
Quero dividir com você minhas inquietações sobre ciência, Deus e os textos da Bíblia. O que desperta minhas dúvidas não é a existência de Deus, mas as narrativas construídas pelas religiões ao longo da história. Não pretendo convencer ninguém; ao contrário, respeito as diferentes crenças e gostaria de conhecer a sua opinião. Sou acadêmico, acredito na ciência e não vejo incompatibilidade com a fé. Nos últimos 50-100 anos, explicamos fenômenos que antes eram mistério. Talvez nos próximos 50-100 anos a ciência explique o que existia antes do Big Bang, ou como surgiu a vida na Terra, algo que até hoje ninguém reproduziu em laboratório. Ainda assim, acredito no Big Bang e na Teoria da Evolução. Para mim, isso não é fé. É dúvida esperando resposta.
Me considero uma pessoa espiritualizada, com fé numa força superior que rege o universo. Tenho muitas dúvidas sobre a “história oficial” das religiões. Se Deus criou o universo, e a Terra é uma fração de grão de areia nesse universo, por que teria escolhido justamente este planeta minúsculo para criar uma espécie à sua imagem? Porque quis. Tudo bem, sigamos.
O Gênesis narra a criação em etapas: vegetação, peixes, aves, animais terrestres e, por fim, o ser humano moldado do barro. Deus soprou e lhe deu vida. Da costela do homem fez a mulher. Das outras espécies, o texto diz apenas: “Produza a terra seres vivos segundo as suas espécies”. Essas explicações, embora suficientes para muitos, nunca foram suficientes para mim.
Um salto até Jesus. Estima-se que a Terra tinha cerca de 300 milhões de habitantes quando ele nasceu; a Palestina, entre 500 mil e 1 milhão. Havia povos oprimidos na Ásia, na África, na Europa, nas Américas. Por que Deus teria concentrado sua atenção em um único povo? Os demais 299 milhões não eram igualmente filhos de Deus?
Entendo a Bíblia como um livro histórico. Os Evangelhos foram escritos entre 50 e 100 d.C. No Concílio de Niceia, em 325 d.C., consolidou-se oficialmente a compreensão predominante da divindade de Cristo diante de interpretações divergentes. Em 367 d.C., dos 27 livros então existentes, quatro evangelhos foram selecionados como canônicos. Ou seja: relatos transmitidos oralmente por décadas, depois escritos, depois filtrados pela vontade de bispos e teólogos, depois traduzidos, cada tradução com sua própria interpretação. Acreditar que tudo ali ocorreu exatamente como está escrito e deve ser seguido ao pé da letra não faz sentido para mim.
As interpretações sobre o futuro também suscitam questionamentos. Algumas tradições cristãs afirmam que, no fim dos tempos, haverá o arrebatamento (os mortos ressuscitarão e os fiéis destas igrejas subirão ao céu em corpo e alma) e uma grande tribulação (os demais viverão na Terra fome, doenças e catástrofes sem precedentes). Fico imaginando os bilhões de pessoas que nasceram em culturas onde jamais ouviram falar de Jesus. Que responsabilidade teria uma criança nascida em um lugar onde essa mensagem nunca chegou? Ela não é filha de Deus?
Grandes pensadores já questionaram essa arquitetura. Feuerbach via Deus como projeção humana idealizada. Marx chamou a religião de ópio do povo. Freud a leu como expressão de necessidades psicológicas. Nietzsche declarou Deus morto. Espinoza, que era judeu, identificava Deus com a própria realidade: vegetais, animais, pedras, oceanos, estrelas, tudo é Deus; Deus não criou o universo, Deus é o universo. Einstein, que considero o maior cientista da história, professava justamente esse Deus de Espinoza.
Essa necessidade de encontrar sentido não é apenas religiosa. O neurocientista Miguel Nicolelis observa que a mente humana procura explicações para aquilo que não compreende. Os grandes mitos nasceram para explicar o inexplicável. O homem sempre se perguntou: de onde viemos, por que existimos e o que acontece depois da morte. No Império Romano, onde a expectativa de vida rondava os 30 anos em meio à miséria e desigualdade brutal, a promessa de céu e inferno tornou o sofrimento suportável, pois haveria uma recompensa.
Pessoalmente, acredito que existam duas formas de compreender Deus. Uma delas foi construída pela humanidade para preencher lacunas, aliviar medos e oferecer sentido à existência. A outra corresponde à força que criou, ou que é, o próprio universo, muito maior do que qualquer religião consegue descrever. Também acredito que o ser humano não seja apenas matéria e que exista uma dimensão espiritual que sobrevive ao corpo. E acredito em uma justiça que transcende a vida, pois não faria sentido imaginar que o bem e o mal terminem exatamente da mesma forma.
Por isso, desconfio mais das religiões que alimentam o medo e prometem recompensas. Para mim, fazem mais sentido aquelas que inspiram amor, compaixão e humildade. Rezo cada vez menos para pedir e cada vez mais para agradecer. Quanto a Jesus, pouco me importa discutir sua natureza divina. O que realmente permanece vivo é sua mensagem.
Quanto mais estudo ciência, menos respostas definitivas encontro. Curiosamente, acontece o mesmo quando leio sobre Deus. Talvez a maturidade não esteja em acumular certezas, mas em aprender a conviver com boas perguntas. A dúvida não é o oposto da fé, é o que a mantém viva. No fim, o que realmente nos aproxima do divino talvez não seja a convicção de estar certo, mas a humildade de continuar fazendo perguntas, a coragem de rever nossas crenças e a disposição de viver com mais amor do que medo. E você? Em que medida suas certezas ainda deixam espaço para as suas dúvidas?