro atualiza as definições de madrasta
– YouTube: Datafolha dá razão ao Paulo Figueiredo: mulheres votam diferente dos homens
– Instagram: Mulheres têm perfil mais à esquerda que homens, mostra Datafolha
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.