
O filme “A Odisseia”, que está nos cinemas, tem dividido opiniões. Não é sobre o filme que quero falar, mas sobre o que ele reacende, os símbolos e as provas enfrentadas por Ulisses em sua longa viagem de volta para Ítaca, depois da guerra de Tróia. Como bem sintetizam as interpretações das pensadoras Lúcia Helena Galvão e Mabel C. Dias, o mito é muito mais do que uma aventura marítima: é uma representação da travessia humana, um mapa simbólico das forças que nos habitam e que Carl Jung, séculos depois, procuraria compreender por meio do conceito de arquétipos.
Ulisses partiu de Tróia com doze navios e centenas de homens. No poema de Homero, a viagem de volta para casa levou dez anos e exigiu dez provas. Mais do que testar sua habilidade de navegar, elas testavam sua capacidade de escolher, resistir, reconhecer seus limites e, sobretudo, permanecer fiel àquilo que desejava encontrar.
A primeira prova ocorre quando uma tempestade desvia os navios para a ilha dos Lotófagos. Ulisses envia três homens em reconhecimento. Os habitantes os recebem bem e oferecem uma flor de lótus, deliciosa, capaz de apagar a memória. Quem come esquece tudo, inclusive que estava voltando para casa. Ulisses precisa ir buscá-los à força, arrastando homens que não queriam mais partir. Aqui a mitologia nos questiona: quantas vezes trocamos o desconforto de seguir em frente pelo conforto de uma rotina que já não nos serve? A zona de conforto não precisa de correntes para nos prender, basta ser agradável.
Em outra prova, eles chegam a uma ilha cheia de cavernas. Ulisses escolhe doze homens e entra numa delas com um garrafão de vinho. Ali vive o ciclope Polifemo, filho de Poseidon, um gigante de um olho só. Ao encontrar os intrusos, Polifemo fecha a entrada da caverna com uma enorme pedra, que só ele consegue mover, e devora dois homens já na chegada.
Ulisses oferece vinho ao gigante. Embriagado, Polifemo pergunta o seu nome. Ulisses responde: “Ninguém”. Quando o ciclope adormece, Ulisses e seus homens furam o seu único olho com uma estaca em brasa. Aos gritos, Polifemo chama os outros ciclopes, que perguntam: “Quem está te agredindo?” “Ninguém me agride”, responde ele, e os vizinhos vão embora.
Quando o gigante abriu a porta para deixar sair o rebanho, Ulisses e seus homens escapam escondidos entre as ovelhas, mas o Polifemo percebe e os persegue. Já a salvo no navio, Ulisses não resiste à tentação de revelar a sua identidade e grita: “Quem te cegou foi Ulisses, o rei de Ítaca”. O gigante então pede vingança ao pai, Poseidon, que passa a perseguir Ulisses e torna ainda mais difícil o seu retorno para casa. É aqui que a história ganha uma dimensão quase psicológica: Ulisses vence quando é “ninguém” e se coloca em perigo quando precisa provar que é alguém. O plano funcionou enquanto Ulisses foi ninguém. Foi o ego, não o ciclope, quem trouxe a tempestade.
Avisado de que o canto das sereias leva à morte, Ulisses quer ouvi-lo, mas sabe que não pode confiar apenas na própria força de vontade. Por isso, ordena que os homens tapem os ouvidos com cera e o amarrem ao mastro, com instrução clara: não o soltem, mesmo que ele implore. Ulisses não elimina a tentação, ele cria condições para não ser dominado por ela. A lição é poderosa: nem sempre somos fortes o suficiente para resistir. Às vezes, somos inteligentes o suficiente para reconhecer nossas fraquezas e criar limites antes de que a tentação apareça. Maturidade talvez não seja acreditar que somos fortes. Talvez seja saber onde somos fracos.
Depois de sucessivas provas, os deuses destroem os navios restantes. Só Ulisses sobrevive, agarrado aos destroços, à deriva por nove dias, até chegar à ilha de Calipso. A ninfa o encontra desfalecido, cuida dele e se apaixona. Oferece-lhe imortalidade e juventude eterna em troca de que ele permaneça para sempre ao seu lado. Ulisses permanece por sete anos nessa ilha. Todos os dias, olha na direção de Ítaca e chora, porque sabe que ali, por mais perfeito que pareça, não é o seu lugar.
Ele prefere voltar para Penélope, reencontrar o filho, envelhecer, enfrentar dificuldades e, um dia, morrer. Quantas vezes fazemos o contrário? Aceitamos uma vida confortável porque temos medo de buscar uma vida que faça sentido. Permanecemos em lugares onde nada nos falta, mas onde também sentimos que alguma coisa essencial está faltando. O corpo descansa em qualquer lugar bonito o bastante. A alma, não.
Depois de ouvir, na terra dos mortos, as advertências sobre os perigos que ainda o aguardavam, Ulisses finalmente chega a Ítaca. Mas não retorna como o herói glorioso que partiu para a Guerra de Tróia. Chega disfarçado de mendigo. Sua casa está ocupada por pretendentes que, durante anos, acreditaram que ele jamais voltaria. Eles consomem seus bens e disputam Penélope, enquanto ela tenta manter viva a esperança de que o marido ainda esteja a caminho. Ulisses precisa, então, reconquistar sua casa. Ele não é mais o mesmo que saiu; a viagem o transformou. Talvez seja esse o verdadeiro sentido de toda jornada: não voltar igual, mas voltar sabendo quem nos tornamos.
Homero não escreveu sobre um homem que atravessou o mar. Ele mapeou as forças arquetípicas que nos atravessam e nos definem. A vida nos leva por mares que não escolhemos. Encontramos nossos Lotófagos, que nos convidam a esquecer nossos sonhos. Encontramos nossos Polifemos, que despertam nosso medo e nosso orgulho. Encontramos sereias, que oferecem prazeres irresistíveis. E encontramos nossas próprias Calipsos, que nos oferecem conforto em troca daquilo que somos. No caminho, perdemos pessoas, certezas, ilusões e versões de nós mesmos. E, quando finalmente chegamos àquilo que imaginávamos ser nosso destino, descobrimos que a viagem nos transformou. Talvez Ítaca não seja apenas um lugar para onde queremos voltar. Talvez seja aquilo que dá sentido à viagem.
Entre tantas lições, uma ficou comigo com mais força: uma decisão madura não é a que evita a dor. É aquela que escolhe qual dor vale a pena carregar. Porque toda vida tem tempestades. Toda escolha implica alguma renúncia. Toda viagem cobra um preço. A pergunta talvez não seja como evitar o sofrimento, mas por qual sonho, por qual amor, por qual propósito estamos dispostos a enfrentá-lo. E você, onde está sua Ítaca? Que tentação está fazendo você esquecer o caminho? Que Polifemo alimenta seu medo ou seu ego? Que sereia você precisa aprender a ouvir sem se deixar levar? E, sobretudo, o que hoje dá sentido à sua viagem?
Referências:
– O significado oculto da Odisseia: a verdadeira viagem da alma humana – Lúcia Helena Galvão.
– Entenda a Oddiseia de Homero (Jung Explica) – Mabel C. Dias.