
Quanto, em termos monetários, vale a renúncia de viver o luto da perda de um ente querido? Parei-me a pensar sobre isso na última sexta-feira, dia 17 de abril de 2026, após o anúncio do falecimento do atleta de basquete Oscar Schmidt e exatamente porque, em um intervalo muito curto de tempo, o seu irmão Tadeu Schmidt estaria à frente das câmeras de TV para mais uma transmissão ao vivo do programa BIG BROTHER BRASIL, em sua vigésima sexta edição, exibido pela Rede Globo de Televisão.
Sem tempo para viver o seu luto; de acompanhar os funerais de seu irmão Oscar; de acolher e ser acolhido pela sua família, tudo em nome dos números da audiência e pelos contratos com patrocinadores, talvez Tadeu tivesse ouvido o seu próprio irmão Oscar lhe recomendar: “Tadeu, não ouse faltar ao trabalho”. Porém, ele não era o Oscar! Ele era e continua sendo o Tadeu! A dor é dele, a dor do Tadeu!
Com o programa ainda em reta final de acontecimentos na competição pelo prêmio para a premiação, ainda no domingo, dia 19 de abril, faleceu o pai da participante Ana Paula Renault, favorita para ganhar o reality. A emissora comunicou a Ana Paula Renault o falecimento de seu pai, mas a família “optou” pela continuidade dela no programa e ela seguiu na disputa dos Cinco Milhões de Reais, cujo encerramento da edição se deu na terça-feira, dia 22 de abril de 2026.
Percebemos, ainda dentro do programa e neste mesmo domingo, a reação de não compreensão por parte da participante Ana Paula Renault do que realmente estava acontecendo, e a vimos em choque e atordoada. Eis então que, neste determinado momento, Tadeu Schmidt surge entre os finalistas do programa e “quebra o protocolo”, relatando à participante Ana Paula que havia perdido seu irmão Oscar há 3 dias, chorando compulsivamente e confessando que também entendia o que ela estava sentindo, e que ele e a produção do programa acolheriam a decisão que ela tomasse. Entretanto, nas entrelinhas, podia-se denotar um recado: “Se eu sigo aqui, Ana Paula, você também consegue!
Este foi o grande momento do programa, que estava há três meses no ar e encerrou-se nesta recente terça-feira. Não foram as tretas e brigas que marcaram esta edição, e sim a “superação do luto à força”; pelo prêmio histórico; pelo contingente de patrocinadores; pela audiência, audiência, mas, sobretudo, pela constatação sobre a saúde mental ficar em segundo plano. Para muitos telespectadores, é isso mesmo sobre o desfecho final; afinal, o Oscar, o famoso Mão Santa, estava com uma doença com a qual lutava há anos e “descansou”; o pai de Ana Paula tinha 96 anos, “já estava fazendo hora extra” por aqui, e ah, os sentimentos dos familiares, isso a gente vê depois, afinal tanto Tadeu quanto Ana Paula ainda terão muito tempo para superarem as suas dores.
Após passar por algumas ou todas as fases do desenvolvimento humano, a morte marca o final de um processo único e individual do homem. A morte de alguém significativo desperta o conflito primordial do processo de luto: viver o sofrimento pela perda e, ao mesmo tempo, seguir em frente. Sem poder viver esses marcos de uma forma culturalmente condizente, que cumprem a função de organizadores emocionais para o luto, há mais chances de ocorrerem complicações no processo de elaboração da perda.
A importância do processo de luto não significa obrigatoriedade. Não podemos inferir que o luto precisa ser vivido para que as pessoas acometidas pela perda possam seguir suas vidas e que aqueles que não viveram o processo estão estagnados. Queremos refletir a decisão própria de cada um para a vivência do processo de luto, em suas mais diversas formas e singularidades, e respeitar a importância do ponto de vista de saúde mental. Este processo foi sonegado a Ana Paula Renault e Tadeu Schmidt, mas afinal o show precisa continuar. A dor, o choro, ah, isso a gente resolve depois da festa de encerramento, do café da manhã com a Ana Maria Braga e de toda a agenda de entrevistas e ações de marketing que irão ocorrer. Agora é hora de contabilizar os lucros!
Simone Pinheiro é assistente social, mestre em Ciências Sociais e articuladora do POA Inquieta.
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