
Tem algo que vi na Argentina quando morei lá e que sempre me foi muito familiar: os apelidos criativos. E nada me tira da cabeça que essa prática vem da forte influência judaica, especialmente em Buenos Aires. No futebol, pra citar os mais notórios, temos “Muñeco”, “Piojo”, “Loco”. Os caras grudam aquele apelido no sujeito e, imediatamente, sem maiores explicações, todos entendem. E esse humor é coisa de judeu. No Colégio Israelita Brasileiro (CIB), meu amigão e xará Leo Berger era craque nisso. Só não vou citar exemplos pra não ferir os alvos que eventualmente se incomodem com picardias infantis. Eu próprio: fui fofinho só uns três anos na minha infância. Virei “Leitão”*. Acho que foi a única vez que me deram apelido, até porque “Léo”, meu nome, já seria um em si, pros Leonardos da vida. Digo isso hoje numa ótima, até porque muitos anos se passaram, falo de um apelido que ficou congelado na poeira de meio século atrás. Nunca pegou, até porque depois nunca fui gordo. Mas na época me incomodava, dava vergonha. Lá pelos 12, 13 anos, eu já tinha emagrecido e, vaidoso, gostava que as gurias me achassem bonito. Troquei os chocolates e Mumus pelo prazer da autoestima. Gostava de ser magrinho e até cuidava a alimentação pra evitar uma improvável recaída.
Mas, enfim, o assunto aqui é mais amplo. Me citei a título ilustrativo porque, comigo mesmo, posso ser retroativamente cruel. Se eu me processar, ganho de mim! Pois então. Tem um apelido coletivo que a comunidade judaica de Porto Alegre se autopespegou e que é sensacional: pardal. Você sabe o que é o pardal?
Pardal é um passarinho que se origina no Oriente Médio e se espalhou pelo mundo, adaptando-se à vida urbana. Se ainda por cima lembrarmos a semelhança entre o bico e o nariz adunco frequentemente existente entre os judeus, somos nós, dos pés forçosamente errantes ao nariz característico que aparece em caricaturas.
Repito que esse apelido genial é cria da comunidade judaica de Porto Alegre. Quando eu era criança, pensava que todo o mundo entenderia. A nossa “torcida organizada” no Grêmio era “Pardais da Fiel, brincando com a famosa “Gaviões” dos corintianos. E como éramos fiéis! Tanto ao time quanto à nossa identidade.
Nas bandas pela Osvaldo, no pátio do colégio ou na piscina do clube, a gente olhava as minas e dizia: “Bah, aquela pardoca tá tri gostosa, hein, meu?!” “Sóóó!”
Naquela época, ser judeu era uma condição. Éramos, e bastava sabermos disso, um sentimento que permeava dos moleques ateus aos mais religiosos, passando pelos que só se empenhavam em jogar bola, se apaixonar pelas minas e puxar fumo, pouco afeitos a esse assunto de pertencimento étnico – como eu próprio era, em certa medida. Aquilo entrava pelos poros. Depois, quando morei em Buenos Aires, vivi um ambiente mais consciente da nossa cultura. Mais adiante, meus filhos estudaram no CIB, e hoje o antissemitismo nos esfrega na cara. Ou seja, vivi três etapas decisivas nessa importante travessia pra conscientização identitária.
Meu ponto é contar que nós, “pardais”, estamos em meio a uma travessia, e é interessante lembrar isso agora no Pessach. A nossa travessia libertadora atual (no Pessach, era da escravidão no Egito) é interior, íntima, uma volta ao gueto emocional, a certeza de que só somos compreendidos entre nós ou por aquelas pessoas de fora que nos apoiam e acolhem com a lucidez e a generosidade que falta a muitos. Meus avós falavam sobre a desconfiança permanente na aldeia da Europa, a frustração de ver alguém virar a cara sem motivo aparente. Por que queriam tanto que os netinhos cuidassem onde e com quem andassem? Ríamos. Agora, os motivos estão expostos.
Amigos queridos, inclusive de esquerda e centro-esquerda, como os ótimos David Stival e Montserrat Mantins, andaram me alertando recentemente, pela minha saúde, para evitar a ignorância dos “antissionistas”, os antissemitas repaginados do século 21, tal qual previu o maravilhoso Martin Luther King. Esses são amigos lúcidos, “não pardais”, que dão algum alento e certa esperança de que as pessoas caiam em si. Outros entram num cancelamento que provavelmente seja irreversível.
O fato é que estamos em meio a uma travessia de volta ao gueto, como foi toda a trajetória dos judeus. Sabemos que podemos contar conosco e com os amigos lúcidos que estão ao nosso lado. Na Europa sob o nazismo, havia os “justos entre as nações”. É a hora de ignorar os desinformados ou os maus que acham natural apagar os judeus e sua trajetória sofrida na diáspora, desde que os pardais saíram do ninho em revoada, expulsos pelo Império Romano em 135 d.C.
Hoje, entendo uma dúvida que me acompanhou por toda a vida: como pôde ocorrer aquilo na Europa dos anos 1930, com um povo supostamente culto e instruído? Os nazistas eram pais de família exemplares, gente fofa. Agora, vejo supostos ex-amigos “humanistas” falando as maiores barbaridades contra o “sionismo”, que é somente o direito de autodeterminação do povo judeu no seu lar ancestral, algo extremamente justo, legítimo e historicamente necessário.
Na rejeição ao projeto da maravilhosa Tabata Amaral (PSB), os contorcionismos semânticos são de doer e, como ocorre cotidianamente, disfarçam-se de “ideologia”. Trocam ardilosamente o sentido de todo o seu conteúdo e propõem falsamente um “debate ideológico”, quando é outro e bem mais feio o nome dessa conversa mole. A Tabata não fala em proibir críticas ao governo de Israel, óbvio! Isso, sim, seria “censura”. Ela nos protege do apagamento e da negação de um direito límpido após séculos de perseguições e segregações. Ela combate o antissemitismo no invólucro de “antissionismo”! E ela é demais e precisa saber disso!
O problema é que demonizam a palavra “sionismo” simplificando o seu significado para “expansionista” e “colonialista”, algo que a tradição judaica inclusive veta, porque o proselitismo é mal-visto. Tem alguma vertente que deseja uma Israel maior do que a de uma eventual partilha com os árabes (palestinos)? Sim, mas sempre foi minoria. A maioria sempre quis só plantar seus tomates cereja, estudar e empreender em paz, segurança e mútuo reconhecimento com os vizinhos árabes.
Já contei algumas vezes aqui neste espaço que, da refundação de Israel em 1948 para cá, houve a rejeição dos vizinhos árabes à partilha do ano anterior, ataques contra a existência judaica, apoio armado do bloco socialista pra se defender disso (sim, isso mesmo) e uma tristemente necessária militarização, como forma de defesa existencial. Estou me reportando a fatos, contra os quais alguns brigam pra apoiar o obscurantismo islâmico que deseja a, aí sim, expansão da sharia num califado literalmente colonialista e intolerante com todas as outras diferenças. Mas, enfim.
Somos pouco compreendidos e estamos sendo crescentemente perseguidos e segregados. Resta a volta ao gueto, ao menos no sentido emocional. Como hoje entendo mais e mais os meus desconfiados avós, que viveram tudo isso! Sabe aquela briga tola com o tio terraplanista e antivacina? Aquilo era uma bobagem reversível. Já a briga contra quem nega a nossa identidade e a nossa trajetória sofrida é séria e possivelmente irreversível. Por quê? Porque somos pardais.
…
*Leitão, na verdade, é o porquinho bebê e tem esse nome porque mama muito, adora o leite. E o incrível é que sou um cara que, se me puserem numa ilha só com frutas e laticínios, estou feliz. Não preciso mais nada. Do queijo à ambrosia, passando pelo iogurte, sou um maníaco por esse produto, um “leitão”. Incrível, não? O Moacyr Scliar falava em nomes que condicionam o destino. No meu caso, trata-se de um apelido muito remoto, lá da primeira infância, que encontrou sentido depois. Logo, se algum pândego vier me encher o saco, saiba que até ressignifiquei o apodo: de porquinho bebê, eu agora o interpreto como bebedor de leite.
Sobre a foto usada na coluna, é a mesa do jantar de Pessach aqui em casa, quando comemos, rezamos e refletimos em família, lembrando os escravos no Egito, para que essa recorrente travessia rumo à liberdade e à dignidade seja sempre compreendida. E eles iram pra Israel, a nossa única referência territorial há milênios, o porto seguro do nosso povo. Isso é cultura e tradição, do grupo étnico mais resiliente da História (raramente uso a palavra “resiliência”, mas é o caso). Ninguém vai nos anular, agredir e segregar. Contamos conosco mesmos e com os nossos amigos, pessoas de lucidez e discernimento que vão além da eventual ideologia.
Deixo você com um ótimo texto da Mariliz Pereira Jorge, escrito na Folha de S. Paulo (o jornal em que trabalhei 11 anos e para o qual fui correspondente quando morei em Buenos Aires) de quarta-feira, 8, sob o título “Antissemitismo Gourmet”: O Rio assistiu, no fim de semana, a um espetáculo de cinismo fantasiado de ativismo. Um bar da cidade afixou um cartaz com a declaração de que israelenses e americanos “não são bem-vindos”. Diante da óbvia acusação de antissemitismo e xenofobia, defensores da medida alegam que não há “proibição” de entrada, apenas um “posicionamento político” . Como se a hostilidade declarada na porta fosse menos grave do que uma tranca na fechadura. A distinção entre proibir e não dar boas-vindas é uma armadilha semântica perigosa. Ela higieniza o preconceito, transforma a exclusão em “direito de expressão” . Mas a história ensina que a barbárie raramente começa com decretos de proibição imediata. Primeiro torna o outro indesejado, sinaliza que aquele corpo, aquela origem ou aquela fé são elementos que contaminam o ambiente. O argumento de que se trata de um protesto contra as ações de governos de Israel ou dos Estados Unidos não resiste a dois minutos de honestidade intelectual. Quando você mira no indivíduo pelo passaporte, não é debate sobre geopolítica, é segregação. É a mesma lógica perversa que vimos em uma delicatessen carioca onde o dono despejou sobre uma cliente judia que “não aguentava mais judeus” . Não era sobre o gabinete de guerra em Tel Aviv; era sobre a pessoa ali, na frente dele. O extermínio e a perseguição de judeus pelo mundo nunca começaram com a solução final. O capítulo da morte é sempre precedido pela introdução do desprezo. Começa com o “não compre aqui” , passa pelo “não se sente nesta cadeira” e se consolida no “você não é bem-vindo” . É a criação de uma atmosfera onde o outro é desumanizado a conta-gotas, até que sua exclusão total pareça, para olhos anestesiados, um passo lógico e aceitável. É assustador ver setores que se dizem defensores de “espaços seguros” e de acolhimento aplaudirem o estabelecimento de zonas de exclusão baseadas em nacionalidade ou etnia. Aceitar a retórica de que “não dar boas-vindas” é algo inofensivo é ignorar que o gueto foi o estágio final de um processo que começou com cara feia e placas de sinalização.
É isso.
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Shabat shalom!
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