
1 – Ver o mundo desde uma posição lateral, a vida como aquilo que acontece aos outros.
2 – Prendas do envelhecimento.
3 – Que os escritores conhecem desde cedo, acostumados a dar este passo ao lado, para fora do plano dos feitos, para dentro da fantasia, do lugar onde secretamente se faz a conversão do que foi experiência em outra coisa mais perene por mais estável, congelada, para que os outros, por meio da leitura, possam viver mais vidas para além das suas.
4 – Outras vidas que não a nossa. Por isso envelhecer talvez seja tão estranho para quem escreve.
5 – O que antes exigia um deslocar-se agora nos alcança onde estamos.
6 – Dramas do protagonismo. A etimologia nos lembra de que se trata do personagem principal da trama, mas também do mais importante dos contendores dentro de uma disputa.
8 – A idiotia dos gurus das redes celebra apenas a competição e a vitória de um jogo que sempre termina em derrota.
7 – Aceitar estar fora do jogo, ou ao menos do lado de fora, na arquibancada, é o que a arte, num sentido geral, proporciona a cada um de nós. A beleza do jogo. O que só descobrimos na reprise. Junto com a dor do perdido, claro.
8 – Dor conhecida do escritor, que desde jovem, mesmo que não tenha escrito, esteve no campo, no banco e na cabine dos narradores e comentaristas, a uma só vez. Nunca, de fato, em lugar nenhum pelo tempo suficiente para acreditar em regras e táticas infalíveis.
9 – E então um dia, fora do alcance da percepção, tomando-nos passivamente, como numa deposição de armas, o tempo converte o exílio da escrita numa forma nova de assentamento.
10 – E a terra prometida da integração não era a que queríamos. Saíamos para que o mundo de dentro fosse mais íntegro. Mas estávamos destinados a que o mundo de fora fosse a finita realidade, a realidade da morte, da saída definitiva. A literatura não era a salvação.
11 – Exceto para os leitores.
12 – Prendas do envelhecimento. Pelas quais deveríamos ser gratos.
13 – Escrevo para dizer que não aceito.
14 – Desde uma esquina do mundo, como num poema de Kaváfis, desde a esquina do Grande Hotel Canela, onde o que acontece, acontece a um turbilhão de turistas distraídos.