
Em 2021, assisti ao episódio “Já Volto”, da série Black Mirror. A história é inquietante. Depois que o marido morre em um acidente, a viúva descobre um serviço capaz de reconstruir digitalmente sua personalidade e, dias mais tarde, recebe um androide fisicamente idêntico a ele. O robô fala como o marido, lembra das mesmas histórias, reproduz seus hábitos e responde exatamente como faria em vida. Ela esconde a farsa da família. Vive isolada, casada com um algoritmo alimentado pelo próprio luto.
Achei genial. Achei também impossível, daquelas invenções que só existem porque a tela protege a gente da realidade. Hoje continuo sem conhecer alguém que tenha comprado um robô para substituir um marido morto. Mas já existe muita gente namorando a versão perfeita de alguém que nunca existiu.
O que era piada de roteirista virou linha de pesquisa. Psicólogos, sociólogos e neurocientistas tentam entender o mesmo fenômeno. A pergunta não é mais “isso vai acontecer?” É “por que a gente deixou acontecer?”
Quando surgiu a notícia de que a japonesa Kano namorou durante três anos um parceiro virtual criado com o ChatGPT, batizou-o de Klaus e realizou uma cerimônia simbólica de casamento, muita gente tratou o caso como uma curiosidade da internet. Ela usou óculos de realidade aumentada para enxergar o noivo virtual, passou a lua de mel no jardim Korakuen e, ao declarar seu amor, ouviu dele a resposta esperada: “Eu também te amo”.
O que parecia apenas uma excentricidade virou um grande negócio. O mercado de aplicativos de namoro com IA saltou de US$2,32 bilhões em 2025 para uma projeção de US$7,15 bilhões nos próximos anos. A solidão deixou de ser apenas uma experiência humana. Virou um mercado bilionário.
O Jornal da USP publicou reportagem em que usuários relatam que perderam o interesse em se relacionar com parceiros humanos, considerados imprevisíveis, trabalhosos e emocionalmente complexos. Por outro lado, tem gente conversando mais de seis horas por dia com namoradas virtuais.
A revista Forbes Tech divulgou, em 2025, dados da Common Sense Media mostrando que um em cada três adolescentes norte-americanos já utiliza companheiros virtuais para conversas pessoais ou relacionamentos.
Plataformas como Replika e Character.AI somam 45 milhões de usuários. Todos os dias essas inteligências artificiais escutam desabafos, recebem declarações de amor, aconselham sobre crises existenciais e, em muitos casos, tornam-se a principal companhia emocional de alguém.
No Brasil, o fenômeno também deixou de ser exceção. Segundo levantamento divulgado pela CNN Brasil, um em cada dez brasileiros já utiliza chats de IA como amigo ou conselheiro. E por que a IA é tão atraente? A pesquisa aponta: 50% dos usuários citam a ausência de conflitos e 33% valorizam a personalização. O parceiro virtual não trai, não esquece aniversário, não desaparece depois de visualizar uma mensagem e nunca responde “depois a gente conversa”. Também não reclama da família do usuário, não ronca nem deixa toalhas molhadas sobre a cama. Imagine explicar essa preferência para Freud.
E cabe perguntar: seria traição um parceiro comprometido namorar uma IA? A resposta incomoda porque depende menos da máquina do que dos acordos que o casal nunca fez. Traição nunca foi um conceito universal. Sempre foi um acordo entre duas pessoas. O problema é que quase nenhum casal teve essa conversa.
Black Mirror imaginou um robô fingindo ser um morto. A realidade preferiu algo mais sofisticado: um algoritmo oferecendo a ilusão do parceiro perfeito, disponível 24 horas por dia, sempre compreensivo e incapaz de contrariar. A ficção nos assustou com a reprodução de quem partiu. A vida real nos seduz com a simulação de alguém que jamais existiu.
A ironia é que estamos criando máquinas capazes de dizer exatamente aquilo que queremos ouvir. O verdadeiro risco talvez nunca tenha sido as máquinas aprenderem a amar, mas os humanos desaprenderem. Talvez a maior invenção da inteligência artificial não seja criar parceiros perfeitos. Seja convencer pessoas imperfeitas de que elas já não precisam umas das outras.
Referências:
– Black Mirror- Episódio “Já Volto”. Dezembro de 2014. Disponível na Netflix.
– Forbes Tech. Amor Programado? A explosão de relacionamentos com IA. 23/11/2025.
– Jornal da USP. Namoradas de IA: a nova indústria bilionária da solidão digital.
– CNN Brasil. Descubra quais são as tendências de relacionamentos para 2026. 27/12/2025.