
Inovação. Poucas palavras carregam tanto prestígio hoje em dia. Ela costuma vir acompanhada de outras igualmente sedutoras: desenvolvimento, modernização e eficiência. Questionar uma inovação quase sempre soa como resistência ao progresso. Quem faz perguntas corre o risco de ser visto como alguém preso ao passado.
Mas será que toda mudança melhora o sistema?
Talvez inovar não seja apenas substituir o velho pelo novo. Talvez seja uma oportunidade de observar um sistema sob outra perspectiva, reconhecer ganhos, identificar perdas e, com maturidade, corrigir o percurso. Quem trabalha com engenharia ou mecânica sabe que toda alteração produz consequências. Algumas previstas. Outras nem tanto.
Existe ainda uma confusão frequente entre invenção e inovação.
Uma invenção cria algo novo. Uma inovação acontece quando essa invenção transforma a maneira como vivemos.
Foi assim com o elevador.
Mecanismos para erguer cargas existem desde a Roma Antiga. Mas eles só mudaram a história das cidades quando, em 1853, Elisha Otis apresentou um sistema de segurança capaz de impedir a queda da cabine caso o cabo se rompesse. O elevador deixava de ser apenas um equipamento. Tornava-se uma tecnologia segura para transportar pessoas.
E isso mudou profundamente a arquitetura das cidades. Pela primeira vez, edifícios altos tornavam-se uma possibilidade segura.
Nas cidades europeias, cujo tecido urbano histórico já estava praticamente consolidado quando essa inovação surgiu, seu impacto foi menor sobre os bairros tradicionais. Por isso, até hoje predominam edifícios de quatro, cinco ou seis pavimentos. Caminhando por bairros antigos de Paris, Barcelona ou Lisboa, dificilmente encontramos torres. Não porque faltasse técnica para construí-las, mas porque elas simplesmente ainda não faziam sentido.
Há outra curiosidade pouco comentada.
Antes do elevador, os apartamentos mais valorizados eram justamente os mais baixos. Eram maiores, mais confortáveis e destinados às famílias mais ricas. Quanto mais alto o andar, menor o prestígio. Afinal, subir vários lances de escada todos os dias era um esforço reservado aos aluguéis mais baratos.
O elevador inverteu essa lógica.
Os andares altos deixaram de representar esforço e passaram a oferecer vista, iluminação, ventilação e status. A cobertura virou objeto de desejo. O topo da edificação mudou de endereço social.
Curiosamente, essa transformação alterou a posição das classes dentro do edifício, mas não eliminou sua convivência.
Durante décadas era comum encontrar, em um mesmo prédio, apartamentos grandes, médios e pequenos. Famílias com diferentes condições econômicas compartilhavam o elevador, a portaria, a escada e o hall de entrada.
Essa mistura fazia parte da cidade.
Foi só mais recentemente que passamos a produzir condomínios voltados a faixas de renda, em que a homogeneidade passou a ser vendida como qualidade. E a localização virou produto financeiro.
No Brasil, os elevadores chegaram no início do século XX, primeiro em edifícios institucionais e comerciais. Foi apenas a partir da metade do século que se difundiram nos edifícios residenciais. Talvez por isso existam exemplares dessa época que ainda preservam uma mistura interessante de tipologias.
É exatamente assim onde eu moro.
Meu prédio foi construído em 1958. Tem quinze andares e um detalhe que adoro observar. Ainda que exista elevador, gosto de subir pela escada circular, iluminada naturalmente. Ela conta uma história.
Nos quatro primeiros pavimentos existem seis apartamentos por andar. Do quinto ao oitavo, quatro. Do nono ao décimo terceiro, apenas dois. No último pavimento, dois apartamentos duplex.
O edifício vai mudando de configuração conforme sobe.
E isso produz algo raro nas construções atuais: diversidade.
Sempre lembro de uma amiga, caçula de uma família com nove irmãos. Quando alguém comentava o tamanho da família, ela respondia, sorrindo:
— Tenho uma irmã juíza e um irmão que já foi preso.
Depois completava:
— Lá em casa nunca falta assunto.
Sempre achei essa ideia maravilhosa.
Meu prédio me lembra um pouco essa família. Atrás de cada porta existe uma história diferente. Com experiências e formas de pensar diferentes.
Ao longo dos anos, o edifício também foi se transformando. Um morador comprou parte do apartamento vizinho. Outro incorporou duas unidades. Houve quem vendesse uma parte da sala para baixar custos.
A arquitetura permanece. A vida reorganiza seus espaços.
Talvez seja justamente isso que mais me encanta.
A localização central também promove encontro. É possível fazer quase tudo a pé. Muitos têm conta no mercadinho da esquina. Os porteiros conhecem as pessoas pelo nome. Os donos das bancas perguntam pela família. Existe uma espécie de “vida de interior” acontecendo em plena cidade grande. Rostos conhecidos e percursos familiares são parte daquilo que produz nossa sensação de pertencimento.
Há outra curiosidade que vale mencionar.
Em um prédio com quarenta e quatro apartamentos, existem apenas onze vagas de garagem. E, quase sempre, duas permanecem vazias.
Quando as pessoas moram perto de tudo, o carro deixa de ser protagonista. Caminha-se mais. Gasta-se menos tempo no trânsito. Polui-se menos. Vive-se de outra maneira.
Às vezes perguntam se o barulho não incomoda.
Sorrio.
Há algo estranhamente relaxante em ouvir uma buzina ou uma discussão no trânsito e saber que você não faz parte dela.
Também já morei em bairros silenciosos. Ou melhor, aparentemente silenciosos. Havia cachorros latindo, passarinhos começando o concerto antes das seis da manhã, galhos secos raspando no telhado.
Talvez o silêncio absoluto nunca tenha existido.
O que muda é o tipo de vida que escolhemos escutar.
E o tipo de convivência que queremos estimular.
Talvez organizar a vida urbana em condomínios homogêneos também seja uma invenção. E, como toda invenção, ela transforma o sistema. Às vezes me pergunto que percepção de cidade desenvolve alguém que cresce convivendo apenas com pessoas muito parecidas entre si. Talvez o conforto seja real. Mas talvez também empobreça aquilo que torna a cidade mais rica: o encontro com a diferença. Afinal, nem toda mudança melhora o sistema.
E, talvez por isso, eu goste tanto do prédio onde moro. Não apenas pela arquitetura, pela localização ou pela vista. Gosto porque ele me lembra diariamente que a cidade é feita de diferenças.
No fim, descobri que o maior patrimônio não é a arquitetura do edifício. É a democracia que mora dentro dele.