
No último domingo, visitei o Museu Iberê Camargo, na zona sul de Porto Alegre. Não foram poucas as vezes em que lá estive, e em todas elas sempre gosto mais do museu como um todo do que das exposições nele realizadas. Talvez apenas uma superou a construção arquitetônica: a sobre a artista Modigliani. Mas esse texto segue sendo sobre esse museu lindo.
Projetado por Álvaro Siza Vieira, o museu se ergue com uma arquitetura que recusa transparências fáceis. As aberturas são poucas, calculadas, como lapsos. Não se vê tudo, apenas fragmentos e vieses.
“Como um grande monumento ao inconsciente”, pensei eu, pela primeira vez, mesmo já tendo visitado esse lugar tantas vezes.
Um inconsciente que não é óbvio, que é cheio de curvas, atemporal, sinuoso, com acessos que dão a lugar nenhum, outros que só mostram frestas e ainda outros que nos levam ao salão principal.
Lembro de uma visita, entre tantas já feitas, em que eu, tola e ingenuamente, comentei com a pessoa me acompanhando naquele dia que achava um desperdício não haver mais obras expostas naquelas rampas lindas que dão acessos aos andares. Rampas com claraboias e janelas que dão notícias da cidade de Porto Alegre e sua luz.
A resposta que recebi foi tão bonita que jamais esqueci e penso nela em absolutamente todas as visitas que faço ao local: “acho que esse espaço deve mesmo ser assim, como um respiro entre os andares e entre as obras, para chegar ao próximo andar despido do andar anterior”, disse-me a pessoa. Sei que essa resposta não serve à minha pretensão de fazer essa analogia do museu com o inconsciente, pois o inconsciente não limpa nada, não dá espaço. Pelo contrário: ele “suja” tudo, mistura as obras, as percepções. Ele é todo arte abstrata a ser desvendada por artistas/espectadores corajosos.
Desde domingo, o Museu Iberê Camargo tornou-se um grande aparelho psíquico para mim, um grande inconsciente. Um lugar que exige desvio, repetição, retorno, tempo.
Um museu é muito mais do que um lugar para ver obras. É um espaço para ser atravessado por elas, um espaço apesar delas. Minha mente é um museu cheio de obras estranhas e belas, de luzes que se atravessam e geram sombras mutantes.
Quando saí lá de dentro e me deparei com o Guaíba ali, sempre o mesmo e nunca igual, reafirmei mais uma vez, ainda que não precisasse, como esse lugar é importante para a cidade. Como a arte importa e transporta.
O Iberê nos ensina que algumas arquiteturas abrigam obras, enquanto outras nos obrigam a escutar o que, em nós, ainda não tem forma, mas quem sabe um dia terá.
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