
1 – O conto é o mais acessível e o mais impossível dos gêneros literários.
2 – Acessível porque nossa vida é muito mais feita de pequenas e cotidianas historietas do que de uma acurada arquitetura de eventos que se somam para um grande desfecho. De modo que todos temos muita matéria para contar. E logo para escrever sobre.
3 – A economia do gênero é outro estímulo. Uma história, um pequeno texto.
4 – Mas é um gênero Impossível porque o contista, quando é grande, precisa encontrar o justo instante, o fragmento de uma vida em que tudo foi jogado — acontecimento, transformação, ponto depois do qual não há volta.
5 – O contista, para isso, não conta com a estase total da poesia, este congelamento em que a experiência vital se revela em toda sua magnitude de sensações, sentimentos, ideias, imaginações, raciocínios e consciência da própria linguagem. Também não pode se lançar a construir vínculos de causa e efeito, por meio do fluxo narrativo, como nos romances. Tem a seu favor apenas a rara sensibilidade de perceber o lance fundamental de alguém que jogou o jogo decisivo de sua vida.
6 – E por isso é infrutífero tentar definir como se escreve um conto capaz de perdurar, senão apelando para qualidades formais ou estruturais. Porque como reconhecer o que há num instante decisivo?
7 – Podemos apelar para palavras efetivas e, ao mesmo tempo, deveras ocas. Transição, passagem, travessia, mudança, epifania.
8 – Entre tantas possibilidades, prefiro pensar: o instante em que a personagem perde sua inocência.
9 – Em latim o verbo nocere significa machucar, fazer o mal. Inocente é, assim, aquele que está limpo de dolo. Agrada-me pensar que a perda da inocência tem um aspecto de comprometimento com a brutal imperfeição do mundo. Da qual somos vítimas, perpetradores, juízes, algozes e prisioneiros.
10 – A impossível arte do conto é encontrar o momento dessas superposições a caminho do fim da inocência.
11 – Sérgio Faraco é um dos raros contistas que domina esta arte.
12 – Esta pequena crônica reflexiva é uma celebração à sua obra e à sua figura, um desdobramento do que disse em uma mesa em sua homenagem de que participei na última segunda-feira, dentro da programação do 11° Festival de Inverno de Porto Alegre.