
Durante três anos participei do projeto arquitetônico e museográfico do Museu Olímpico do Catar. Naquela época eu morava em Barcelona e viajava praticamente todos os meses para Doha. Cada viagem era uma pequena aula sobre arquitetura, cidade e sociedade.
As diferenças culturais apareciam logo no aeroporto de Istambul, onde fazia conexão. Bastava observar as roupas para perceber que o destino exigiria outra postura. Braços descobertos, nem pensar. Calças compridas eram sempre a escolha mais segura.
Mas as maiores surpresas não estavam nas roupas.
Estavam nas pessoas.
Antes da primeira viagem, eu imaginava encontrar um ambiente de trabalho predominantemente masculino. Descobri exatamente o contrário. Havia mulheres — arquitetas, engenheiras, gestoras — vindas de diferentes países islâmicos. Participavam das decisões e argumentavam nas reuniões. A diferença mais evidente era apenas o lenço cobrindo os cabelos.
As reuniões eram longas. Três dias intensos de trabalho. Mas era no intervalo que vivia uma das cenas que mais ficou na memória.
Nas cafetarias, ou melhor, nas casas de chá, havia um biombo separando um espaço reservado exclusivamente às mulheres islâmicas.
Não era um espaço para mim.
Era para elas. Seu momento de convivência simplesmente não incluía homens.
Curiosamente, nunca me fizeram sentir constrangida por estar acompanhada dos colegas homens do outro lado do biombo. Havia uma compreensão muito clara de que eu vinha de outra cultura, de que minhas relações sociais eram diferentes. E isso era tratado com absoluta naturalidade. Muitos daqueles profissionais haviam estudado na Europa ou nos Estados Unidos.
As diferenças existiam. Mas não vinham acompanhadas de hostilidade. Eu também, sempre observei com estranheza, mas respeito.
Com o tempo, fui percebendo que a sociedade era organizada por regras muito claras. Algumas delas descobri quase por acaso.
Em uma quarta-feira, saímos para jantar: dois colegas e eu. Escolhemos um shopping.
Não nos deixaram entrar.
Naquele dia, o acesso era exclusivo para famílias. Dois homens e uma mulher não correspondiam ao conceito de família adotado naquele espaço. Voltamos sem jantar. Foi ali que compreendi algo que nunca havia pensado com tanta clareza.
Shopping center não é espaço público.
É um espaço privado que, justamente por isso, tem o direito de decidir quem entra e quem fica do lado de fora. Lembrei dos rolezinhos no Brasil, quando muitos jovens da periferia insistiam em ocupar os shoppings justamente para questionar esse limite invisível. A reação dos administradores deixava evidente aquilo que muitas vezes esquecemos: esses lugares podem parecer públicos, mas não são.
Outra descoberta veio da própria cidade.
Doha possui avenidas monumentais. Algumas têm oito pistas de rolamento, inspiradas muito mais na lógica dos automóveis do que na dos pedestres. Na primeira viagem, resolvemos escolher um hotel em frente a uma área comercial para fazer tudo caminhando.
Foi uma ingenuidade.
O comércio realmente estava em frente. O problema era atravessar. Sem semáforos, sem faixas para pedestres, sem calçadas contínuas. Acabamos chamando um táxi para percorrer uma distância que, em qualquer outra cidade, seria feita em poucos minutos a pé.
Naquele momento compreendi outra exclusividade.
Aquelas avenidas pertenciam aos carros. Não às pessoas. A cidade também.
Nessa época conhecemos Ashra, um taxista indiano que acabou se tornando nosso amigo. Como voltávamos todos os meses, era bom encontrar um rosto conhecido em uma cidade que mudava rapidamente por causa das obras para as Olimpíadas.
Certa noite fomos jantar com os clientes em uma nova área portuária, elegante, cheia de restaurantes, comércio e moradias. Na hora de voltar, ligamos para Ashra. Minutos depois, ele telefonou de volta.
Não conseguia entrar.
O bairro tinha acesso controlado. Sua entrada só foi autorizada depois que os clientes deram uma autorização formal. Ele mesmo comentou que nunca havia estado ali. Era um lugar bonito. Mas exclusivo.
Exclusivo.
Outro dia, essa palavra foi repetida inúmeras vezes por um corretor quando visitei, por curiosidade, um condomínio de alto padrão. Praça exclusiva. Clube exclusivo. Escola exclusiva. Entrada exclusiva para moradores. Entrada exclusiva para funcionários, junto à entrada exclusiva para serviços. A cada nova frase, eu tinha a impressão de que a cidade ia ficando menor.
Até que ouvi a última.
— E haverá um ônibus exclusivo até o shopping.
Naquele momento não resisti e perguntei:
— Mas o shopping não fica a menos de duzentos metros? Imaginei que fariam um boulevard, cafés, árvores, uma calçada agradável ligando os dois lugares.
A resposta foi imediata.
— Não será preciso caminhar. O ônibus circular exclusivo do condomínio fará esse trajeto continuamente.
Naquele instante senti um vazio muito maior do que quando tentei atravessar aquela avenida em Doha.
Porque dessa vez eu não estava no Catar.
Estava olhando para um empreendimento na minha própria cidade.
Foi então que percebi que talvez estejamos nos importando muito com uma ideia de cidade baseada na separação. Separar moradores de visitantes e de trabalhadores. Pedestres de automóveis. Quem pode entrar e quem deve permanecer do lado de fora.
E, aos poucos, percebi que essa busca incessante pela exclusividade nos afastava justamente daquilo que mais amamos nas cidades.
Caminhar sem destino.
Observar as pessoas.
Descobrir pequenos comércios.
Sentir os cheiros.
Encontrar alguém por acaso.
Ver a vida acontecendo.
No fim, fiquei apenas com algumas perguntas.
Precisamos mesmo de tantos espaços exclusivos?
O que essa exclusividade constrói dentro de nós?
E, principalmente…
Que tipo de sociedade ela está construindo para o futuro?