
Sabe aquela história de soprar as velinhas e já sair fazendo conta de quanto tempo resta? Pois eu nunca fui muito fã dessa matemática melancólica. A vida não vem com data de validade impressa na embalagem e acredito que cada minutinho vivido já é uma conquista. Dito isso, lá vai: no dia 10 de abril, eu completo 67 anos. Mas, em vez de focar no número que passou, resolvi celebrar os “33 anos” que faltam para chegar aos 100. Isso mesmo, não é contagem regressiva para encontrar a morte, mas um pacto comigo mesmo de chegar lá com saúde no corpo, lucidez na mente e leveza na alma.
Assim, este ano é o meu aniversário de 33 anos. No próximo, 32. E sigo ajustando essa régua, como se o tempo fosse um estoque de energia que, com sorte e consciência, aprendemos a administrar melhor. Claro, a vida pode nos surpreender a qualquer instante. Mas, como diz aquele provérbio africano: “quando a morte chegar, que me encontre vivo”. Porque talvez a pior morte seja aquela que nos deixa apenas sobrevivendo.
Todos nós sabemos o que faz bem: exercício, alimentação de verdade… mas existe a velha conhecida preguiça. Confesso que há dias em que negociar com o despertador parece irresistível, e a academia acaba ficando para depois. Ainda assim, sigo tentando vencer as desculpas que invento para mim mesmo. Afinal, tenho aprendido que os melhores remédios não estão na farmácia. Estão nas conversas com os amigos, nos encontros simples e, principalmente, no sentimento de ter um propósito. Acordar sabendo por que viver faz toda a diferença.
Então me pergunto, por que nos isolamos tanto? Muitos constroem sua vida social no trabalho e, ao se aposentar, veem esse mundo desaparecer. De repente, a rotina se resume a casa, netos, pets e Netflix. Ou pior, o sonho de um refúgio isolado que, na prática, vira solidão. E a solidão envelhece mais do que o tempo.
Por enquanto, sigo na universidade, aprendendo com os alunos, colegas e até com as novas linguagens do mundo. Um café com amigos deixou de ser detalhe e virou prioridade. E quando a aposentadoria chegar, pretendo continuar em movimento. Porque a vida pulsa no movimento, os neurônios pedem desafios, e boas relações são um privilégio que não tem preço.
Curiosamente, ao discutir com os meus alunos sobre o futuro, os cenários que construímos para daqui a 30 anos não são nada animadores. As mudanças climáticas já apontam para um mundo mais difícil. E, nesse ponto, minha preocupação maior não é comigo, mas com nossos filhos e netos, que talvez não tenham as oportunidades que tivemos.
Também sei que perder quem amamos é inevitável e profundamente doloroso. Por isso, viver muito só faz sentido se for com companhia, com vínculos, com afeto, com presença. Foi assim que me encantei com a ideia das chamadas “Zonas Azuis”: lugares onde as pessoas vivem mais e melhor, como Sardenha (Itália), Okinawa (Japão), Icária (Grécia), Nicoya (Costa Rica) e Loma Linda (Califórnia). Ali, longevidade não é milagre, é estilo de vida. Alimentação simples, movimento diário, laços fortes, propósito claro, pouco estresse e um senso de pertencimento.
E por que não criar nossas próprias Zonas Azuis? Talvez tudo comece pequeno: um grupo de amigos, uma rua, uma comunidade. Um café compartilhado, uma caminhada, uma roda de conversa, um curso de dança ou um grupo de leitura. Não precisa ser numa ilha grega, pode ser no seu quintal. Pode ser hoje.
Vai dar certo sempre? Provavelmente não. Motivos para o pessimismo não faltam. Mas entre tantas possibilidades, eu escolho inventar uma vida que valha a pena ser vivida, valorizando o que há de bom, enquanto ainda está ao nosso alcance.
Daqui a 33 anos, pretendo fazer uma chamada. E quero ouvir cada um de vocês responder, com voz firme e um sorriso no rosto: “PRESENTE!” Mas não qualquer presença, uma presença viva, inteira, acompanhada de gargalhadas sinceras e abraços demorados. Porque, no fim, viver cem anos não é recorde. É uma construção. E o que realmente importa, não é quantos anos você já viveu, mas quantos anos ainda cabem dentro da sua vida.
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