
Desde o colégio, o meu fanatismo pelos Beatles é muito verdadeiro, mas também é um tipo de folclore que se consolidou ao natural e adotei faceiramente como marketing pessoal. É uma paixão real, mas convenhamos que estou longe de ser o único. Levei tão a sério, de qualquer forma, que, quando tinha 17 anos, lá no início dos anos 1980, me tatuei com a imagem da banda na forma de uma apple azul, numa época em que tatuagem era coisa de presidiário. Mas, enfim, quando agora me pego quase às lágrimas ao ouvir repetidamente o último disco do Paul, percebo que o marketing realmente tinha fundamento. Dou risada ao pensar que sempre brinquei: sou heterossexual, mas, se o Paul aparecer na minha frente, digo “sirva-se deste corpicho, ídolo”. E não é que o cara anunciou a primeira vinda pro Brasil incluindo Porto Alegre no roteiro lá em 2010? Óbvio que a minha caixa postal lotou com o pessoal zoando: “Tu vai ter que cumprir.” A minha sorte é que não fiquei sozinho com o Paul, e, mesmo que ficasse, desconfio que não sou exatamente o tipo dele.
Mas o fato é que este disco que o extraterrestre James Paul McCartney lançou na virada dos seus 83 pros 84 anos, completados em 18 de junho, me levou às lágrimas. É redundante dizer que o Paul McCartney fez uma obra de arte, porque o estranho seria não fazer. Mas, a esta altura da vida, um disco com o conteúdo que contém este é muito mágico, pela qualidade absurda de sempre e pela proposta existente em cada faixa. O disco é reflexivo, nostálgico, absurdamente lindo. Tem até faixa dele fazendo um raro dueto com o Ringo, o que não deixa de ser, tecnicamente, a reunião dos Beatles ainda vivos – e espero que vivam ainda por muitos anos. Fui só a cinco shows do Paul e a um do Ringo. Sonho em ir a um sétimo, com ambos juntos. Sério que é o show que mais desejo ver na minha vida.
Recentemente, Paul disse, numa entrevista que compor canções não é só um trabalho e um ofício; é uma compulsão e um prazer. O cara ama o que faz e certamente isso influencia para ser tão unicamente genial! Nem precisava ter dito, mas foi legal saber que tem consciência disso. “As pessoas me perguntam por que continuo escrevendo canções, e respondo que é simplesmente porque me encanta. Sou viciado nisso”, disse. E eu peço, ousadamente, licença pra completar: é que a música, pra esse cara incomparável, o maior artista do mundo sem a menor possibilidade de contestações, é algo natural, que nitidamente sai pelos poros, como a transpiração. Pra ele, música é algo fácil e bom de fazer. É automático.
O Paul é música na forma de gente.
Aquilo de o homem ser feito à imagem e semelhança de Deus, eu sempre interpretei como sendo uma referência de criar, criar arte, ciência e vida. O Paul é o exemplo acabado de que o homem é a representação divina. Na mesma entrevista, ele diz: “De um buraco negro, sai leite e mel, e a sensação é genial.” Ora, é disso que se trata. Quando falam que Israel é a terra do leite e do mel, é nessa lógica, é a “terra santa”. Paul é o ser humano que consegue, de um buraco negro, tirar leite e mel, porque ele é divino. “Simplesmente, quando estou em algum lugar e com tempo livre e tenho perto meu violão ou um piano, o impulso me leva”, comenta ele próprio sobre sua forma de criar. Ou seja, simplesmente sai, e isso é nítido.
Pra mim, pelo simbolismo e também pela beleza da música, o disco “The Boys of Dungeon Lane” tem na lindíssima “Home of us” a sua faixa mais sensacional, porque Paul divide composição e interpretação nada menos que com o Ringo. Sim, a composição é de ambos, a partir de algo feito pelo antigo amigo, que Paul adorou e completou, como nos velhos tempos de Lennon & McCartney, agora numa versão Starr & McCartney. Cogitou-se que Ringo só iria ter uma participação de apoio no vocal, apesar de a música ser de ambos. Paul fez questão de tê-lo junto. Com sabedoria, decidiram que ali haveria um dueto. Tchê, um dueto dos Beatles quando já terminamos a primeira quarta parte do século 21. Bem que sempre levei a sério aquilo de “forever”. Ficou lindo demais!
The Boys of Dungeon Lane se refere a uma rua de Liverpool. Só isso já diz muito. A obra é intimista. Paul toca quase todos os instrumentos, na maioria das músicas. E os temas resgatam sua infância e juventude. Nas letras, dialoga com seus pais, fala num código secreto que teria com John Lennon (a comovente (“Days We Left Behind”) e nas viagens com George Harrison. Até o barato provocado pelos cogus ele menciona. Aliás, falando em barato, quem mostrou o disco assim que disponibilizado no Spotify foi o meu amigão Carlinhos Delfino, que, lá no final dos anos 1970, provocou a epifania em mim ao pôr Abbey Road na vitrola, no apê da Ramiro. Meu Deus, pra que bauras diante disso?!, indaguei na época. Fico imaginando ele e o nosso mano querido Veco Marques, amigo em comum desde piá (e presente no mesmo grupo quando o Carlinhos compartilhou a obra prima), ambos guitarristas da vida toda, ouvindo o solo distorcido de guitarra já na primeira música, “As You Lie There”, seguido da voz do gênio. E depois vem a espetacular “Lost Horizon”, também generosa nas guitarras perfeitas.
Em “Mountain top” (a que remete aos cogus juventude), surge a voz de Nancy Shevell McCartney, a esposa do Paul, meio que murmurando no finzinho. E isso não é novo. Paul vivia compartilhando vocais com a eterna Linda, aliás, amiga da Nancy e ambas responsáveis por ele ser um respeitoso frequentador e até um quase adepto das sinagogas. É uma coleção de riffs de guitarra impossíveis de não provocar emoção. Mas tem até uma flauta tri “The full on de Hill”, na maravilhosa (vou parar de recorrer a adjetivos, tá? Fica avisado que todo o disco é um absurdo, uma emoção permanente de 47 minutos) “Never Know”, que conta com um vocal espantoso, meio gregoriano, uma bateria seca, aquele baixão abusado dele, piano e umas distorções vocais tri Sgt Pepper. A propósito, tem metais e orquestra em “Saleman Saint”. Sei lá, até é difícil escrever sobre tanta lindeza sobrenatural reunida. Padrão Paul de qualidade! Que delícia ouvir a absurda “WeTwo” (sim, prometi poupar nas adjetivações, mas não consegui, sorry) pensando que ele fala com cada um de nós. E, ora, em seguida vem a espetacular (ops! De novo!) “Come Inside”.
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Escrevi ali em cima que ele fala de cada um de nós. E é disso que se trata. Fala pra alma, resgata o que de mais belo temos nesta aventura linda que é a vida, e acho que não foi por acaso que citei o Carlinhos e o Veco. Podia juntar o Panaceia, o Aymoré, o CIB, a facul, as ganas de escrever não só como profissão. Um amigo do meu filho Pedrinho chegou em casa, e eu recomendei: “Tarsis, vou te sugerir um som que afaga…” Meu filho, que me conhece por ser filho e espelho, cortou meu barato. “Tá, ele vai dizer pra tu ouvir o disco do Paul.” O Tarsis, que é um baita querido, riu – e certamente ouviu. Como posso ser tão previsível?
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Curiosamente, a música daquelas de pôr o vivente pra cima é justamente ”Home to Us”, que ele compôs, cantou e tocou com o Ringo (Ringo toca bateria na música, o que é um elemento emocionante a mais). Esses rapazes de 84 (Paul) e 86 (Ringo) insistem em nos fazer amar a vida como uma permanente “First Star of the Night”. Confesso que nessa música dos dois beatles ainda presentes fisicamente entre nós algo me cativou especialmente: os backing vocals têm um quê da Electric Light Orchestra (ELO), uma banda de som delicioso dos anos 1970 que se propunha a fazer algo muito beatle, mas com recursos eletrônicos. Bom demais! Tomara que essa sonzeira de 14 canções faça o mesmo bem pra você.
Com a palavra, o próprio Paul, um cara reconhecidamente querido, generoso e gentil, no lançamento: “Espero que se apaixonem pelas canções e pelas interpretações deste álbum. Espero que os leve a algum lugar de alegria. Espero que os transporte, porque isso é o melhor da música: pode surpreendê-los e levá-los de repente a um lugar onde pensem. E, vocês sabem, é um álbum completo, e não só faixas, realmente é um lugar. Creio que por isso ‘The Boys of Dungeon Lane’ é um título de que gostei, é um lugar para onde se pode ir. Esse álbum agora é seu. Só espero que possamos nos sentar, relaxar, colocá-lo no toca-discos, nos fones de ouvido, no telefone, no streaming, o que seja, e simplesmente desfrutar o escutando. É o meu objetivo: oferecer algo que possamos desfrutar e que, quanto mais desfrutemos, mais feliz eu estarei.”
Refletindo com a retrospectiva que o disco provoca, ele comentou: “(Eu e o John) quase sempre nos sentávamos juntos com nossos dois violões e lançávamos ideias de composições um para o outro. Olhando para trás, eu não poderia ter encontrado um companheiro melhor.” Depois, ainda acrescentou que John era mais “duro”, e ele mais “romântico”, o que fazia com que se completassem. E ainda disse que o seu romantismo o leva a gostar de coisas que muitas pessoas podem considerar piegas. Também refletiu sobre algo que tem sido recorrente nas suas manifestações: a magia da música ao juntar sons, criar melodias a partir deles e emocionar as pessoas. Quando ele diz isso, penso nos dribles do Pelé e do Messi. Os caras fazem tão ao natural, aquilo flui de forma tão intuitiva, que parece simples. Mas é “só” dom e genialidade.
Rolou uma lágrima de fã aqui.
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Eu tinha o hábito de, quando o preço da gasolina permitia, dar longas voltas de carro com os meus filhos ouvindo cada disco dos Beatles. Concluí que o troço estava escapando do meu controle quando o Pedrinho me disse de cor todas as músicas dos 13 discos, em ordem. Outro dia, eu e a Paulinha (outro espelho, mas na versão feminina) ouvíamos Abbey Road, e eu mostrei pra ela o meu braço, completamente arrepiado. “Uau”, ela disse, e riu muito. Estão acostumados com o folclore, mas ali ela constatou o quão real ele é. Já ouvi centenas de vezes e sempre me arrepio. Aliás, acho que cada vez adoro mais, se é que isso é possível. A cada aniversário deles (25/2, 7/7, 18/6 e 9/10), pra irritação da minha esposa, eu bato com a palma da mão na testa e digo: “Putz, é hoje!” E ela responde furiosa: “Tu já ligou pra ele?!”
Só me resta lembrar: ufa, ainda bem que não faço o tipo do Paul.
Porque eu o (s) amo!
Shabat shalom!