
(em honra, empréstimo e epígrafe a Luigi Pirandello)
Prólogo:
Da mesma forma como os sonhos se alimentam de restos diurnos, esta curta encenação em 3 atos se alimenta de restos de interações nas redes sociais que têm intermediado as nossas interações nesses tempos atuais. Aqui e ali, algum leitor terá aquela sensação de familiaridade – às vezes tão forte que a voz interna acenderá a luz amarela do “EPA!!!”.
Os personagens aqui encenados são Maximiliano e Jaime. Ambos estão em sala de cuidados paliativos em hospital privado de uma cidade de médio-grande porte do Brasil. Ambos estão em fase terminal decorrente de doença grave. Estão lúcidos, pelo menos de um ponto de vista médico… Maximiliano é oficial reformado da Marinha do Brasil, da qual saiu para a reserva na patente de Almirante de Esquadra. Jaime é professor universitário, vinculado à instituição federal de ensino superior, no grau de professor-titular de um departamento vinculado às ciências humanas.
A encenação se passa na contemporaneidade brasileira, em algum momento entre o primeiro e o segundo turno das próximas eleições deste 2026.
ATO I – Encontro, Colisões
Setting: sala coletiva de cuidados paliativos em serviço hospitalar de cidade brasileira, com 6 leitos disponíveis, dois leitos ocupados por Jaime e Maximiliano, que estão lado a lado. Os demais leitos estão vagos. Os pacientes estão conectados a dispositivos de vigilância de sinais vitais; estão despertos. Reina completo silêncio no ambiente, exceto pelos bips ocasionais dos aparelhos de vigilância. Os personagens serão doravante identificados por M (Maximiliano) e J (Jaime).
[M e J olham fixamente para o teto por um certo tempo. Quase que simultaneamente, resolvem olhar quem está ao lado, os olhares se cruzam e, constrangidamente, voltam a fitar o teto. M rompe o silêncio].
M: Envelhecer é uma merda mesmo…
(Pausa)
J: Depende…
M: É SEMPRE (enfático) uma merda! Só que às vezes é uma merda, ainda mais merda, como nessa situação em que estamos (pigarreia), quer dizer, estou…
J: (riso contido) Pode me incluir aí… Não estou aqui a passeio… Câncer. Fase terminal.
M: Mesma merda. E olha que me cuidei a vida inteira! Me sinto injustiçado…
J: Eu tentei ser bem-comportado aqui e ali, sem fumar, bebendo pouco…
M: Eu parei COMPLETAMENTE de beber há 20 anos!!!
J: Nem uma cervejinha? Um vinhozinho? Vinho faz bem ao coração, né não?
M: ZERO! Nada! Minha perdição era o uísque… Quase arruína minha carreira.
(Silêncio. Pausa).
M: Sou o Almirante de Esquadra na reserva Maximiliano, a seu dispor!
(Nova Pausa).
J: Sou Jaime, professor-titular em universidade pública, em licença para tratamento médico, e sem muita esperança de voltar…
(Pausa mais longa).
J: Sempre achei a Marinha uma das armas mais… (pausa curta) arejadas… (riso contido)
M: A Aeronáutica é mais! É a arma mais civil… Já o Exército é bronca… (risos).
(Pausa)
M: Tenho mestrado e doutorado na área de tecnologia de informação embarcada…
J: Bom! Tenho doutorado e pós-doutorado em minha área.
M: Educação é importante, porque é o caminho da competência. Competência é tudo. Quer dizer, quase tudo. Competência e vergonha na cara. O Brasil precisa de um freio de arrumação urgente.
J: Ah, precisa sim!
(Pausa)
M: Sempre amei meu trabalho – navegar, cuidar de minha embarcação, de minha equipagem… A vida sempre ficava mais simples em mar aberto…
J: Também nunca soube viver fora do campus, da sala de aula, da formação dos meus alunos…
M: — Mas, além de competência e educação, é preciso ter RESPEITO.
J: Concordo. Sobretudo, respeito por aquilo que a gente combinou respeitar…
M: Respeito por VALORES.
J: Sim.
M: Vamos fazer uma cesta de valores aqui, pra passar o tempo. Eu digo um, você diz outro. Pode ser?
J: Vamos lá! Posso propor uma combinação?
M: Ih… (riso breve). Diga lá!
J: Proponho que um não critique a proposta do outro. Apenas contraponha a sua. Depois a gente pode fazer outra coisa…
M: Concordo. Vá lá, comece!
(Pausa curta)
J: RESPEITO À DEMOCRACIA!
M: RESPEITO A DEUS!
J: Peço um esclarecimento: QUALQUER Deus?
M: Como qualquer Deus? Só há UM DEUS, o Deus cristão.
J: Então posso entender que o senhor propôs “RESPEITO AO DEUS CRISTÃO”, certo?
M: Certo, mas acho redundante “Deus Cristão”… Mas vá lá…
J: RESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS.
M: Agora é minha vez de pedir um esclarecimento: um BANDIDO (ênfase) deve ter os MESMOS DIREITOS HUMANOS de uma pessoa do BEM? Esse respeito de que o senhor fala vale pros dois do mesmo jeito?
J: Quer uma resposta curta ou uma resposta longa?
M: Curta. Não estamos aqui para plantar carvalhos, e sim para plantar pés de coentro…
J: Então é SIM.
(Pausa)
M: RESPEITO À FAMÍLIA. Mas já vou logo dizendo, sem nem mesmo o senhor pedir esclarecimento: falo aqui da FAMÍLIA tradicional, normal, com um pai homem, uma mãe mulher, os filhos e outros parentes pra cima e de lado. Não incluo aqui a abominação da família oriunda de casamentos gays. Porque o homossexualismo é uma doença, uma abominação, um atentado à natureza.
(Pausa)
J: RESPEITO À DIVERSIDADE DE GÊNERO. A condição de heterossexual é somente uma dentre muitas outras.
M: O senhor está me criticando? Olha a regra de nosso jogo!!!
J: Não, estou confrontando… É diferente… A gente não propôs jogar aberto? Eu não consigo desligar seus aparelhos, e nem você consegue desligar os meus… (Os dois riem alto…) Então estamos a salvo um do outro…
M: Mas acho que estamos perto de chegar no limite dessa brincadeira…
J: Pode ser, mas ainda dá pra ir em frente… É sua vez!
M: RESPEITO à MORAL e aos BONS COSTUMES!
(Pausa)
J: RESPEITO ÀS LEIS E SOBRETUDO À CONSTITUIÇÃO.
M: Posso pedir um esclarecimento?
J: Sim, já faz parte…
M: Esse respeito à Constituição não deveria poder ser suspenso quando se avaliar que algum de seus princípios está errado ou envelheceu?
J: Poderia ser revisto nos termos que ela, a Constituição, estabelece. NUNCA por deliberação por fora dessa regra. Nunca por golpe.
M: E quando os termos que a Constituição estabelece estiverem nas mãos de um grupo de políticos corruptos?
J: Se trabalha para mudar esse grupo.
M: E se houver urgência?
J: A urgência maior é a preservação da Constituição.
(Pausa)
M: RESPEITO ao PRINCÍPIO DE PROTEÇÃO DA SOCIEDADE, mesmo passando por cima de uma Constituição, tribunais e políticos.
J: Estou com medo de pedir ao senhor para esclarecer o que quis dizer com “passar por cima da Constituição”…
M: Não pergunte aquilo cuja resposta você conhece. Já deu pra ver que você é um homem inteligente…
Luzes se intensificam no ambiente, entram enfermeiras com medicamentos:
ENFERMEIRA: Como estão esses meninos? Vejo que já ficaram amiguinhos! (Risos gerais). Hora de trocar medicação e do asseio.
Blackout.
Na próxima semana: ATO II – Distanciamento, Estranhamento
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