
1 – Certas coisas seguem argentinas. A água com gás, a qualquer momento do dia, mais gaseificada aqui do que devia, mas vá lá, resmungar é um erro, há que putear, outro hábito importado.
2 – O poeta americano Stanley Kunitz, pensando em quão poucos poemas políticos havia escrito, vendo-se como alguém interessado em política, deu-se conta de que não há nada mais político do que ser poeta num tempo de grandes conglomerados, consumo desmedido e poder concentrado na mão de poucos oligarcas. Acrescento que há uma rebeldia indomável em escrever versos hoje: há que haver um lugar, um refúgio, em que a palavra humana importa, um espaço que ao mesmo tempo preserva e renova a linguagem, que nos abrigue do discurso pasteurizado das IAs e, antes disso, dos ideólogos que logo se assanharão em campanhas falsamente polarizadas, quando não há nenhuma polarização na forma do discurso.
3 – Vale lembrar que a liberdade de expressão de nada vale se não há liberdade de forma. Uma publicação com um conteúdo radical na forma já inerme das redes nada oferece dos ruídos, mais bem rumores, irredentistas dos versos.
4 – Ou uma crônica sobre demasiadas borbulhas na água com gás.
5 – Cujo preço é o escárnio, mormente dos amigos. A pedra da montanha, querem me chamar agora, desde que me vim para a Canela. Por meu gosto por poesia oriental, um deles disse que deve haver um ideograma que represente tudo: minha inação, meu desinteresse acintoso pela relevância dos temas do tempo, o gosto pelo frio e pela contemplação.
6 – Pois hoje lhes fiz já o favor de enviar o dito do Kunitz. Alguém se expõem ao ridículo por eles. Alguém está exercendo a divergência política de se dedicar ao tema mais chinfrim (em aparência), raro contudo, para que possa existir uma saída ao que em aparência importa, mas é de todo irrelevante, porque já pensado, pensado da mesma maneira, levado ao estado de papinha por analistas, comentaristas, todos sóbrios ou grandiloquentes (dá igual), conscientes, mas conscientes do quê, afinal?
7 – A solução ideal é ter um dispositivo para gaseificar a água, o que se paga certamente pelo uso, permitindo que se alcance a dosagem adequada de gás carbônico: cócegas na língua, mas não rebuliço na garganta.
8 – E chamar de soda. Porque a palavra exata é a invenção humana mais próxima da coisa ausente.
9 – Em latim “promittere” (de onde vem nossa “promessa”), significa “enviar antes”, “enviar na frente”.
10 – Etimologia que os políticos bem conhecem. E exploram, mesmo sem nada saber de etimologias. Mandam na frente com palavras inexatas o que nunca mandarão, de fato, depois.
11 – A palavra exata é a melhor promessa. É isso faz dos poetas inimigos obrigatórios daqueles que diariamente liquidam nosso único meio de valorizar o que perdemos ou o que desejamos ter.
12 – Para dizer que às vezes um sujeito perdido a nadar entre as minúsculas circunferências flutuantes de um copo d’água pode ser uma das criaturas mais perigosas sobre a face da Terra.
13 – A destacar que o “pode” ali é fundamental.