
1 – Amêndoa tostada era o resultado da combinação exalada pelos livros e pela madeira das estantes na sala aberta à calçada no térreo da Miguel Tostes, reconheci esses dias preparando uma granola.
2 – A espera por uns pastéis lustrosos, fritos na hora, na festa colonial de Canela, a algazarra das filas, enquanto desfilam a pé a rainha de sorriso desengonçado e suas princesas deveras mais acabrunhadas, as três a sobreviver aos excessos dos vestidos e das maquiagens.
3 – O farfalhar do plástico que com esmero meu amigo Michael usava para envolver a fonte do computador, uma forma de cuidado avoenga, usada nas coisas que haviam de durar uma vida, e que servia de prenúncio ao fim de mais uma tarde nos albores do século no café da Palavraria.
4 – O modo como as costelas de quem amamos se expande sob nossos dedos que lhes acompanham os arcos, abençoados ossos adormecidos que não se deixam despertar pelo rugir fuliginoso dos caminhões que cortam a cidade de Canela.
5 – O cloro aderido à pele, mesmo com a ducha à saída da piscina em 1992, indo comigo para a cama solteira, permanente lembrança da água, o quase boiar, forma de saúde acre, lacrimogênea, fixa, senão submersa, na memória do corpo.
6 – Depois o calor do bicho tigrado que se deita em meu colo e dificulta a escrita, ou a facilita, a habilidade com que a felina se lava, e o mistério de como não fede ao usar a língua como esponja, a excepcional normalidade.
7 – A certeza do saibro em minhas mãos esfoladas, retornar ao colégio para mais dois períodos, suávamos adolescentes empestando tudo, mas eram as palmas em brasa a impressão mais forte, ineludivelmente laranjas, laranjas e estriadas por pequeninos cortes rubros.
8 – Os sinos da catedral de pedra chamam os fiéis para um novo dia, a brônzea medida do tempo, a vida mensurada pelos sentidos, e um vento que recende a chuva, mais uma vez.