
Em 15 de abril deste ano, publiquei a coluna “Que tal escrever a biografia dos seus pais?”. Era um convite para um projeto coletivo, um jeito de resgatar memórias. Propus formarmos um grupo para trocar experiências, já que nem eu nem os convidados havíamos escrito uma biografia na vida. Sugeri reuniões virtuais a cada duas semanas e um lançamento conjunto em algum salão de condomínio, onde cada um levaria um prato de comida e nos reuniríamos para celebrar. Eu imaginava que umas dez pessoas aceitariam o convite.
As ideias têm uma força que desconhecemos. Para minha surpresa, centro e quatro pessoas se mostraram interessadas. Foi um choque! Começamos as reuniões e fomos aprendendo juntos. Alguns usaram inteligência artificial como apoio; outros preferiram escrever por conta própria. Descobrimos que havia muitas opções para imprimir os livros, e alguns decidiram manter o texto apenas em PDF.
Como acontece na vida, ao longo da caminhada, os compromissos do dia a dia fizeram muita gente perceber que não conseguiria concluir o projeto. Mesmo assim, ninguém desistiu de escrever e permaneceram no grupo. Com a proximidade do lançamento, trocamos o salão de festas por um anfiteatro do Centro Cultural da UFRGS, com direito a coquetel. E como dividir as despesas? Algumas pessoas viriam de outros estados, com um ou dois convidados; outras queriam levar família e amigos. E havia quem tivesse mais condições do que outros. Foi então que surgiu a proposta do “método da pilha”.
Método da pilha? Sim, ele é usado por algumas ONGs para custear projetos. Depois de definido o orçamento, cada pessoa coloca na pilha o quanto pode, e quem coordena vai informando o valor acumulado. Fizemos assim, com contribuições anônimas. E pasmem: em poucos dias atingimos o valor necessário, e ainda sobrou dinheiro. Decidimos ampliar o orçamento para aproveitar o saldo e buscar a diferença. De novo, sobrou. Precisei avisar mais de uma vez: “Pessoal, agora parem de contribuir! Já temos o que precisamos!” Foi incrível, até porque recebemos doações de gente que nem estaria no evento.
Tudo certo para o lançamento em 30 de outubro. Quatro dias antes, o feriado do funcionalismo público foi transferido justamente para essa data, e o Centro Cultural estaria fechado. Graças à sensibilidade do Vice-Reitor da UFRGS, Prof. Pedro Costa, e da Diretora do Centro Cultural, Ligia Petricci, foi possível abrir o espaço exclusivamente para o nosso encontro. Meu agradecimento se estende ao porteiro Pedro, ao técnico de som Fabiano e às pessoas que trabalharam nas cancelas, todos em pleno feriado, para nos ajudar.
Teve quem percorresse quinhentos quilômetros num bate e volta, só para estar ali. Cinco pessoas vieram de São Paulo e uma de Curitiba, especialmente para o evento. Muitas outras concluíram suas biografias, mas não puderam comparecer: havia histórias de Rondônia, do Rio de Janeiro, da Argentina, do Canadá e de tantos outros lugares. Escreveram sobre pais e avós, houve autobiografias, biografias de terceiros e de pais ainda vivos. E lá estava, no palco, o senhor Leomar Paiva Venzke, aos 96 anos, explicando como funcionavam as ferramentas que usou ao longo da vida de marceneiro.

Ao todo, foram apresentadas dezoito biografias. Uma por duas irmãs, outra por dois irmãos, outra por um casal, por filho que subiu ao palco com seu pai. A plateia, de cerca de cem pessoas, se emocionou com relatos de gente que não conhecia, mas que lhe tocou o coração. Ouvimos quem perdeu familiares contar como escrever foi curativo. Ouvimos sobre a luta de imigrantes italianos que precisaram deixar filhos na Itália e nunca mais os reencontraram. Vimos no palco uma pessoa em recuperação de um AVC transformar esse trauma em livro, escrito com o marido e o filho. E vimos um homem de 96 anos, cheio de planos, sonhando em assistir à abertura da Copa do Mundo de 2030. Não havia como não se emocionar.
Foram tantas coisas lindas que, toda vez que me lembro, os olhos marejam. Ficam muitas lições, a principal delas é que somos capazes de alcançar objetivos inimagináveis no início da jornada.
Se encontramos tempo para tocar em temas tão caros e doloridos, se superamos a falta de tempo, resolvemos as questões financeiras e atravessamos tantos imprevistos, será que não podemos vencer outros desafios? Acredite: quando existe um objetivo comum e um grupo que se une, problemas pequenos ou grandes encontram solução.
Naquele anfiteatro, entre vozes trêmulas, lágrimas e aplausos, entendi que cada vida guarda um livro inteiro, e que basta alguém disposto a escutar para ele começar a ser escrito. Escrevemos sobre quem nos deu a vida e, sem perceber, escrevemos também sobre nós. Cada página virou uma ponte entre gerações, entre desconhecidos que de repente se reconheceram na história do outro. Esse foi o maior presente que recebi: a esperança devolvida de que podemos, juntos, construir um mundo melhor para todos. E de que, enquanto houver quem queira lembrar e quem queira ouvir, nenhuma história se perde.
Obs.: Lançamos livros, mas não os vendemos. Os poucos exemplares impressos foram doados. Acesse aqui a pilha de histórias e biografias neste link. Se não conseguir acesso, entre em contato comigo ou com os autores. Os PDFs estão disponíveis gratuitamente.