
A respeito da mais recente pesquisa do Datafolha:
Quando o pesquisador pergunta em quem o pessoal vai votar sem mostrar a lista de candidatos, 30% respondem Lula. E só 17% citam Flávio Bolsonaro… Agora, eu pergunto: por que ninguém comenta e analisa esses dados?
Li, vi e ouvi — como dizia um velho colunista aqui de Brasília — muita gente comentando e analisando os resultados do levantamento. Pouquíssimas palavras sobre a pesquisa espontânea.
Praticamente todas as análises e comentários são no sentido de que os resultados são bons — ou, no mínimo, não são ruins para Flávio Bolsonaro, como todos imaginavam.
A briga com a madrasta, o tarifaço trumpista, as relações com Vorcaro, o financiamento do filme Dark Horse e da vida do irmão Eduardo nos Estados Unidos, o ataque (imitando o pai) às urnas eletrônicas… Tudo isso, segundo os analistas, deveria ter provocado mais turbulência na já turbulenta jornada bolsonarista em direção ao 4 de outubro. Teve gente espantada com o que considera resiliência — estou pegando uma certa antipatia por essa palavra — da candidatura bolsonarista.
E o Lula? O tripresidente segue na liderança em busca da quarta estrela…
Mas tem quem diga que a pesquisa da semana passada é ruim para ele. Por que ruim, se o Lula se mantém, em praticamente todas as pesquisas, sempre, ali na faixa dos 40% ou muito próximo disso no primeiro turno?
Aliás, essa marca ele conserva desde que ganhou a primeira eleição em 2002.
Antes, Lula tinha perdido três. Em nenhuma delas, ficou longe dos 30% dos votos. Perdeu em 1989 com 17,19% no primeiro turno e chegou aos 46,97% na segunda volta. Fernando Collor ganhou com 30,48% no primeiro turno e 53,03% no segundo. Depois, nas duas derrotas para FHC, em primeiro turno, Lula manteve a média: 27,04% em 1994 e 31,71% em 98.
Aí, chegou o tempo das vacas gordas. Em 2002, na esteira da desconfiança política e dos prejuízos gerais de uma crise econômica que fez o preço do dólar disparar e a taxa de juros subir aos 40%, Lula derrotou os tucanos com 46,14% dos votos no primeiro turno e 61,27% no segundo. E repetiu a dose, em 2006. Surfando na onda do sucesso da expansão da Bolsa Família, do programa Fome Zero, de uma certa estabilidade econômica, Lula ganhou de Geraldo Alckmin com 48,61% dos votos no primeiro turno e 60,83% na rodada decisiva.
Uma curiosidade daquela eleição: o candidato tucano teve menos votos no segundo turno do que no primeiro. Caiu de 41,64% para 39,17%. Só Alckmin conseguiu essa façanha até hoje…
Em 2010, 2014 e 2018, Lula não estava na urna eletrônica, mas os candidatos dele — Dilma Rousseff e Fernando Haddad — mantiveram a média de votos na faixa dos 40%. Dilma ganhou duas e Haddad perdeu para Jair Bolsonaro.
Em 2022, Lula voltou ao palco. Recém-saído da prisão, com o mundo — e a vizinhança aqui no continente — vendo crescer a onda direitista, Lula chamou o adversário de 2006 — Geraldo Alckmin — para ser seu vice, reuniu 10 partidos no primeiro turno, outros quatro no segundo e derrotou Jair Bolsonaro por 50,90% a 49,10%. O ex-capitão ficou com o título inédito de único presidente da República que não conseguiu se reeleger…
Em outubro, teremos a terceira disputa entre o lulismo e o bolsonarismo. E, pelo jeitão que a coisa vai, teremos, de novo, um embate de rejeições. Nesse quesito, há empate na margem de erro. O candidato Bolsonaro é rejeitado por 48% dos pesquisados. Lula, por 46%.
E os cenários de segundo turno, apontados pela pesquisa do Datafolha da semana, permitem dizer que os índices de Flávio Bolsonaro são, mesmo, alcançados, até agora, mais pelos votos anti-Lula do que por preferência pelo filho do ex-presidente.
Veja: o instituto apresentou três cenários de segunda volta eleitoral aos eleitores. Lula x Flávio Bolsonaro, Lula x Ronaldo Caiado e Lula x Romeu Zema. O goiano Caiado, nas pesquisas de primeiro turno, não aparece com mais de 4% dos votos. O mineiro Zema fica ali nos 3%. Flávio Bolsonaro chega aos 32%.
Mas olha o que as pesquisas indicam para o segundo turno, se houver, claro:
Lula 48% x Flávio Bolsonaro 43%.
Lula 47% x Caiado 40%.
Lula 48% x Zema 40%.
Quer dizer, qualquer um que vá para a rodada decisiva contra Lula terá o mesmo número de votos. Para esse pessoal, contra Lula, o que vier vem bem…
E aí está outro risco para a candidatura da direita. Caiado e Zema, para chegar ao segundo turno, têm que tomar votos do Flávio Bolsonaro, já que, acho que ninguém duvida, Lula tem vaga garantida na decisão. E é muito difícil, para não dizer impossível, que Caiado ou Zema consigam reverter para eles mesmos votos que hoje são do Lula.
Então, o candidato do PL, que hoje está sob um escancarado fogo amigo — até o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, já disse que ele não estava preparado para ser candidato a presidente —, se prepare para o tiroteio. Os outros dois candidatos da direita não têm saída: para sonhar com o segundo turno, só ocupando a vaga do PL.
E não vai ser difícil para quem quiser intrigar Flávio, Caiado e Zema. O candidato Bolsonaro trouxe o presidente argentino Javier Milei para a convenção do PL, no sábado, 25 de julho. O hermano esculhambou o Brasil, xingou o ministro Alexandre de Moraes, atacou Lula…
Quando forem confrontados com essas interferências estrangeiras — não dá para esquecer as articulações bolsonaro-trumpistas —, o que vão dizer Zema e Caiado? Concordar? E deixar que Lula siga desfraldando a bandeira da soberania e da defesa dos interesses dos brasileiros?
Para encerrar, volto ao resultado do Datafolha: espontaneamente, 30% dos brasileiros apontam Lula como candidato preferido. Flávio Bolsonaro tem apoio de 17%. E a eleição é uma pesquisa espontânea. A eleitora, o eleitor, quando estão na frente da urna eletrônica, não são estimulados por nada, nem por ninguém. Só pela própria memória de como está a vida, o salário, o funcionamento do posto de saúde, a escola do filho, a segurança no bairro…
Não está tudo bem? Mas está um pouquinho melhor?
O que vai pesar mais na hora de digitar o número do candidato? Lembranças de cinco mandatos petistas (três do Lula) ou recordações dos quatro anos do Jair?