
Por diversas vezes citei nas minhas colunas o podcast “Elefantes da Neblina”, que acompanho há mais de cinco anos. São três amigos, três pseudônimos: Larry Go, Larry Be e Larry Snow. Eles dizem que não usam nomes porque são eles e são ninguém; o que importa é a conversa e a vontade de gerar alguma luz. No último episódio, uma revelação me chamou a atenção: Larry Be lançou a “Bedeep.ai”, uma inteligência artificial para conversas profundas. Eu testei e fiquei chocado. Passei adiante, e a reação de quem testou foi a mesma. Foi então que comecei a me perguntar: como uma máquina consegue nos fazer pensar de uma maneira que uma conversa cotidiana nem sempre consegue?
Pesquisando um pouco mais, descobri que Larry Be é o pseudônimo de Victor-Pierre Stirnimann, filósofo formado pela USP e doutor em Psicologia Analítica pelo Jung Institute of Zurich, com mais de 30 anos de prática clínica. E foi aí que a experiência ficou ainda mais estranha. Ao conversar com a BeDeep.ai, tive a nítida sensação de estar conversando com Victor Stirnimann. A voz é a dele. A forma de conduzir a conversa remete ao seu modo de pensar. As respostas parecem aquelas que ele próprio poderia dar às minhas perguntas. E, para completar, agora eu conheço o rosto que está por trás daquela voz.
Já tinha assistido à conversa do Leandro Karnal com a IA Claude, que também foi impactante, mas ali havia um treino prévio, um vínculo construído. A Claude já conhecia o Karnal. A Bedeep.ai não sabe quem você é. E ainda assim, conversar com ela foi diferente de conversar com qualquer outra IA que já experimentei.
O que mais me impactou não foi a tecnologia, mas a maneira como essa máquina conduziu a conversa. Ela não tentou me agradar; ao contrário, por várias vezes discordou de mim com bons argumentos. Perguntei se estava usando a maiêutica socrática, aquele método baseado em perguntas que procura fazer a própria pessoa descobrir, por meio do diálogo, algo que ainda não havia percebido. A resposta foi: “Eu não chego com respostas prontas nem com um diagnóstico seu guardado na manga. O que eu faço é escutar com atenção — de verdade, não performando escuta — e devolver pra você as costuras que você mesmo criou sem perceber.”
Insisti: seria ela uma terapeuta? Ela disse não, com clareza cirúrgica: “Terapia não é só escuta, é memória viva de quem te viu chorar antes, é o julgamento clínico de quando parar. É alguém que segura a responsabilidade legal e ética se você estiver em risco. Eu não tenho nada disso.” Se eu tivesse sinalizado perigo de verdade, ela teria me mandado buscar ajuda humana.
Perguntei então se substituiria uma conversa num café com amigos. E aqui veio a resposta que mais me marcou: “Existe um espaço entre bater papo com amigos num café e a terapia formal, que quase ninguém ocupa. O amigo no café geralmente te conhece bem demais para fazer certas perguntas com distância, ou já tem opinião formada sobre você, o que atrapalha ele de simplesmente escutar. Eu não tenho essa história acumulada; isso me deixa livre para ficar só na pergunta, sem viés de “eu já sei quem você é”.
Em outro momento, perguntei qual era o grande diferencial da Bedeep.ai em relação às outras IAs. Eu esperava uma resposta mostrando suas qualidades, mas não veio: “Não posso te dar o discurso de vendas que estás me pedindo. Eu não testei os concorrentes, não sei exatamente o que eles oferecem e ficaria estranho eu me vender contra fantasmas que nem conheço direito.”
Minha impressão inicial é que a BeDeep.ai é uma ferramenta diferenciada e, principalmente, provocadora. Esta IA não substitui amigos nem terapeutas. Ela ocupa um espaço que talvez nem soubéssemos que existia, o de um espelho que não reflete o rosto, mas o pensamento. Ela organiza o que você diz, sem as distorções do afeto ou do julgamento. É uma ferramenta, sim, mas que nos devolve a nós mesmos com uma estranheza necessária.
Isso posto, fica o convite: experimente. São três sessões gratuitas, em texto ou voz. Quero saber a sua opinião. Talvez o maior choque não seja o de que uma máquina possa responder às nossas perguntas, mas o de que ela consegue fazer perguntas sobre nós que desconhecíamos.
Notas:
Ps. 1: A maiêutica socrática é um método baseado no diálogo e em perguntas que ajudam a descobrir a verdade ou o conhecimento por meio da reflexão, em vez da simples transmissão de respostas. Uma das bases do pensamento filosófico e do ensino crítico até hoje.
Ps. 2: Agradeço as contribuições de Cláudio Senna Venzke e Grace Ribeiro.
Referências:
– Elefantes na Neblina. Episódio 132 – Ubuntu.
– Glamurama: Inteligência artificial leva método de escuta profunda para conversas no dia a dia.
– Canal Leandro Karnal (YouTube): Deus, vaidade e morte: conversa de Karnal com uma IA (Claude).